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Assinatura de Gilberto Freyre
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AMERICANIDADE E LATINIDADE DA AMÉRICA LATINA: CRESCENTE INTERPENETRAÇÃO E DECRESCENTE SEGREGAÇÃO.


Que é, na verdade, em suas relações com outras partes do mundo, a América de ordinário denominada Latina? Que conjunto sociológicamente homogêneo forma no plano sociocultural para poder tôda ela considerada latina além de geogràficamente e, também sociològicamente, americana nas situações dentro das quais se vem desenvolvendo no tempo quanto no espaço sua latinidade?

São pontos, êstes, que preocupam os analistas empenhados em caracterizar e interpretar a América chamada Latina; e pontos para os quais o presente número de Diogène traz esclarecimentos valiosos, vindos de alguns dos mais idôneos, em várias especialidades, dêsses analistas; e segundo diferentes perspectivas e diferentes critérios de análise e de interpretação. Inclusive de que a conjuntura mundial sendo, quase sempre, uma conjuntura particular cujo ritmo acaba por se impor a outras conjunturas (Pierre Chaunu), a relação da América Latina com a conjuntura mundial tem variado conforme as diversas predominâncias que lhe têm afetado as situações: a predominância ibérica ou latina, podendo ser considerada a mais geral e constante; porém modificada, em certos particulares e em épocas sucessivas, por outras predominâncias: a predominância inglesa; a predominância francesa; a predominância ianque. Não deixa de haver hoje, nem tem deixado de haver, no seu desenvolvimento, esta solidariedade básica, física, ecológica com a América anglo-saxônica: a americanidade geográfica de ambas. Também a solidariedade que decorre de virem se desenvolvendo, de modo geral, num mesmo clima psicossocial americano que seria um clima de tensão, de inquietação, e, por conseguinte, favorável ao mesmo desenvolvimento sob aspectos, é claro, diversos. Pois o clima psicossocial americano que aqui se considera não deve ser confundido com o sentido específico de tempo econômico ou com o de tempo cotidiano: tão diferentes para os americanos das duas Américas, a anglo-saxônica e a latina.

É uma tensão, a característica do clima americano em geral, nem sempre saída de dentro para fora: em vários casos é provocada por influências vindas de fora para dentro. Fato que tem impressionado vários sociólogos europeus - um dêles Guglielmo Ferrero - em suas visitas a América Latina, quando têm observado que as fôrças de conservação, de rotina, talvez pudessem até dizer de inércia, tendem de ordinário a ser as representadas por grupos já estabilizados em grupos sociològicamente americanos; e as fôrças de renovação ou de alteração, as representadas por imigrantes recentes, por adventícios, por recém-chegados, para os quais o espaço americano tem significado, em numerosos casos, espaços favoráveis a arrôjos inovadores ou renovadores. Pode-se mesmo dizer que a tensão característica do clima social americano em tôdas as Américas vem sendo, em grande parte, consequência do embate entre essas duas tendências, com muitos ou, pelo menos, alguns dos americanos, já estabilizados na América e já tradicionalmente americanos, representando, paradoxalmente, idéias, sentimentos e hábitos conservadores e europeus, africanos, recentemente japoneses, representando, enquanto adventícios ou recém-chegados, idéias, sentimentos e hábitos renovadores. Isto tem se verificado tanto na América anglo-saxônica como na latina e vem se manifestando em vários setores: no político, no econômico, no religioso, no educacional, no tecnológico, no artístico, no literário. Donde o paradoxo de o clima social característico da América poder ser apresentado como um clima que vem dependendo, como clima de tensão favorável ao desenvolvimento, ao arrôjo, à renovação, da constante presença de elementos não-americanos em geral, e na América Inglêsa, não-anglo-saxônica, em particular, do mesmo modo que na América chamada Latina, de elementos não-ibéricos, em particular, que, recém-chegados à América, têm reavivado entre os americanos já estabilizados o ânimo de americanidade criadora ou renovadora.

