BRASIL, NAÇÃO HISPÂNICA Novas sugestões em tôrno de um tema já versado pelo autor
PREFÁCIO
Meus agradecimentos ao Diretor do Instituto de Cultura Hispânica da Universidade da Bahia, o Professor Antero Simón González, pelo convite que me levou a Salvador no fim do ano acadêmico de 1965. Convite que me pôs em contacto com tôda a Universidade da Bahia. Mas especialmente com a casa que êle dirige com tanta inteligência e com tanto amor.
Nela fui saldado generosamente, a primeira vez, pela voz amiga de um dos mais ilustres intelectuais baianos - o Professor Hélio Simões; a segunda, pelo próprio Reitor Magnífico da Universidade da Bahia, o eminente Professor Adriano Pondé; e, ainda aí, e na Faculdade de Filosofia, fui cercado de gentilezas por outros mestres baianos, igualmente ilustres, além do digno Governador do Estado, Lomanto Júnior; e por numerosos estudantes, homens de letras, artistas, jornalistas. Entre êstes, o já insigne Odorico Tavares, que é também escritor.
Salvador é uma das cidades máximas do Brasil e, mais do que isso, uma das cidades máximas do mundo hispânico. Nela, de modo muito expressivo, o Brasil, tanto pelo seu passado, como pela sua atualidade e pelo seu futuro, afirma-se, em pleno trópico, a nação duplamente ibérica que é, tão sensível ao que recebeu e recebe da Espanha como ao que recebeu e recebe de Portugal: e tão consciente de ser república da América como de ser nação ibérica, com deveres de solidariedade, no plano internacional, além dos que o prendem ao continente americano. Explicou-se assim que Salvador, na bela manhã de 12 de outubro de 1965, pela vontade lúdica da sua Câmara e do seu Prefeito, Nelson Oliveira, tenha consagrado uma das suas praças à memória dos Reis Católicos; e que os espanhóis ali residentes e baianos nunca esquecidos de que baianidade implica em brasilidade e brasilidade em hispanidade tenham, juntos, comemorado o mesmo 12 de Outubro como um dia eminentemente hispânico: brasileiro, hispano-americano, hispano-tropical, espanhol, português.
Proferi minha terceira conferência na Universidade da Bahia, no fim do ano acadêmico de 1965, na Faculdade de Filosofia. Devo destacar o fato de ser Professor H. C. dessa Faculdade, desde a sua fundação. Professor H. C. já que não me foi possível aceitar o convite, extremamente honroso, do ilustre organizador da Faculdade, o Professor Isaías Alves, para a cátedra de Sociologia. É uma recusa, a de cátedras, que venho fazendo sistemàticamente. Daí não me ter sido possível atender a convites semelhantes, da parte de outras instituições nacionais; da Universidade do Brasil e da Universidade de Recife - hoje Universidade Federal de Pernambuco - por exemplo; e de várias universidades estrangeiras. Isto, simplesmente, por não considerar o magistério minha vocação; nem a monogamia universitária o meu ideal de amores um tanto donjuanescos com universidades. Devo, entretanto, salientar que muito me desvanece pertencer, sem deveres de catedrático, à Faculdade de Filosofia da Universidade Federal da Bahia, como seu professor, além de honorário, intinerante, e, por isto mesmo, uma vez por outra presente nos seus cláustros: e que muito prazer me dá recordar o fato de haver recebido tão alta distinção por iniciativa de um dos baianos mais altamente representativo da moderna cultura humanística no nosso país: o Professor Isaías Alves.
Meus agradecimentos à Faculdade de Filosofia da Universidade da Bahia, atualmente dirigida pelo mestre autêntico de Ciências Sociais que é o Professor Thales de Azevedo, pela oportunidade que me deu de conviver, mais uma vez, com professôres e estudantes dessa Escola. O que se realizou sob os auspícios do Magnífico Reitor em exercício, o Professor Adriano Pondé e com a presença do antigo Reitor Albérico Fraga; e sempre em conexão com o Instituto de Cultura Hispânica da Universidade.
É atendendo à solicitação que me faz o Professor Antero Simón González que envio ao Instituto de Cultura Hispânica textos das conferências que proferi na Universidade, em outubro, para serem editadas, pelo mesmo Instituto, antes como um ensaio só do que como três conferências.
O BRASIL, NAÇÃO HISPÂNICA
O Brasil é nação hispânica. Duplamente hispânica -portuguêsa e também espanhola em sua formação européia. Como tal, faz parte do mundo hispânico, especialmente da América Hispânica (hispânica no sentido de ibérica). E especialìssimamente do mundo que pode ser denominada hispano-tropical; da América que seja considerada hispano-tropical.
A expressão "América Hispânica" pode significar para um homem de estudo uma realidade quase de todo diferente da realidade que nela antevê outro homem de estudo. As verdades de Pirandelo se aplicam de modo incisivo ao problema da definição do que seja a América Hispânica.
Para uns ela é mais "América" - o substantivo ecológico: a América que existe no espaço e que é apenas vagamente hispânica, em vez de anglo-saxônica, no tempo social - do que "hispânica": o adjetivo que a caracteriza como história ou como duração ou formação social ou culturalmente européia em espaço não-europeu. Para outros é no adjetivo que está o nervo da sua realidade. O substantivo, no caso - a gramática sociológica tem suas razões, que a outra gramática desconhece - estaria subordinado ao adjetivo. A América Hispânica seria uma realidade menos americana que hispânica; menos ecológica do que histórica.
Talvez a definição meia satisfatória do conjunto hispano-americano seria a que o considerasse uma interpretação tal dessas duas realidades que nem a ecológica seria maior do que a histórica nem a histórica maior do que a ecológica. O espaço americano e o tempo hispânico seriam aspectos de uma só vivência, de uma única experiência, do mesmo processo de desenvolvimento de vários grupos humanos de comum origem européia em terras americanas - terras diversas no seu físico e habitadas de modo diverso por grupos indígenas de civilizações desiguais, porém tôdas americanas e constituindo uma só área americana dividida em várias subáreas.
Assim considerada, a América Hispânica se apresentaria como um todo que tanto na sua base física como na formação básica das sociedades humanas que sociològicamente a constituem formaria um sistema tanto ecológico como cultural, cujas características gerais difìcilmente seriam anuladas pelas diferenças nacionais ou regionais que dentro dela se vêm desenvolvendo há quatro séculos. Tais diferenças são evidentes. Elas tornam a Argentina, por exemplo, uma nação ostensivamente diferente do México; o Uruguai, quase um contraste com o Equador. Mas sem que deixe de haver entre essas expressões diversas da mesma civilização - a hispânica - em espaço americano, alguma coisa de comum que vem daquelas duas condições básicas: a de serem expressões diversas de uma mesma civilização européia básica - a hispânica - que se desenvolve num mesmo espaço: o americano. Que se desenvolve nesse espaço em ritmos diferentes e com diferentes acréscimos, étnicos e culturais, de outras origens, que não a hispânica, sem que a marca hispânica desapareça como marca decisiva ou característica.