Até quando, porém, êsse processo continuará a se fazer sentir na vida e na cultura americanas, conservando-as tensamente americanas, sabido como é que nos últimos decênios tem se reduzido consideràvelmente essa presença de não-americanos na mesma vida e na mesma cultura, embora os japoneses, com relação pelo menos no Brasil, tenham tomado o lugar, até certo ponto ocupado por italianos, alemães e poloneses, nos últimos decênios do século XIX e nos primeiros do século XX, como elemento humano de renovação entre os brasileiros? Aqui é que precisamos de anotar nova tendência na vida e na cultura da América Latina: a tendência para o papel por algum tempo desempenhado por aquêles elementos não-ibéricos vindos da Europa e de outras partes do mundo e representados por indivíduos sôfregos de ascensão social, além da econômica, num espaço, como o latino-americano, para êles mais livre, em algumas áreas, que o de suas terras de origem, passar a ser representado por elementos autoctones - indígenas, mestiços, proletários, camponeses - tocados, através de modernos meios de comunicação que os despertaram de uma como hibernação sociológica, de desejos de ascenção e consciência de direitos que não lhes vinham sendo concedidos senão excepcionalmente pelos elementos dominantes em várias populações nacionais da América Latina: elementos que durante todo um século - desde a independência política dessas populações, outrora sujeitas à Espanha ou a Portugal - dispensaram melhores atenções aos imigrantes recém-chegados do estrangeiro que aos proletários e camponeses de sua própria etnia ou de sua própria cultura - a indo-ibérica ou a indo-afro-ibérica - embora, vários dêsses proletários e camponeses, se apresentem mais ameríndios ou mais africanos em sua cultura que aquêles elementos dominantes, conservadores de traços e de ritos culturais principalmente europeus: traços e ritos, em alguns casos, tocados por influências ameríndias, africanas e orientais. São influências, estas, que, desde os começos da América Latina, vêm colorindo de modo notável a latinidade dessa parte ibérica e francesa da América; e dando à expressão "América Latina" uma imprecisão tal que alguns rigoristas - rigoristas quanto ao que deva ser considerado latinidade - recusam-se a estender a classificação de latina ao todo hoje assim classificado: e só a admitem para o Uruguai e, quando muito, para a Argentina.

Distinção talvez precária, sabido, como é, que à própria cultura argentina não faltam gauchismos de procedência, em parte, ameríndia; e que nem à Argentina nem ao Uruguai tem faltado de todo a presença africana na sua etnia e na sua cultura. A despeito dessa presença e daquelas influências e da presença de elementos étnicos e culturais não-latinos, vindos da Europa e do Oriente, em culturas e sociedades latino-americanas, não parece a alguns de nós inaceitável a expressão América Latina para designar o conjunto que designa, de populações e culturas americanas. Pois há em tôdas elas, dentro do clima social americano de tensão em que se vêm desenvolvendo de modos diferentes, alguma coisa de comum a tôdas e de geral em relação às suas particularidades, que não nos repugna considerar expressão sociológica daquela latinidade que na Europa caracteriza os comportamentos de populações e os valores e estilos de cultura de ordinário considerados latinos: os ibéricos, italianos, franceses. De onde haver inconfundíveis semelhanças sociológicas de comportamento e de cultura entre um caboclo brasileiro assimilado à cultura luso-católica e um mexicano assimilado à cultura espanhola-católica: semelhanças que podem ser consideradas de latinidade pelo muito que nelas provém de uma interpretação latina - portuguêsa ou espanhola - do Cristianismo aplicado a todo um conjunto de atitudes do Homem em face da natureza e da sociedade; e adaptado, dentro dessa interpretação, tão mais plástica que a anglo-saxônica, a situações americanas sob vários aspectos quase as mesmas nas diferentes áreas americanas marcadas pela presença latina, representada por franceses e, principalmente, por espanhóis e portuguêses.

Precisamente essa interpretação socialmente plástica do Cristianismo trazido à América por latinos da Europa é que permitiram que se formassem entre populações rústicas de vários países da América Latina proletários e camponeses que durante longo tempo - longo para a América Latina - vêm, dentro da sua rusticidade, da sua pobreza e até da sua miséria, unindo valores e estilos latinos de cultura a valores e estilos de culturas ameríndias e, em alguns casos, afro-ameríndias, que os têm distanciado um tanto, social e culturalmente, dos elementos política e econômicamente dominantes, nos seus países. Êsse distanciamento é que faz que atualmente, em algumas áreas da América Latina, êsses elementos distanciados, no tempo e no espaço sociais, dos dominantes, se apresentem, à medida que se vêm impondo como elementos empenhados em sua ascenção socioeconômica nas sociedades nacionais a que vinham pertencendo como elementos mais passivos do que ativos, sob o aspecto de fôrças renovadoras das mesmas sociedades e das culturas que as caracterizam. Essa renovação começa a processar-se de maneira um tanto semelhante à realizada pelos imigrantes não-latinos, vindos da Europa e do Japão, para sociedades neo-latinas, no meio das quais chegaram a agir, em alguns casos, revolucionáriamente.