É certo que no México essa civilização se vem desenvolvendo em subárea marcada pela presença de uma elevada civilização indígena, com a qual a hispânica tem entrado ultimamente em íntimas e fecundas relações das quais já resultou mais de uma feliz combinação de valores artísticos. O caso também do Peru. Certo que na Argentina, do mesmo modo que em certas partes do Brasil, ao elementos hispânico se vêm juntando, desde o comêço do século XIX, de modo considerável, outros elementos europeus de colonização, como o germânico e, posteriormente, o italiano. Certo que em várias subáreas hispano-americanas a presença do negro africano vem reforçando nelas, desde o século XVI, seus característicos de subáreas de civilizações tropicais, tornando mais difícil, nessas subáreas, a afirmação de outra presença européia ou caucásica, além da ibérica.
Mas com tôda essa diversidade, existe uma América que é um conjunto de expressões de uma mesma civilização hispânica a integrar-se num espaço americano: êste - o espaço americano marcado pela presença hispânica - um espaço em parte fio, em parte temperado e, em grande parte, tropical. Pelo que é uma civilização, a hispânica, na América, que, pelos seus traços mais originais, vem significando principalmente - embora não exclusivamente - um triunfo ou uma vitória de civilização européia em espaço tropical, mesmo admitindo-se a insignificância das circunstâncias ecològicamente tropicais que vem condicionando o desenvolvimento, em parte pára-tropical, da Argentina, do Chile e do Uruguai.
Nenhum esfôrço de interpretação da civilização hispano-americana pode ser realizado, independente da consideração do fato de que à base da unidade dêsse sistema moderno de civilização está a sua tropicalidade, senão total, como uma condição física ou ecológica. Se é certo que até data relativamente recente, as elites mais europeizadas dos países mais cruamente tropicais, procuraram comportar-se como se não vivessem em áreas quentes, a verdade é que, nos últimos tempos, vêm cedendo à ecologia da sua situação, dentro da qual sempre procurou viver a gente do povo através dos seus estilos de habitação, de trajo, de alimentação. Verdade é também que o gôsto por certos valores tropicais desenvolvido nos países mais quentes da América tropical mais pela gente do povo do que pelas elites vem se comunicando a argentinos, a chilenos, a uruguaios. Por êste modo, e através de crescente valorização do trópico pelo próprio europeu, vem se alargando a base tropical do sistema hispano-americano de civilização de base apenas ecològicamente cultural a base psicocultural ou sociológica.
Cabe, assim, a moderna América Hispânica na interpretação da expansão hispânica no mundo como uma expressão principalmente hispano-tropical, isto é, antes em áreas quentes do que em espaços frios; e uma expansão européia nesses espaços que se vem processando antes simbiòticamente, isto é, através da interpenetração de hispanos e populações tropicais, do que imperialmente, através do domínio econômico e político de europeus sôbre não-europeus, com as culturas invasoras ou imperiais - isto é, européias - mantendo-se tão à parte das indígenas quanto os colonizadores europeus, das populações nativas, para fins de casamentos mistos. Os que propõem, para o estudo dêsse tipo de relações humanas de europeus com não-europeus, e de relações culturais de europeus com ambientes não-europeus - ambientes nos quais o hispano vem se integrando também de modo simbiótico, pela adoção, dos nativos com quem se tem misturado, de numerosos costumes, usos íntimos, conhecimentos de plantas, animais e alimentos tropicais - uma ciência especial que se denominasse Hispanotropicologia, fazem-no considerando a expansão hispânica nos trópicos asiático - ou asiano - e africano; mas sobretudo na América.
À sombra dessa possível ciência, poderíamos desde já esboçar respostas não de todo retóricas ou sentimentais ou simplesmente políticas, à pergunta: "Qual a missão histórica, cultural e espiritual de Hispano-América?" Ou qual a missão de Hispano-América como um sistema de civilização cuja unidade de desenvolvimento histórico, de desenvolvimento ecológico e de projeções sôbre outros espaços e outros tempos, é maior que a sua diversidade, quer histórica, quer ecológica?
Considerada de modo porque aqui se sugere, a missão da América Hispânica - situada, em grande parte, em espaço tropical - parece dever afirmar-se cada vez mais como um desmentido à tese de que as civilizações mistas e as populações mestiças são incapazes de competir, em virtudes criadoras, com as civilizações chamadas puras e com as raças intituladas puras. É um desmentido que vem da arte cusquenha à moderna arte mexicana; que vem do "Bandeirante" brasileiro dos dias coloniais do Brasil - mestiço de branco e de ameríndio - ao moderno brasileiro do tipo "Paulista", notável pela energia e pelo ânimo empreendedor. Brasileiro de tipo "Paulista", no sentido de Bandeirante, que inclui o nordestino, particularmente o cearense; que inclui o sul-riograndense, que inclui o próprio carioca de hoje, tão decidido, ao que parece, a mostrar ao Brasil sua capacidade de homem realizador quanto o seu compatriota de Mato Grosso ou do Amazonas. Capacidade em que se manifesta com ânimo caracterìsticamente hispânico: o empreendedor em contraditória união com o inclinado ao lazer, ao gôzo do "dia santo", do desprêzo, até, pelos rigores do tempo cronométrico.
Como gente americana situada no trópico e hispânica na sua formação básica, a gente brasileira de hoje é também uma nação atlântica. As três condições se juntam para lhe imporem responsabilidades hispânicas e transatlânticas: sobretudo com relação a outras faixas tropicais. Especialmente com relação a hispano-amricanos e hispano-orientais.
Não há modas, apenas, de sapatos, de penteados, de vestidos: também há modas de idéias, de ideologias, de teorias. A idéias de que devemos - os brasileiros - nos preocupar com os assuntos chamados afro-asiáticos é uma idéia que está na moda. Compreende-se assim, que desperte a curiosidade de mestres e de jovens universitários. O que não se compreende é que dela se depare esta outra idéia - a de nos preocuparmos com tais assuntos sob critério principalmente hispano-tropical. E, sob êsse critério, considerando populações como a filipina, a angolana, a goesa, como populações particularmente afins das hispano-tropicais da América.
Devo salientar de início que há anos venho me interessando por tais assuntos dentro de um interêsse assim geral: o de que a nós, brasileiros, impõe-se melhor conhecimento das populações e das culturas situadas em áreas ou espaços, como grande parte da área ou do espaço brasileiro, tropicais, quer essas populações e culturas se situem na África, quer na Ásia, quer na América, quer na Oceania. São, tôdas, populações e culturas que têm precisado considerar, ou estão considerando hoje, problemas de ambiente e de ecologia, de descolonização e de desenvolvimento, semelhantes aos que vêm preocupando a gente brasileira. É evidente que parte da sua experiência, melhor estudada, pode ser útil à nossa gente. Evidente, por outro lado, que a experiência brasileira pode ser proveitosa a êsses outros grupos humanos situados nos trópicos, alguns dêles, recém-organizados em nações.
Acresce que alguns dêsses grupos contribuíram étnica e culturalmente, uns, outros só ou quase que só culturalmente - mas todos êles de modo significativo - para o desenvolvimento do Brasil. É o caso, principalmente, de vários grupos africanos. O caso dos indianos e dos chineses. O caso de árabes, mouros, judeus, através de espanhóis e de portuguêses. Vem sendo, recentemente, o caso dos japonêses e dos sírios.
Lembro-me de que, ao referir-me, em meus primeiros trabalhos, à contribuição cultural de negros da África para a formação brasileira, provoquei senão protestos, restrições, da parte daqueles intelectuais brasileiros, - um dêles, o hoje Senador Afonso Arinos de Mello Franco - então ainda pouco inteirados do sentido antropológico ou sociológico da palavra cultura. Protestos, também, contra a tese da importância - importância que fui dos primeiros a procurar sugerir - de ter sido maior do que se supunha, a influência de culturas asiáticas - a chinesa, a indiana - sôbre a formação da cultura brasileira. Curioso é terem vindo algumas dessas restrições de um intelectual que é hoje eminente homem público; e, como tal, entusiasta da causa - pois é hoje uma causa - da aproximação do Brasil com as culturas - pois já são tidas tranquilamente como culturas negras, da África, e com as civilizações do Oriente.
Que motivos, porém, além dos sómente emocionais e apenas políticos, do momento, temos para essa aproximação? É assunto que precisa de ser considerado nas suas bases. E a consideração dêsses fundamentos leva-nos de início à consideração de conceitos de Homem e de Cultura situados, que retifiquem os de Homem Abstrato e de Cultura independente de sua ecologia.
O conceito de Homem Abstrato está hoje, em grande parte, substituído pelo de Homem situado. O Homem, que o antropólogo estuda, comporta-se em grande parte, situacionalmente. As instituições, os estilos de vida, as culturas que o Homem, assim, situado cria, conserva, desenvolve, são instituições, estilos e culturas também condicionadas por situações. Situações de espaço físico que se projetam sôbre situações de espaço sociocultural, condicionando, em grande parte, não só o caráter de instituições sociais e de culturas como a sua distribuição no espaço; a posição de umas com relação a outras; a maior ou menor competição, entre subgrupos e instituições que componham uma sociedade e constituam uma cultura. A tôdas essas situações, antropólogos e sociólogos vêm concordando em denominar ecológicas. Ecologia natural e ecologia social.
Há - todos o sabemos - uma Sociologia ecológica particularmente atenta às condições de espaço em que se processam competições ou cooperações entre grupos socioculturais em tôrno da procurada adaptação de um ou dos dois às mesmas condições de espaço. Verificam-se também: sucessão de grupo sociocultural por outro, expulsão de um grupo sociocultural antigo por grupo cultural adventício; subordinação de um grupo sociocultural a outro que se apresente dominante; simbiose entre grupo sociocultural nativo e grupo sociocultural adventício; distribuição, no espaço considerado, de instituições adventícias sobrepostas às nativas, de acôrdo com os critérios de valor que orientem o grupo a que essas instituições sirvam, com as instituições religiosas sendo, nuns casos, as mais importantes, neutros, as instituições políticas ou as econômicas; com as instituições do grupo invasor ou sucessor ou denominador ocupando no espaço posições mais prestigiosas que a do grupo invadido ou substituído no domínio político ou militar ou econômico do espaço dominado técnica ou econômicamente.
Com essa Sociologia ecológica coincide, em vários pontos, a situacional que não considera sociològicamente o Homem senão como indivíduo socioculturalmente situado. Condicionado, portanto, em seu modo de ser não só bio-social, como, principalmente, sociocultural, pelas suas relações com o espaço em que vive e em que convive. Formas de comportamento e estilos de cultura se estabilizam diferentemente em espaços diversos, por obedecerem a essas diferentes condições que se exprimem em diferentes formas de arte: as boreais divergindo ostensivamente das tropicais.
Quando coexistem num mesmo espaço físico grupos de procedências étnicas diversas e de culturas diferentes, uns nativos, outros adventícios, os problemas de coexistência se exprimem em desajustamentos que só podem ser resolvidos por meio de ajustamentos que impliquem em se estender a coexistência em algum sistema de convivência, que pode ser tanto a miscigenação no plano biológico e a interpenetração de culturas, no plano sociológico, como a segregação, senão absoluta, rígida, tal como vem sendo praticada entre brancos e pretos nos Estados Unidos, entre descendentes de europeus e não-europeus e descendentes de não-europeus na União Sul-Africana, e há séculos, entre castas menos caracterizadas por diferentes tipos étnicos que por diferentes especializações de ocupação social que se refletem em trajos, alimentos, formas de comportamento, status econômico, como os que existem na Índia.
Não faz muito tempo, em conferência proferida na Faculdade de Direito da Universidade de Minas Gerais, referi-me ao assunto como um dos mais significativos para a cultura brasileira como cultura hispânica - ou ibérica - nas suas bases. Não só para essa cultura: para o próprio Brasil como Estado-Nação, cujo desenvolvimento se processa, sôbre aquelas bases, com alguns arrojos modernos; e em espaço, quase todo, tropical.
No momento em que a política exterior do Brasil parecia ir orientar-se no sentido de uma afirmação mais vigorosa da presença brasileira na África, destaquei encontrar aí motivo de especial alegria para um simples homem de estudo brasileiro voltado há anos para a sociologia das relações internacionais, em geral, e intertropicais e inter-hispânicas, em particular, como para uma de suas preocupações mais constante. Nesse plano, disse então, e agora reafirmo, que me parecia, como me parece ainda agora, evidente, a responsabilidade do Brasil, além de tropical, neo-hispânico ou neo-ibérico, como um dos líderes de povos e de modernas civilizações situados em áreas tropicais. Especialmente de civilizações hispano-tropicais: grupo de que a civilização luso-tropical, desenvolvida principalmente pelo Brasil, é expressão cada dia mais visível.
Pois não se trata - procurei acentuar naquela conferência e reafirmo agora, à base de recentes contatos que tive com delegados de diferentes países à organização das Nações, membro que fui da Delegação brasileira à Assembléia Geral de 1964 e, êste ano de 1965, com alguns dos mais lúcidos diplomatas inglêses do "Foreing Office", um dêles, Lord Walston, Ministro Parlamentar de Assuntos Estrangeiros e eminente líder Trabalhista no seu país - de tema abstratamente acadêmico, em tôrno do qual a bisantinice possa executar seus bailados de sociologia apenas retórica fazendo-se passar pela científica. Trata-se de problema que, definido em têrmos sociológicos, implica em nova e imediata responsabilidade política para o nosso País. Se somos, na realidade - como se sugere dentro dessa definição - parte de um complexo ou de uma constelação cultural que se projeta em várias partes do mundo de hoje - um mundo em que as nações parecem cada dia valer menos como simples nações ou simples Estados nacionais e mais como conjuntos trans ou plurinacionais de cultura, em geral, e de economia, de política, de defesa militar, em particular - essa nossa situação abre à política exterior do Brasil perspectivas que, sem nos afastarem dos nossos deveres já tradicionais de solidariedade com os Estados americanos, levam-nos a considerar sob um critério, também de particular solidariedade, nossas relações com outros povos afins do nosso, por um conjunto especial de formas de cultura adaptadas a condições de espaço - o espaço tropical - semelhantes às brasileiras. Êsses povos são os hispanos, em geral, situados nos trópicos; e particularmente, dentro dessa constelação ao mesmo tempo ecológica e cultural, os povos de cultura predominantemente lusitana, estabelecidos no mesmo tipo de espaço e aí integrados como que simbiòticamente com outros povos, dado o caráter de intimidade e de permanência já atingido pelas suas relações com ambientes tropicais e com populações e culturas nativas dos trópicos.