Revolucionáriamente - sem que revolução, no caso, implique em revoluções sangrentas - podem agir proletários e camponeses nas modernas sociedades latino-americanas, ao se tornarem, como começam a tornar-se em algumas áreas e como já se tornaram noutras, elementos vivos e ativos das populações nacionais a que vinham pertencendo quase exòticamente. Sua ascenção sócioeconômica pode resultar no revigoramento, dentro das mesmas sociedades e sem que com isto elas percam o essencial da sua relativa latinidade, de traços de cultura de origem principalmente ameríndia ou africana, ao mesmo tempo que numa maior presença, em posições de comando político, econômico, religioso, cultural, de indivíduos ètnicamente daquelas procedências: ameríndia, africana, mestiço com a predominância dêsses dois sangues não-europeus. É um processo de valorização dêsses elementos ao lado do de valorização, tão característico da segunda metade do século XIX e dos primeiros decênios do XX, de elementos - sob a forma de imigrantes - não-ibéricos, nas populações e nas culturas latino-americanas, uns, latinos, como os italianos e os francêses, outros não-latinos como alemães, poloneses, japoneses. Êsses imigrantes - alemães, poloneses, japoneses - pareceram a alguns observadores que comprometeriam de modo grave a latinidade das culturas latino-americanas de que se tornaram renovadores ou modificadores. Mas tal não aconteceu nem vem acontecendo. A presença e a atuação de tais imigrantes - muitos dêles, originários de populações agrárias e conservadoras na Europa porém, uma vez na América, e em face da inércia, da subnutrição e da miséria da parte considerável das populações agrárias da América Latina, aqui transformados em elementos renovadores, dinâmicos, progressivos - vêm beneficiando as populações e as culturas latino-americanas, em geral, que as comprometendo. O perigo estaria nesses imigrantes fazerem as populações já telúricas se desviarem quase de todo de normas já estabelecidas e de constantes já formadas para a sua existência: normas e constantes, várias delas, vantajosas para a consolidação de populações latino-americanas em sociedades estáveis; e capazes, sob estímulos adequados ao seu desenvolvimento, de se tornarem senão sempre modernas - como nas áreas metropolitanas de Buenos Aires, da Cidade do México, de São Paulo e no Uruguai quase inteiro - quase modernas, como em várias áreas mexicanas, argentinas, chilenas, brasileiras, colombianas, venezuelanas, etc., sem perda das suas tradições de valor social para a sua estabilização em grupos nacionais.

A América Latina tem conhecido de modo às vezes dramático os conflitos, experimentados por populações de outras partes do mundo, entre tradição e modernização. Dêsses conflitos alguns têm resultado da presença de elementos neo-europeus ou da intrusão de técnicas violentamente novas, em meios latino-americanos apegados quase religiosamente a tradições de vida e de cultura vindas da época colonial e conservadas em estado de quase pureza. São grupos, os conservados nesses estados de pureza cultural e até certo ponto étnica, que se têm revelado, e que se revelam atualmente, capazes, por sua vez de, sob circunstâncias favoráveis à sua erupção, revigorarem, insurgindo-se contra elementos, técnica e até socialmente modernizados, das populações nacionais ou regionais a que pertencem, traços essenciais à sua latinidade e à sua independência em face de influências imperiais e desnacionalizantes. É o que pode estar representando o comêço de ascenção sócioeconômica de elementos camponeses de certas populações regionais da América Latina, e que, socialmente arcaicos durante anos, com relação a outros elementos das mesmas populações, mostram-se capazes de influir sôbre êles obrigando-os a renovações quase revolucionárias de sua estrutura social, da sua organização econômica e dos próprios temas da sua literatura, da sua arte, da sua filosofia social e das suas ciências do Homem.