Êste conceito em traços largos. Aceito, a nova solidariedade, além de vagamente sentimental, que se cria para o Brasil, com relação a povos, uns vizinhos, outros distantes de nós, no espaço físico, mas semelhantes a nós pelos processos hispânicos de sua integração em terras quentes, é tão evidente que ao senso político dos brasileiros desta consagrada Virgínia tropical que é a Bahia - Mãe de tantos líderes nacionais, desde o Império - não será difícil aperceber-se do que essa solidariedade, traduzida em política, em ação, em cooperação, poderá significar para uma já meia-potência moderna como é o Brasil. Meia-potência à qual parece reservada uma missão internacional fora do continente americano - noutros espaços tropicais - tão importante como aquela que do segundo Rio Branco ao atual Chanceler, vem sendo desempenhada quase sempre com notável "statemanship": palavra inglêsa irritantemente intraduzível embora não venha sendo exclusivamente inglês o talento especial que ela define.
Quando James Bryce esteve no Brasil, há quase meio século - destaque já o fato em trabalho lido na Faculdade de Direito da Universidade de Minas Gerais em recordar o julgamento, sôbre o Brasil, de um dos inglêses mais perspicazes de sua época - impressionou-o a dependência do desenvolvimento da então jovem república, de líderes que soubessem agir como estadistas. Não como simples políticos - que seria o caso, em dias recentes, de um Getúlio Vargas - mas como estadistas. Nenhum povo lhe pareceu depender mais do que o nosso, para o seu futuro nacional, de "statemanship".
Pode-se hoje insistir na observação de Bryce como dramàticamente atual; e a necessidade de estadistas, posta em relêvo há quase meio século pelo famoso inglês, agora se intensifica para os brasileiros numa urgência de líderes que ao sentido nacional dos prôblemas de govêrno junte a percepção de responsabilidades internacionais que se abrem mais para o nosso País que para qualquer outra república do continente, com relação a povos afins situados tanto dentro da América tropical como além do continente americano: noutros espaços tropicais marcados pela presença ibérica ou hispânica.
Nesses espaços - também aqui quase repito, palavra por palavra, um dos trechos da conferência que proferi na Universidade de Minas Gerais - crescem ou se esboçam atualmente nações para as quais o Brasil se acha na vanguarda de um gênero de experiência e de um estilo de convivência que lhes convém seguir de perto - inclusive para evitar erros brasileiros -a fim de, em suas novas situações ou fases de desenvolvimento, adaptarem às suas conveniências, brasileirismos já experimentados ou provados pela prática brasileira em escala quase continental. Reconhece-o um Leopold Senghor, estadista, e não apenas político, dentre os que vêm surgindo na África; e em quem se afirma, cada vez mais, uma inteligência que sendo de africano-negro autêntico, consciente e brioso dessa sua condição, é também tão latino na parte da sua formação tocada pela sua experiência intelectual francesa. Com êle sentimos, os brasileiros, afinidades especialíssimas. O que é evidentemente recíproco. Daí guardar a Bahia a viva e quente memória daquelas palavras com que, em tribuna desta insigne cidade, o Presidente Senghor não só reconheceu como proclamou o que há de comum entre africanos de hoje, especialmente dos que são latinos, ibéricos, lusitanos, na parte moderna da sua formação, e os brasileiros mais sensíveis ao que permanece de africano no sangue de muitos e, sobretudo, na cultura de quase todos os chamados latinos desta parte da América, uma América ao mesmo tempo tropical na sua situação e hispânica na sua colonização.
Está hoje o Brasil em situação de pioneiro e, sob vários aspectos, de líder de um tipo de civilização moderna cujo especificado, tendo escapado à argúcia inglesa do Professor Arnold Toynbee, não deixa, por êsse lapso de classificação da parte de tão insigne historiador-filósofo, de constituir uma nítida diferenciação das civilizações européias e cristãs que em áreas como a boreal e a temperada do continente americano ou mesmo a tropical, australiana, não passam de projeções européias e etnocêntricamente cristãs em espaços não-europeus. Nessas projeções, ao contrário de simbiose, o que se encontra é o triunfo quase absoluto de outro processo sociológico: o de sucessão de uma população por outra e de uma cultura por outra, aproveitando-se da população e da cultura substituídas tão pouco que êsse pouco tem assumido, e ainda hoje assume, o aspecto paradoxal de exotismos nas suas próprias terras de origem. População e cultura sucessoras venceram as resistências das nativas por meios radicais de extermínio, daí resultando na sua atual situação, em áreas tropicais, de intrusos que, em grande parte, vivem vida de estufa ou de artifício: vida de eternos domadores de eternas feras insubmissas a um domínio puramente europeu sôbre os trópicos - mesmo quando êsse domínio se torna, como o sul-africano, de nações independentes política e econômicamente da Europa. Pois não se trata de simples colonialismo ou de mero anticolonialismo mas de alguma coisa de mais complexo que essa já agora superficial antítese marxista.
Não é de agora, mas de ensaio publicado em 1951, o afã com que venho procurando distinguir o esfôrço colonizador do hispano, em geral, do português, em particular, nos trópicos, do "colonialista" - em que por vêzes êsse esfôrço lamentàvelmente se deformou- sugerindo, para caracterizá-lo, em contraste com os de outros europeus, a expressão "cristocêntrico", com um sentido, é claro, apenas sociológico; e visando antes uma definição que uma apologia. Mais uma definição de predominâncias características de um comportamento; e não a definição dêsse comportamento em têrmos absolutos. Pois em têrmos absolutos seria uma definição inexata. Seria um êrro procurar-se reabilitar a figura do hispano, em geral, do português, em particular, como colonizador de terras tropicais, exaltando-a, idealizando-a, quase santificando-a. Reabilitação não significa, de modo algum, tentativa de canonização sociológica.
A verdade, porém, é que o hispano, em geral, o português, em particular, projetaram sôbre as terras tropicais que marcaram com sua presença ibérica e hispano-cristã uma imagem diferente das dos outros colonizadores europeus. Menos etnocêntricos. Daí situações hispano-tropicais, em geral, luso-africanas, em particular, que não são exatamente idênticas às criadas na África por outros tipos de colonização européia, sob vários aspectos tecnológicos, econômicos e até educacionais, superiores à espanhola ou à portuguesa. Esta colonizações hispânicas, entretanto, conseguiram desenvolver nos trópicos, como a de nenhum outro europeu, formas simbióticas, euro-tropicais, de cultura; e tipos dinâmicamente atuantes de mestiços também euro-tropicais. O caso do cubano, do filipino, do venezuelano, do goes, do brasileiro.
Consideremos outro exemplo: o da África luso-tropical de agora. A África Portuguêsa tem atualmente cêrca de 500.000 brancos em Angola, em Moçambique, na Guiné, em Cabo Verde, em áreas polìticamente não portuguêsas, aos quais se juntam mais de 300.000 mestiços e 19.000 asianos. Quase um milhão. Mais, como base de população nacional predominantemente negra, de várias das novas repúblicas africanas. É assim sua população de mestiços uma das maiores de tôda a África, na qual existem, segundo os cálculos mais atualizados, cêrca de 3.000.000 de mestiços, sem contarmos 60.000.000 de árabes e 1.000.000 de asianos. Poucos, é certo, em têrmos quantitativo, para os 170.000.000 de negros de várias etnias. Porém consideráveis, dado o fato de virem sendo elementos mais cultural e socialmente dinâmico, do ponto de vista da modernização da África em nações, que várias das populações negras em estado apenas tribal; e de ordinário indiferentes, por sua condição tribal, a aspirações ou interêsses pròpriamente nacionais, que são aspirações e interêsses encarnados quase sempre por negros destribalizados, arabizados e mestiços. Europeizados, como os das Áfricas chamadas de expressão francesa. Ou os das Áfricas sob domínio até há pouco, ou ainda hoje, britânico.
O que se verifica, porém, é que os mestiços das Áfricas portuguêsas, embora sua condição não seja idilicamente perfeita - longe disto, em alguns casos - gozam de regalias que lhe são negadas nas inglêsas e, sobretudo, na União Sul-Africana. Podem mestiços e até negros casar nas Áfricas portuguêsas com brancas, sem que isto constitua o escândalo que foi, há alguns anos, no democrático mundo anglo-saxônico, o casamento de uma filha de Sir Stafford Cripps - grande inglês moderno de quem cheguei a receber, estando êle já mortalmente enfêrmo, uma das cartas mais compreensivas que já recebi, dentre as que me têm sido dirigidas em línguas inglêsa - com um negro retintamente africano. Mais do que os portuguêses ou os espanhóis, os inglêses e os franceses fizeram, é certo, de negros das suas Áfricas, bacharéis e graduados de universidades, aptos a desempenhar funções políticas, à maneira inglêsa ou francesa, nas novas repúblicas que estão sendo criadas. De alguns dêsses bacharéis note-se que são descendentes de escravos que no Brasil regressaram no século XIX à África, constituindo-se ali em grupos chamados de "brasileiros" que modificaram, em várias áreas, estilos de arquitetura, hábitos de alimentação, ritos religiosos, recreações, danças, música, dando-lhes um colorido brasileiro que permanece até hoje e que a nós brasileiros, concorrer para que se conserve como uma viva presença do Brasil na África.
Destaque-se não ser de todo insignificante o número de portuguêses que, por imitação a belgas, a holandeses e a inglêses, são contrários a êsse tradicional procedimento lusitano, em particular, ibérico, em geral. E sendo essa sua atitude, colocam-se em oposição ao que pode ser considerado básico na "pax lusitana", que há séculos vem regulando relações de europeus com não-europeus. Uma "pax" que continua a existir por virem os lusos na sua maioria - não na sua totalidade - sabendo evitar os preconceitos de raça nas suas formas mais cruas: as características das relações - ou antes, dos desajustamentos - entre brancos e pretos, na África do Sul, no Congo Belga, nas Áfricas Inglêsas.
Através de séculos, tem havido preconceitos de raça ou de côr de parte de portuguêsas para com não-europeus. O Professor Boxer não descobriu pròpriamente a pólvora, ao proclamar tal fato, em livro recente. Sua originalidade esteve em deixar que sua reputação de scholar servisse, ao dar êle ênfase a um aspecto secundário e não característico do comportamento da gente portuguêsa, na África e no Oriente, a causa dos grupos ideológicos atualmente empenhados em combater o chamado "totalitarismo salazarista", procurando denegrir Portugal e os portuguêses como cultura e como nação. Que tal fizessem uns tantos americanos nos Estados Unidos, imaturos e desorientados, embora professôres de universidade, compreende-se. Mas é atitude surpreendente num scholar inglês.
Existem, ainda hoje, portuguêses dominados por preconceitos de raça e de côr. Entre êles, os que fazem parte de poderosas companhias ou emprêsas, às quais infelizmente se vem submetendo alguns sacerdotes e religiosos Católicos. Mas de modo algum pode-se hoje dizer dêsses snobs - minorias de snobs que representam Portugal na África. No que êles, como minorias, se requintam é num ridículo macaquear de "métodos colonias" - ou "colonialisas" - de belgas, holandeses e inglêses: métodos que os mais esclarecidos dêsses europeus consideram e proclamam desastrosos, reconhecendo a superioridade não só étnica como sociológica dos métodos portuguêses.
Mesmo assim, para conter ou combater tais snobs - que se encontram no próprio Brasil - existe hoje em Portugal e na África Portuguêsa quem venha se empenhando em opor a "racistas" do tipo de leigos e até de alguns religiosos portuguêses que atuam, em certas áreas, a favor de uma segregação de pretos dos brancos que se estenda às próprias Igrejas Católicas, a política tradicionalmente lusitana ou luso-cristã: a de interpenetração de raças e de culturas. Um dos orientadores do movimento é o Padre A S. Pereira de quem acaba de aparecer sugestivo livro - Pátria Morena - que, a pedido dêsse sacerdote-sociólogo, tive o prazer de prefaciar.
Na Antropologia moderna não se reconhecem, de modo absoluto, "raças superiores" e "raças inferiores". Com o que se concilia tradição hispânica que vem de longe, sabido como é que os hispanos se anteciparam como pioneiros, sob vários aspectos, da Antropologia científica: antecipação que é hoje proclamada por alemães como Diltheg e reconhecida por outros europeus como Metraux. Essa tradição não irá se deixar vencer, precisamente gora, por uns poucos espanhóis ou uns tantos portuguêses, uns ricos, outros snobs, que pretendem fazer que a sua gente imite, na África ou no Oriente ou na América, a belgas, a holandeses, a inglêses, no que belgas, holandeses, e inglêses têm de menos digno de imitação; sua incapacidade de confraternizar com os povos de côr. Assunto em que os português mais castiçamente têm sido, ou são, mestres; e os brasileiros, também castiços, seus melhores continuadores: mais completos que quaisquer outros europeus ou descendentes de europeus. O que não significa ser o Brasil perfeito neste particular: democracia racial.
É como equilíbrio entre tipos de cultura, ostensiva ou secretamente em conflito ou em antagonismo na África e noutras áreas - o europeus culturalmente imperial, cujas possibilidades de sobrevivência saudável nos trópicos parecem ser muito limitadas, se preservado como tipo de civilização puro ou imperial - e as culturas ecològicamente tropicais da África e de outras áreas, que a tradição ibérica, e dentro dela, o sistema ibérico de adaptação de homens, valores e técnicas europeus e ambientes tropicais e quase tropicais, parece vir sendo, com tôdas as suas imperfeições e deficiências, o mais eficaz.
A política hispânica, em geral, portuguêsa, em particular, de pluralismo cultural, antes convergente que apenas paralelo, vêm incluindo, há séculos, a adoção, pelos europeus, de tais valores técnicas, como a farinha de mandioca como substituto do trigo; a rêde ameríndia, como substituto da cama européia; a cerâmica ameríndia, como substituto da européia. Não sòmente isto: as próprias autoridades Católico-romanas foram, nos dias coloniais, tolerantes para com os elementos ameríndios e africanos de cultura tais como danças tribais em festivais da Igreja. Festivais que, devido ao clima quente, tornaram-se no Brasil e noutros países de colonização hispânica, reuniões externas ou festivais de rua ou de praça ou de largo de igreja mais do cerimônias internas, de recinto fechado, no estilo das européias. Como resultado, os brasileiros, tanto quanto as populações cristãs de outras áreas tropicais colonizadas por portuguêses, adotaram uma maneira de celebrar o Natal que se diferencia da do Norte da Europa; e que, se adapta, nas suas formas tradicionais - presépio, lapinha, missa campal, pastoril ao ar livre - à ecologia tropical. Com esta não se harmonizam nem papais-Noel nem árvores de Natal dentro das salas. Nesse papai-Noel é o Menino-Deus nuzinho e sem capote russo ou sobretudo ianque. Êste é apenas um exemplo de tropicalização, que entre descendentes de portuguêses e espanhóis, vêm sofrendo ritos Católicos e europeus.