Sem a ascenção sócioeconômica que se vem verificando, nos últimos decênios, em certos países da América Latina, de elementos proletários e de elementos camponeses, envolvendo a ascenção de filhos de imigrantes europeus e japoneses, por um lado, e por outro, a de descendentes de ameríndios e de negros, não se estariam renovando, como estão se renovando, nesses países, a literatura, a arte, a filosofia social, as ciências do Homem, pela importância atribuída agora a temas e a figuras outrora conservados quase sempre na sombra. Entre êsses temas, as reivindicações sociais; entre essas figuras, a do ameríndio, a do negro, a do mestíço, a do filho de imigrante, que vêm começando a ser nos últimos decênios, reinterpretadas sob um critério crescentemente valorizador do que representam para os todos nacionais ou regionais a que vinham pertencendo, quase sempre antes marginal que efetivamente. Na literatura brasileira dêstes últimos decênios, por exemplo, avultam, como figuras por assim dizer heróicas, o Antônio Conselheiro retratado por Euclides da Cunha em Os Sertões; o Negrinho do Pastoreio, do conto de Simões Lopes Neto; o Gaetaninho, (filho de imigrante italiano pobre), de Antônio de Alcântara Machado; o Moleque Ricardo; de José Lins do Rêgo; o Cristo prêto do Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna; a Gabriela, do recente romance de Jorge Amado.

O México não se está impondo, como cultura latino-americana, à atenção mundial, por outro meio, senão êste: a valorização das suas populações e das sobrevivências de suas culturas ameríndias, dentro do que já é, entretanto, uma cultura mexicana que de modo algum se limita a ser americana no sentido de indígena da América: é caracterìsticamente latina nas formas gerais - no sentido sociológico de formas - que lhe permitem valorizar substância e formas particulares ameríndias. Daí a arte de Rivera e de Orosco e a moderna arquitetura mexicana combinarem expressivamente formas e substâncias assim compreendidas: combinação também característica da música de Chavez e, no Brasil, da de Villa-Lobos; e remotamente, no Peru, da pintura cusquenha: tão latina e tão americana nas suas expressões mais felizes. É o que indica, do ponto de vista antropológico o estudo do Dr. Alfonso Caso que êste número de Diogène publica.

Ezequiel Martinez Estrada, no seu arguto "Cepa de la literatura rioplatense", também publicado neste número, salienta como tôda uma série de exóticos ilustres - Alberdi, Echevenia, Sarmento, entre outros: alguns lembrados por Martinez Estrada, outros recordados por Juan Agustin Garcia - abrilhantam o passado das letras argentinas sem terem sido intérpretes de quanto, sendo gaúcho ou ameríndio ou negro nas raízes de qualquer cultura latino-americana, constitui condição absoluta de autenticidade para essas culturas. Martin Ferro foi como se afirmou obra autêntica: indo àquelas raízes. E o mesmo é certo de obras latino-americanas de pintura mais ou menos recente como, no Uruguai, e do um tanto esquecido Figori e, atualmente, no Brasil a de um Lula Cardoso Ayres e a de um Francisco Brennand.

O que nos leva ao problema de "caracterização daquelas expressões plásticas" versado noutro dos ensaios que constituem êste número latino-americano de Diogène, por Damian Carlos Bayon; e para quem "entre la concepcion de la forma que aportabam los conquistadores y la de los indigenas no habia, fundamentalmente, incompatibilidad". Por conseguinte: no importantíssimo plano da plástica os valores importados pelos conquistadores latinos - no caso, ibéricos - não teriam encontrado hostilidade radical da parte dos valores ameríndios. Isto porque diferiam aquêles valores importados da Europa ibérica por espanhóis e portuguêses - valores simbólicos e irracionais - dos valores racionais de outros latinos, como os franceses e os italianos, neste particular herdeiros mais diretos da tradição greco-romana; e quanto a valores racionais, em geral - acrescente-se a Bayon - mais próximos os franceses, que os espanhóis e os portuguêses, daqueles norte-europeus que viriam tomar contacto com populações e culturas não-européias, já tocados pela Revolução Industrial, pelo comêço da ascenção da Burguesia e pela valorização - tão rápida entre norte-europeus, desde aquela Revolução e da que quase a acompanhou: a Religiosa, chamada de ordinário Reforma - da cultura bíblica isto é, a instrução através da leitura e do livro - e do tempo cronométrico, econômico, comercial: o que se identificava com o dinheiro. O do Time is Money.

Uma arquitetura, como a trazida para a América por espanhóis e portuguêses, antes irracional que racional e, dentro dêsse sentido geral de arte, grandemente valorizada de símbolos accessíveis a analfabetos tanto quanto a letrados, era natural que sugestionasse o que havia, com relação à arte de construir, ao mesmo tempo de estético e de místico, entre ameríndios e entre negros: os negros desde o século XVI importados da África para as áreas a princípio mais progressivas da América Latina: as mineiras e as agrárias. Não deixa de ser significativo o fato, salientado por Bayon no seu ensaio, de metade dos arquitetos na América Latina terem sido, nos dias em que aqui se construiram tantas igrejas, conventos, palácios, indígenas e mestiços. Como Logarda e Caspicara, no Equador do século XVIII. Como o Aleijadinho, no Brasil. Isto sem nos referirmos à arquitetura cusquenha. Arquiteturas, tôdas essas de arrojos extra-europeus. Tropicais, até. Mas sem que lhes tenha faltado a nota de autodomínio - al limite de tension, como diz Bayon - que se vem exprimindo também um uso talvez volutuoso, mas discreto, da côr, que parece caracterizar os bons artistas plásticos latino-americanos, tornando injusta a acusação que se pretenda fazer dêles de tropicais no sentido de sempre derramados ou exuberantes.

Também as expressões musicais, coreográficas e lúdicas da cultura latino-americana - ou das culturas latino-americanas - podem nos auxiliar na caracterização do que, nessas culturas possa ser considerado ethos supranacional ou estilo latino-americano - e não brasileiro ou paraguaio ou mexicano ou dominicano ou haitiano ou boliviano - de cultura. É para lamentar que o assunto não tenha sido ainda versado, de modo, de modo sistemático, por antropólogos ou sociólogos da cultura constituídos em equipe - pois só uma equipe poderia dominar matéria tão dispersar - e que se empenhassem em tarefa de proporções continentais, seguindo ou desenvolvendo métodos já inaugurados por Kroeber.

Como é para lamentar que do mesmo ponto de vista e segundo o mesmo critério e os mesmos métodos - ou métodos semelhantes - não tenham sido analisadas e interpretadas as várias expressões culinárias de cultura - ou de culturas - latino-americanas. Parece caracterizá-las alguma coisa de já inconfundívelmente supranacional: de latino-americano. Há um parentesco entre certos quitutes mexicanos e paraguaios, brasileiros e cubanos como há um parentesco de danças e de músicas brasileiras com danças e músicas venezuelanas, haitianas, pôrto-riquenhas. São parentescos, êsses, que parecem resultar de interpenetrações entre valores latinos e americanos, entre valores eruditos e primitivos, entre valores Católicos e animistas, entre valores europeus e ameríndios ou afro-ameríndios, que se têm processado nessas áreas da América Latina de modo semelhante: dentro de um estilo de convivência humana e de um sentido psicossocial de tempo que se desenvolveram latinamente nessas áreas americanas em contraste com um estilo de convivência e com um sentido de tempo que deram outros aspectos às relações de europeus com não-europeus, de civilizados com primitivos, de cristãos com pagãos, na América ocupada por anglo-saxões, na sua maioria, burgueses ainda inseguros do seu status sócioeconômico e Protestantes, nem sempre de todo seguros da sua ortodoxia religiosa; uma ortodoxia antes hebraica (etnocêntrica) que cristã (cristocêntrica). Mais sociològicamente cristocêntrica que etnocêntrica. É que não se consideraram os hispanos, na América, povo escolhido ou raça superior, do mesmo modo rígido, sistemático, hebraico até - segundo o Velho Testamento - que os anglo-saxões; e sim portadores e transmissores de uma civilização latina, representada principalmente pelo Catolicismo romano - ou latino - interpretado pelos hispanos à sua maneira: mais dramàticamente pelos espanhóis, mais lìricamente, pelos portuguêses. Mas numa como noutra interpretação, um Catolicismo latino que, nas suas expressões populares, festivas, folclóricas, seria transmitido pelos hispanos a ameríndios e a negros, no continente americano, através mais de símbolos que de livros; e através, também, de comemorações, em numerosos dias santos, nos quais não só se admitia como tempo santo o tempo-lazer como se consagrava ou se considerava êsse tempo, superior ao tempo-trabalho: o único admitido como válido, santo, agradável a Deus, pelos anglo-saxões Protestantes, colonizadores de terras americanas e dominadores nessas terras, de Peles-Vermelhas e, em algumas, também de negros importados da África para plantações. Daí parece ter resultado diferença nada insignificante de atitude e de comportamento entre latino-americanos e anglo-americanos; diferença que tendo, durante séculos, tornado os primeiros, arcaicos em relação com os segundos, hoje tende a situá-los em posição de mestres em potencial de anglo-saxões exageradamente ativistas, de artes de encher festiva, folclórica e estèticamente o tempo livre: êste tempo livre que a automação, desprestigiando a ética calvinista glorificadora apenas do tempo-trabalho e favorecendo a ética hispano-Católica, consagradora do tempo litúrgico, festivo, lúdico, vai tornando, para as populações dos países superindustrializados, muito mais vasto que o tempo necessário a atividades econômicas associadas a ideais de progresso e a programas de desenvolvimento e de bem-estar material. Estamos, neste particular, diante de um paradoxo que é o da América Latina tornar-se de repente, sob certos aspectos, pós-moderna e a América de língua inglêsa, arcaica em suas atitudes e em seus hábitos, criados por três séculos de progresso à base de um sentido apenas econômico de tempo: o de tempo-dinheiro.