Com essas adaptações de valores europeus e de técnicas próprias de povos e de culturas tropicais, os hispanos e seus continuadores, no plano cultural, vêm desenvolvendo nos trópicos civilizações simbióticas que, já relativamente bem sucedidas na América, podem orientar desenvolvimentos semelhantes aos ibero-americanos em novas áreas tropicais onde vêm surgindo, com a descolonização, novas nações que precisam de realizar combinações do mesmo tipo. É grande a responsabilidade do Brasil em relação a essas novas nações. Somos uma nação de configuração neo-ibérica, que, desenvolvendo em espaço tropical, uma civilização, em grande parte, européia, nos seus fundamentos, vem recriando essa civilização e criando um nôvo e vigoroso tipo não só de sociedade multi-racial, como de civilização multicultural, a um tempo multi-européia e bitropical - desenvolvida em trópico húmido e em trópico árido - dentro de suas constantes ibéricas, das quais avulta não só a permanência como o avigoramento da latiníssima, na sua origem, mas já muito tropicalizada, língua portuguêsa - cheia de indianismos e de africanismos - como a língua nacional de brasileiros das mais diversas procedências étnicas e culturais. Inclusiva a japonêsa, cada dia mais presente na composição da população e no desenvolvimento de uma civilização que, sendo lusitana, ibérica, latina, nas suas bases e nas suas constantes, não se arreceia das contribuições que lhe possam vir de outras fontes de energia e de cultura, antes estima tais contribuições e os seus valores. Que assim é que as civilizações já seguras de suas bases e firmes nas suas constantes se engrandecem e se enriquecem; e não fechando-se nessas bases e nessas constantes.
As idéias sôbre tropicalismo em geral, e sôbre Tropicologia, Hispanotropicologia e Lusotropicologia, em particular, partidas do Brasil, e as sugestões, também partidas daqui, e sôbre o mesmo Brasil como parte de uma complexa civilização ecològicamente tropical - uma civilização ao mesmo tempo transnacional e interregional tendo por base essa ecologia - e formada por um conjunto de áreas, tôdas tropicais, geogràficamente descontínuas, algumas, porém sempre interrelacionadas pelas suas comuns condições ecológicas e pelos seus também comuns motivos essenciais de vida e por processos idênticos de integração nos trópicos, quer úmidos, quer áridos - condições tropicais e motivos e processos, pan-hispânicos - estão esboçadas em vários trabalhos brasileiros - alguns ainda inéditos, como a conferência que em 1956, proferi na Universidade do Escorial, na Espanha, sôbre o Brasil como nação duplamente hispânica; as conferências que pronunciei sôbre o assunto, em 1953, no Recife e forma repetidas, em 1954, na Bahia e no Rio de Janeiro; como preleções lidas em universidades européias e dos Estados Unidos, de 1959 a 1965. Publicadas como "notas prévias" a um nôvo conceito de tropicalismo se acham as conferências que proferi em 1951 no Instituto Vasco da Gama, na Índia, e em 1952, na Universidade de Coimbra.
Note-se que, dentro do critério seguido nesses trabalhos, são conciliáveis, e não incompatíveis, as duas posições do Brasil como participante, no plano internacional, de dois complexos interregionais, diferentes mas, em vários pontos, complementares, de civilização moderna: o interamericano e o intertropical, êste, tendo por base, do ponto de vista da convivência brasileira, um conjunto hispano-tropical de civilizações nacionais e regionais afins e capazes de constituir federações, e talvez, vasta e complexa federação, hispano-tropical, para o desenvolvimento e a defesa de interêsses e de valores comuns.
O fato de ser hoje o Brasil um país com difíceis problemas a ser resolvidos dentro das suas fronteiras, nas suas áreas agrárias e té mesmo nos seus sertões, onde agora se ergue a monumental Brasília - maravilha de arquitetura escultural construída com rapidez ianque por um Presidente dinâmico, embora com evidente sacrifício de obras mais urgentes, do ponto de vista nacional, de saúde, de educação, de engenharia, de modernização de agricultura, de reforma, ou antes, de reformas agrárias, de descentralização de indústrias - não deve impedir a gente brasileira de assumir, como gente hispano-tropical e não apenas americana, cada dia maiores responsabilidades transatlânticas. São responsabilidades que lhe conferem sua situação de meia-potência ao mesmo tempo amerciana e hispano-tropical, ao mesmo tempo continental e marítima. São responsabilidades que lhe impõem os êxitos de sua civilização moderna desenvolvida de modo predominantemente ibérico por uma população - repita-se - em grande parte, mestiça, em espaço, em grande parte, tropical. Responsabilidades de povo, por isto mesmo, mediador entre povos europeus e povos não-europeus, entre nações antigas, e já consolidadas, e nações jovens e ainda instáveis, como algumas da África e várias do Oriente; e, no continente americano, entre a América Inglêsa e a América Espanhola.
São nações, várias das jovens repúblicas da Ásia e do Oriente, ainda desorientadas e inseguras e, por isto, antieuropéias e até fazendo, algumas delas, da negritude uma perigosa mística racista. A essas, como a outras nações novas, pode aproveitar a experiência de um Brasil há mais de século independente e há quatro séculos em desenvolvimento, primeiro prénacional, depois nacional como civilização ètnicamente democrática e, por isto, em grande parte, mestiça, no trópico. Com uma arquitetura, com uma higiene, com um foot-ball dionístico como um samba, em que se exprime um tipo de civilização nôvo. Nôvo, sobretudo, por ser mestiço.
Sendo especificamente brasileiro êsse nôvo tipo de civilização é, nas suas características mais amplas, vigorosamente hispano-tropical pelo que inclui de valores tanto portuguêses como espanhóis integrados em ambiente tropical e misturados a valores mouros, ameríndios, africanos, sírios, e não apenas inglêses, franceses, italianos, alemães, poloneses, semitas anglo-americanos, também presentes em civilização tão complexa. Paradoxalmente quase se poderá dizer: tão singularmente plural, além, de complexa.
Pode-se considerar característica brasileira a tendência para soluções mistas de crises que vêm decorrendo do embate entre contrários; a tendência para harmonização dêsses contrários; a tendência para expressões de cultura, quer prénacional, que a nacional - cultural no sentido antropológico ou sociológico - nos mais diversos setores, que podem ser definidas, como expressões psicoculturais, como combinações de diferenças e até de antagonismo.
São vários os exemplos que podem ser apresentados e que mostram vir a cultura brasileira se estabilizando - estabilização relativa, porque uma cultura nunca se estabiliza de todo, a não ser quando deixa de existir e passa a ser apenas história, arqueologia ou curiosidade de museu - em expressões mistas de um vigor sociològicamente híbrido. Expressões principalmente euro-tropicais. Especìficamente hispano-tropicais. Combinações, várias delas, de valores vindos da Europa com valores ameríndios ou procedentes da África e do Oriente. Adaptações, não poucas, de valores de procedência européia, oriental ou africana a condições especìficamente tropicais, quase tropicais, brasileiras, de meio ou de ambiente.
Tais combinações e tais adaptações vêm se processando, quase tôdas, como aquela busca, consciente ou não, de ajustamento de contrários numa ordem social e num sistema cultural sob vários aspectos, funcionais e experimentais. Novos. Constituem alguns dêles manifestações de um processo social e culturalmente revolucionário.
O Brasil vem se constituindo num tipo de sociedade e num estilo de cultura que representam tanto desvios, - alguns dêles, revolucionários - de ortodoxias socioculturais, como, ao mesmo tempo, retificações da civilização, independente da européia, de que foi criação principalmente política, embora também econômica e, certamente, ética. Várias dessas retificações, vêm importando em superações, também revolucionárias, das culturas não-européias que concorreram para formá-lo. O que há entre nós de ibérico é tropicalizado num neo-ibérico, em certos aspectos contrário ao original; e noutros, a sua revitalização pela nova ênfase dada a elementos subcivilizados absorvidos por gentes ibéricas de populações e de culturas não-européias dos trópicos. Elementos, êstes, por vêzes exaltados, pelas gentes ibéricas, nas suas culturas hispano-tropicais, sôbre os puramente racionais, por elas assimiladas de outras origens européias.
O cristianismo brasileiro - assunto de que vem se ocupando magistralmente o Professor Thales de Azevedo - não é um simples prolongamento nem do português nem do espanhol mas um cristianismo que assimilou à sua religiosidade e aos seus ritos inspirações ameríndias e sugestões africanas. Um cristianismo hispano-tropical. Alfabético e analfabético, com seus símbolos unindo essas duas expressões da mesma religiosidade, no plano cultural, assim como no social.
O que há, porém, entre nós de ameríndios, é também neo-ameríndio, tal a europeização que o vem alterando. Conservamos dos indígenas o seu tabaco, o seu vício do fumo, a sua mandioca, a sua rêde, a sua pitanga, o seu jenipapo, o seu caju. Mas sob novas expressões: adaptados, em parte, a hábitos europeus e a ritos e refinamentos europeus de alimentação e de gôzo de valores naturais e rústicos. O que é certo também do que há em nós de africano: em vez de cru, o neo-africano presente no tipo brasileiro de hoje e na sua cultura apresenta-se europeizado pelos contactos que sofreu, no Brasil, com valores europeus, adaptados pelo hispano ao meio brasileiro ou ao ambiente tropical.
Dêsses valores vários foram de tal modo assimilados por africanos natos trazidos ao Brasil como escravos que ao regressarem, alguns dêles, no século passado, à África, como homens livres, tornaram-se, em diversos pontos do continente africano e sob a denominação de "brasileiros", disseminadores de uma terceira cultura, que não sendo mais pura ou cruamente africana, não se tornara, entretanto, no Brasil, hista e passivamente européia, colonialmente européia, passivamente européia, porém brasileira: plàsticamente, fluxuosamente, dinâmicamente, ativamente brasileira; e como tal adotada por aquêles africanos natos e pelos seus filhos que, voltando a viver na África, levaram consigo e propagaram entre outros africanos o culto ao Senhor - por êles transformado em Senhora - do Bonfim; o brasileiríssimo apêgo à mandioca; o gôsto por uma música e por várias danças, nem africanas nem ameríndias nem européias, porém brasileiras, a própria arquitetura neo-portuguêsa do Brasil colonial.
São casos, todos êsses, que podem ser apresentados como exemplos da capacidade brasileira para combinar valores de origens diversas numa terceira expressão de cultura; e esta, com elementos intuitivos, telúricos, rústicos, a revitalizarem os apenas lógicos ou estritamente racionais, além de exclusivamente alfabéticos. Elementos analfabéticos a darem nôvo vigor aos alfabéticos.
O que dá valor além de vigor ao que, na cultura brasileira - como em culturas africanas e asianas afins da brasileira - não é apenas cultura de livro, de letra, ou expressão de instrução convencionalmente alfabética. Não é - saliente-se a êste propósito - o analfabeto que assusta o brasileiro mais profundamente e menos demagògicamente preocupado com os problemas do Brasil: os da atualidade e os do futuro. Não é analfabeto mas aquela parte da população brasileira de hoje, prejudicada pela petulância que o perigoso pouco saber alfabético dá, por vêzes, às suas vítimas, que maior inquietação nos deve trazer. Não é o analfabeto que nos deve apavorar mas o pouco ou semiletrado que se encontre em funções de adulto e seja vítima, já madura, do mesmo mal que alguns jovens universitários: o adulto já maduro que hoje desempenhe, com empáfia de pouco ou de semiletrado, cargos de liderança política, industrial e até intelectual, para os quais não se ache senão aparente ou superficialmente preparado. Problema que é também o de várias das novas sociedades nacionais da África e de nações ainda jovens de outras partes do mundo.
Não: o terror não nos deve vir dos muitos analfabetos que antes enriquecem, muitos dêles, o Brasil e a essas outras sociedades nacionais, afins da brasileira, com suas virtudes rústicas, do que o empobrecem com sua incapacidade de ler jornais. Não nos deve vir êsse terror tanto dêles e da sua ignorância de livros e de letras como dos numerosos pouco ou semiletrados que hoje dominam, como a sua caricatura de saber, posições de decisiva importância para a vida nacional, degradando-as e emporcalhando-as, vários dêsses pouco ou semiletrados, sendo que, tendo deixado de ser analfabetos, deixaram, principalmente, de ser elementarmente e autênticamente honestos, como tendem a ser tantos analfabetos, dos que conheço de perto no Brasil e em aldeias, onde tenho vivido, na Espanha e em Portugal e até muitos do que tenho conhecido na África e no Oriente.
De semiletrados, sobretudo, é que estão se servindo cetas fôrças antibrasileiras em insidiosa ação desabrasileirante no Brasil de hoje, para os seus objetivos mais sinistros. "Livra-me, oh! Deus, dos maus amigos que dos inimigos declarados sei livrar-me eu", é frase atribuída a Voltaire. Bem poderia o Brasil de hoje rogar a Deus que o livrasse dos seus pouco ou semiletrados, a fazerem as vêzes de sábios, que dos seus analfabetos - aparentes grandes inimigos do desenvolvimento e da segurança nacionais - êle sabe livrar-se: ou utilizar-se; ou beneficiar-se até do que nêles é saber intuitivo. Grande obstáculo a êsse desenvolvimento e a essa segurança do Brasil vem principalmente daqueles aparentes, não inimigos, mas amigos; e não tanto, dos seus inimigos mais aparentes, do que reais: os analfabetos.
Apraz-me citar, a êste propósito, o depoimento de um intelectual Católico que se inclui, pelo seu esclarecido fervor reformista e pela sua posição de vanguarda, entre os líderes culturais em consonância com a situação brasileira. Refiro-me ao Professor José Rafael de Menezes, cujo recente Cristianismo e Socialização é, talvez, o que de melhor produziu, nestes últimos anos, com relação ao assunto, a inteligência Católica mais especificamente voltada para os problemas brasileiros de ética de convivência, na fase de transição social que atravessamos. Que diz êle, dêsse ponto de vista? Que, "no caso brasileiro", não nos deve assustar "a grande porcentagem de analfabetos". Mais: que "não nos deve iludir a encenação das campanhas de alfabetização que se julgam solucionadores de todos os nossos problemas".
Suas idéias coincidem com as que sigo há anos quanto ao fato de termos na gente mais rústica do Brasil, mesmo analfabeta, valiosa reserva do que êle domina, como Católico que é, "virtudes temporais", desenvolvidas nessa mesma gente por um cristianismo - agora digo eu repetindo o que mais de uma vez tenho escrito - mais litúrgico do que bíblico, mais atuante através de símbolos do que letras, e que, sendo virtudes susceptíveis de ser aproveitadas numa democracia integral, tão econômica quanto política, tão social quanto étnica, apresentam-se mais vigorosas na nossa gente - fale mais uma vez o Professor José Rafael Menezes - "quanto mais modesto, mais rústico, mais primitivamente brasileiro fôr o homem" em que, por isto mesmo, maior terá sido, e maior poderá continuar a ser, a presença daquele cristianismo.