Noutro, particular é possível que a América Latina venha a ser considerada antes pós-moderna que arcaica em suas atitudes e em seu comportamento: com relação à atual valorização que se processa, em algumas áreas, de atitudes tradicionalistas e de valores tradicionais, corrigindo-se assim excessos modernistas da parte de alguns povos modernos ou os excessivos desejos de modernização, com sacrifício de tudo o mais, da parte de algumas populações das chamadas subdesenvolvidas. É que, devido, em parte, ao seu Catolicismo latino, valorizador de tradições e de ritos seculares e construtor de igrejas e inspirador de artes sacras capazes de resistir longamente ao tempo, fazendo-se compreender e admirar, pela sua simbologia, tanto por letrados como por analfabetos, o latino-americano é de ordinário inclinado ao apêgo a tradições tanto eruditas como populares. Precisamente as tradições que os próprios Comunistas mais esclarecidos de hoje, corrigindo o modernismo, o anti-tradicionalismo e anti-saudosismos absolutos dos seus antecessores, procuram animar entre as populações não só dos países chamados subdesenvolvidos como das terras orientais, como o Japão, para que o desenvolvimento de cada um dêles se processe, não conforme rígidos modelos ocidentais, mas em harmonia com aquelas tradições regionais de cada um que possam ser consideradas o que em francês se chama "valables" e em inglês se tem denominado "usable": "usable past". Nunca estêve mais atual do que agora, no Oriente e na própria Europa, na África e nos Estados Unidos, êsse sentido como que pragmático de tradição, há tanto tempo um sentido caracterìsticamente latino-americano: característico de muitas das artes, das criações, das combinações de valores tradicionais com novos e modernos, que podem ser consideradas artes, criações e combinações mais expressivas das culturas latino-americanas: desde a pintura cusquenha à música de Villa-Lobos; desde a de consagração científica, empreendida por hispanos no México, no Peru e noutras partes da América Latina, de plantas tradicionalmente empregadas por ameríndios para fins terapêuticos ou profiláticos, aos painéis do mexicano Diego Rivera ou às cerâmicas do brasileiro Francisco Brennand em que as constantes de arte popular se juntam arrojos experimentais.

É claro que as tradições para serem utilizáveis precisam de ser escolhidas e até alteradas por aquêles que, vivendo a vida como contemporâneos e não como arcaicos, se sentem atraídos por elas, tradições, não por um apêgo fetichista aos seus encantos mas por um amor descriminador aos valores que elas contêm, junto com arcaismos desprezíveis. É o que vêm fazendo numerosos latino-americanos com tradições como a do chimarrão, de que a tradição pura era que êsse americaníssimo chá fôsse pouco higiênicamente saboreado da mesma vasilha por várias bôcas; como a da siesta, que, dentro de justos limites, pode ser um hábito higiênico nos países tropicais da América Latina, em vez de uma prática associada à pura indolência ou ao ócio vicioso; como a de janelas ao velho modo hipano-árabe, em xadrez, em vez de guarnecidas, ao modo inglês, de vidros, em casas de residência. Isto para destacarmos apenas três exemplos dos vários que poderiam ser citados no sentido de que, para muitos latino-americanos de hoje, o desenvolvimento da sua civilização semi-européia, semi-nãoeuropéia, não perde em ser condicionada por tradições nas quais se reflete o caráter misto da mesma civilização. Daí renovadores, dentre os mais arrojados, dos hábitos de vestir, nos países tropicais da América Latina, não hesitarem em recomendar a valorização, neste particular, como no da arquitetura projetada para o futuro - pós-moderna, portanto - de tradições orientais e africanas: a própria substituição das calças de homem, sàbidamente anti-higiênicas para os climas quentes, por túnicas ou saiotes. Sugestões ainda chocantes, dadas as convenções de divisão sexual de trajo - as calças masculinas e as saias femininas - criadas pela civilização ocidental. Mas que, adotadas pioneiramente por grupos mais audazes das novas gerações latino-americanas, poderão resultar, sob o aspecto de trajos ao mesmo tempo tradicionais e ultramodernos, numa contribuição latino-americana para o bem-estar humano noutras regiões do mundo igualmente de clima tropical e igualmente vítima de convenções européias de trajo que se sobrepuseram a tradições orientais e africanas, no caso mais saudáveis, mais higiênicas, mais ecológicas e quase sempre mais estéticas, do que aquelas convenções européias. O mesmo se aplica, aliás, ao calçado. Aplica-se aos esportes e aos jogos. Aplica-se às recreações, em geral. São todos setores em que se poderá verificar, nos próximos decênios, uma latino-americanização de convenções européias. Essa latino-americanização à base de tradições orientais e africanas guardadas, numa como reserva cultural, ao lado de valores ameríndios, por vários grupos das populações latino-americanas desde os seus primeiros tempos como populações latino-americanas.

Pois desde os primeiros dias dessas populações, como populações latino-americanas, que, nas suas culturas, ao lado de valores europeus - aquêles impostos pelo imperialismo europeu, como valores civilizados, aos grupos não-europeus chamados a conviver com os europeus - vários daqueles outros valores, não-europeus, não aproveitados pelos dominadores europeus e alguns até repelidos por êles, se vinham como que resguardando, à maneira de tradições secundárias, para, em alguma época futura, ressurgirem ao lado dos valores europeus, superando alguns - como os vêm superando - em qualidades ecológicas e em autenticidade americana e até em virtudes próximas das latinas e resistentes, mais que as apenas latinas, às anglo-saxônicas - as anglo-saxônicas por vêzes mais descaracterizantes do que modernizantes de culturas não-européias. Isto é, vêm aquêles valores latino-americanos de origem mais ameríndia ou mais oriental ou mais africana do que européia, mostrando-se, mais que os vindos da Europa e conservados na América Latina em seu estado puro ou quase puro, capazes de corresponder a condições americanas, particularmente americano-tropicais de vida, logo que dessassociados de sua condição, convencionalmente inferior, de valores plebèiamente, rùsticamente camponeses, proletários, alguns até escravocráticos, para se revalorizarem, com a valorização - fenômeno hoje tão latino-americano - de proletários, de camponeses, de descendentes de escravos: não só de suas etnias, já em parte reabilitadas, através da presença de sangue ameríndio e até de sangue africano em já antigas famílias de fidalgos latino-americanos, como de elementos de suas culturas ameríndias e africanas. Elementos, repita-se, vários dêles, demasiadamente associados ao que se considerava desprezível na condição de inferiores sôcioeconômicos dos seus portadores: gente de origem principalmente ameríndia, oriental ou africana.

A correlação do fenômeno atual de ascenção sócioeconômica de camadas durante longo tempo - longo, saliente-se sempre para a América Latina - "inferiores", das populações latino-americanas importa com outro acontecimento de importância sociológica - na revalorização de elementos culturais associados a essas camadas de população e à sua condição sócioeconômica de "inferiores" é o ponto que mais desejamos fixar nestas páginas. Revalorização dentro da estrutura sociocultural latino-americana: uma estrutura bastante plástica ou flexível para permitir que se processe tal revolução sem que ela, estrutura, se deslatinize ou se desamericanize nos seus característicos essenciais. É que êsses característicos essenciais - admitidas tôdas as grandes imperfeições de ordem ética que comprometem a sua classificação como sociològicamente cristocêntricos - são, e têm sido, antes sociològicamente cristocêntricos do que social e culturalmente etnocêntricos. Nisto parece estar sua diferença mais profunda de outras projeções européias - as anglo-saxônicas, a holandesa, a belga, até mesmo a francesa - em terras americanas e noutras terras. Tôdas essas foram antes etnocêntricas que cristocêntricas em seus aspectos socioculturais, embora tôdas dizendo-se civilizações cristãs e desenvolvendo atividades de catequese e de educação entre populações não-européias: inclusive - com exceção dos belgas - entre populações da América chamada Latina.