Não: não é o analfabeto que constitui o grande problema da gente brasileira, em particular, das populações hispano-tropicais ou tropicais, em geral, numa época em que o rádio, o cinema, a televisão, a automação - isto é, a máquina posta a serviço da comunicação audiovisual entre os homens - através de imagens e símbolos que já regulam, aliás, o tráfego - o que atualiza os métodos Católico-medievais de comunicação por símbolos e imagens, podem substituir, não de todo, mas em larga escala, o livro, a letra, o jornal. Pelo que não é preciso que nos deixemos dominar pelo desânimo com relação a essas populações devido ao puro fato de ser alta, entre algumas delas, a percentagem de analfabetos. Esta deficiência - ao contrário - sendo uma deficiência, contém, mesmo assim, enquanto assim permanecer, umas tantas vantagens, sob o ponto de vista da conservação, entre essas populações, de artes e de valores de culturas de outras origens que não, as bíblicas ou alfabéticas, que aos poucos poderão ser recicladas para vigorarem, em vários setores, culturas alfabéticas.
Não se diga que estou sendo apologético de culturas ou de populações analfabéticas, a revelia de tudo o mais. O que procuro é destacar que, com os modernos meios de comunicação por imagens e por símbolos - é hoje possível, por exemplo, a qualquer indivíduo, desconhecedor de idiomas, além do seu, e até analfabeto, rodar de automóvel ou de motocicleta por tôda a Europa Ocidental, orientado apenas por símbolo de tráfego, frequentar restaurantes, também orientado por símbolos de alimentos e de bebidas, ver filmes e teatro de ballet e de mímicas igualmente simbólicos - já o analfabeto não será, só por êste acidente na sua condição cultural, um segregado, incapaz de acompanhar o desenvolvimento de sua comunidade. Por outro lado, é possível a êsse analfabeto conservar virtudes rústicas que a semianalfabetização tende a destruir sem substituí-las imediata e màgicamente por virtudes urbanas.
Parece, assim, que o de que mais precisamos de nos acautelar é das deformações de cultura e de comportamento que, em comunidades em fase de transição, vêm caracterizando a semianalfabetização de elementos rústicos nessas comunidades. Precisamos nos resguardar mais dessas deformações do que do tão falado flagelo que ninguém nega vir sendo obstáculo à integração de numerosos elementos de uma comunidade a alguns dos seus processos de desenvolvimento tecnológico e de igualmente social - do analfabetismo.
As atuais populações e culturas hispano-tropicais que, como a brasileira, são populações e culturas em parte analfabéticas não estão, só por isto, em situação de inferioridade em relação com populações e culturas mais alfabetizadas do que elas. Compreendeu-o o inglês Borrow ao chegar à conclusão de ser a gente espanhola que êle conheceu no século XIX - uma gente em grande parte, naquela época, analfabeta - magnífica de vigor de espírito, menos pela sua literatura escrita do que pela sua língua. Uma língua em que se exprimia uma cultura mais que européia.
Não se estará verificado o fato de começarmos já a viver uma época mais de oralidade do que de escrita: a prevista pelo russo genial que foi V. V. Rozanov? "Bem pode ser " - escreveu já dezenas de anos o chamado Amiel russo - "que estejamos já vivendo no fim da época das literaturas", isto é, das literaturas alfabéticas. O que lhe perecia saudável, dado a circunstância da muita cultura de alfabeto, de letra, de livro, vir, segundo êle, trazendo às culturas, devido a êsse excesso, artificializadas ou sofisticadas no mau sentido, uma "profunda desintegração de vida" e comunicando essa sua "literaturidade" desintegradora - Rozanov criou um neologismo para o fenômeno - ao conjunto, que da existência humana, quer das culturas nacionais representadas tão sòmente por literaturas estritamente alfabéticas, estilizadas, malarmélizadas, mais de composição do que de expressão.
Se é certa a previsão de Rozanov, as culturas hispano-tropicais, pelo que existe nelas existe de virginalmente analfébetido e de potentemente e até antiacadêmicamente e mesmo antiliteràriamente oral - característico presente nas próprias literaturas hispânicas e hispano-tropicais, nas quais a língua oral se vem manifestando mais forte que a aliteratada, nos Cervantes e nos Unamunos, nos José de Alencar e nos Lima Barreto, nos Garcia Lorca e nos José Lins do Rêgo - nenhum dos quais, ali escritor exemplarmente correto ou literàriamente precioso como mestre de composição castiça ou de requinte estilístico - são culturas que se apresentam com condições favoráveis ao seu esplendor como fôrças de expressão psicocultural capazes de se ajustarem melhor do que as requintada e especificamente aliteratadas ao futuro que venha a corresponder ao declínio da "literaturidade" previsto, como ôlho clínico, pelo intelectual intuitivo que foi Rozanov.
O que aqui se sugere sôbre um provável futuro mais extra que intraliterário, das culturas hispano-tropicais, concorreria para dar ao Brasil, nação, ao mesmo tempo hispânica, na sua formação básica, e tropical, na sua ecologia - responsabilidades culturais de considerável importância. Sobretudo na fase de transição de culturas ou de civilizações menos exclusiva e convencionalmente alfabéticas para culturas mais complexamente e mais corajosamente telúricas, intuitivas, vitais, mímicas, coreográficas, musicais, existenciais, no seu modo de serem expressões de pensar, de sentir, de intuir, de criar, da parte de sociedades humanas. No caso, sociedades humanas que juntas a uma herança européia hispano-cristã - menos prejudicadas do que outras culturas européias, pelo impacto, sôbre elas, do sentido de tempo como tempo-dinheiro - a sua situação de sociedades em desenvolvimento em espaços tropicais: os mais favoráveis ao contacto de homens ou de populações com mais ambientes naturais. Os mais favoráveis a criações artísticas como expressões de vidas e de personalidades situadas e desenvolvidas, em grande parte, em ambientes naturais: ao ar livre, ao sol, ao relento, em grande intimidade com as águas.
Sugerindo o que, não se sugere que as Ciências chamadas sociais, ao se tornarem, quando Ciências aplicadas, ecológicas, se tornem Ciências estritamente nacionais. Ecologismo não significa tal extremo. Nem do critério de considerar-se o conjunto de expressões socioculturais de origem principalmente hispânica, em áreas tropicais, se pode dizer que se aproxime de afã estreitamente nacionalista. As perspectivas que êle abre sendo a pan-hispânica e a pan-tropical, combinadas, não é possível que sôbre elas se procure projetar, em plano sociológico ou antropológico, um afã apenas nacionalista, a favor de qualquer membro do todo: o todo - gestaltianamente - que sociològicamente seja configurado através daquelas duas perspectivas combinadas. É êsse todo, como todo, que constitui uma fôrça transnacional de cultura, cada dia maior, no mundo por onde se espalha, desenvolvendo valores de origens espanholas e portuguêsas e dando-lhes novos significados sociais e novos sentidos humanos.
Fonte: FREYRE, Gilberto. Brasil, nação hispânica: novas sugestões em torno de um tema já versado pelo autor. Salvador: Universidade Federal da Bahia, nº 114 - 115, mai./jun. 1966. 27p.
|