Pela diferença aqui assinalada é que se explica terem se desenvolvido entre as populações mistas da América Latina - mistas de europeus e de não-europeus - formas também mistas de cultura: inclusive, de cristianismo. Especialmente de arte cristã. Disto insistamos de que são exemplos as esculturas de Aleijadinho no Brasil, a pintura cusquenha no Peru e várias expressões de arte no México. Mas não são para ser desprezados exemplos de simbioses - ou de interpenetrações - noutras esferas, várias das quais foram interpenetrações tornadas possíveis por um cristianismo que, em vez de ter fechado sempre, e de todo, a valores não-europeus, abriu-se em não poucos casos a êsses valores. Inclusive valores médicos, terapêuticos, higiênicos.

Devido, até certo ponto, a essas interpenetrações, é que o conjunto latino-americano de populações e de culturas, marcado por uma unidade, nem sempre ostensiva, que coexiste com uma variedade quase sempre mais notável que essa unidade, por ser mais pitoresca do que ela, apresenta-se tão diferente daqueles outros conjuntos de populações e de culturas afins, do Oriente e da África, onde a presença imperial européia de modo algum conseguiu dotar suas populações e culturas de um mínimo igualmente dinâmico de valores sociològicamente cristãos, além de técnicas européias, que, desenvolvidas, à sua maneira, por gentes, em parte mestiças, em parte européias ou, em parte européias, em parte ameríndias ou africanas, porém sensíveis a situações de vida e de convivência grandemente distintas, mesmo na Argentina, no Chile e no Uruguai, das européias, resultaram em novos tipos de relações entre grupos humanos e em atitudes do Homem para com a Natureza, para com o Espaço e para o Tempo que já podem ser consideradas atitudes especìficamente latino-americanas. Isto por combinarem com a herança cultural ameríndia e de negros da África e a de latinos da Europa: uma latinidade que irradiou mais do cristianismo latino, (trazido à América por espanhóis - cujas primeiras atividades na América vêm sendo estudadas com tão sério saber pelo Professor Marcel Bataillon - portuguêses e franceses, não só nas suas crenças como nos seus costumes, nas suas atitudes, nos seus ritos sociais desenvolvidos dos religiosos), do que de qualquer consciência mais forte, da parte dêsses europeus, de pertencerem a uma raça que pudesse ser classificada de raça latina.

Não parece provável que a definição sociológica da América Latina venha a fazer-se, no futuro, em têrmos étnicos: têrmos étnicos que até hoje não têm preponderado nela sôbre os culturais. Nem que êsses têrmos sejam os latinos, da Europa, nem os ameríndios, da América. Sua latinidade e sua americanidade tendem a definir-se, cada vez mais, em têrmos ao mesmo tempo culturais e ecológicos, nisto estando um dos pontos de contraste do seu desenvolvimento com o da América de formação anglo-saxônica. Essa definição de latinidade ao mesmo tempo que de americanidade, por parte da América Latina, tudo indica que compreende todo o conjunto de suas expressões de ethos e de cultura, de sentido sociológico: seu comportamento político; sua atividade econômica, seus estilos de convivência social tanto quanto suas manifestações de literatura, de arte, de filosofia e de ciência do Homem, à base de quanto há já de específico em sua experiência.

Creio falar por todos quantos, europeus e americanos, colaboram neste número especial de Diogène, dizendo que para nenhum de nós a chave de interpretação do ethos e da cultura latino-americana está num latinismo (europeu) rìgidamente puro ou num indigenismo (americano) igualmente puro. Nenhum dos dois, em têrmos assim absolutos, definiria jamais o passado, o desenvolvimento ou o ideal latino-americano. Para serem compreendidos em seus significados mais característicos, êsse passado, êsse desenvolvimento e êsse ideal precisam de ser considerados - repita-se - nos conjuntos de suas interpenetrações, embora devam ser admitidas ilhas sociológicas de exceção: umas européias, outras indígenas e até negras. Ilhas sociológicas em relação com o conjunto continental que deva ser caracterizado como latino-americano.



Fonte: FREYRE, Gilberto. Americanidade e latinidade da América Latina: Crescente interpenetração e decrescente segregação. Recife: UFPE, 1966. p. 5-21.

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