Biblioteca Virtual Gilberto Freyre - voltar à página inicial
busca       galeria       mapa do site       softwares       créditos       e-mail

Assinatura de Gilberto Freyre
Opúsculos  



O 1º COLÓQUIO DE ESTUDOS TEUTO-BRASILEIROS
Discurso Inaugural


Muito me honra o convite da Universidade do Rio Grande do Sul para presidir êste colóquio de estudos teuto-brasileiro, que se realiza sob os seus auspícios; e de cuja organização foi encarregado, pelo Magnífico Reitor da Universidade, um dos mestres mais ilustres desta casa, o professor Laudelino Teixeira de Medeiros.

A idéia do colóquio, lancei-a há três anos em simples artigo de revista. Despertou o interêsse e atraiu a simpatia de não poucos brasileiros e de vários alemães, tendo no ano de 1961 havido no Rio de Janeiro uma série de reuniões, nas quais à presença de brasileiros eminentes se juntou a de europeus igualmente notáveis pelo seu saber e pela sua inteligência – um dêles o professor Jean Roche. Decidiu-se, então, que o colóquio sugerido por um brasileiro do Norte se realizasse sem demora. Decidiu-se também que deveria realizar-se em Pôrto Alegre; e que para tanto se solicitaria o apoio da Universidade, já então dirigida por um Reitor conhecido e admirado nos meios universitários do Brasil inteiro, pelo alto critério e pela ampla visão com que vem desempenhando suas funções como que episcopais. Apoio que não vem faltando aos idealizadores do colóquio de estudos teuto-brasileiros.

Compareço aos trabalhos que aqui vão reunir eruditos de várias especialidades e de diversas procedências, com pequena contribuição, cujo único mérito – se o tiver – será o de versar assunto quase virgem: aspecto quase ignorado da presença alemã no Brasil, que, de ordinário, se supõe ligada apenas ao Sul do país. êste aspecto, o constituído por " Contactos pernambucanos com a Alemanha nos meados do século XIX ". é ensaio escrito quase à revelia de livros, alemães ou brasileiros, em que haja referências ao tema – um dêsses livros, sendo o excelente, do dr. Carlos H. Oberacker Júnior, com prefácio do historiador paulista Sérgio Buarque de Holanda e até hoje sem tradução portuguêsa: tradução tão necessária. é ensaio escrito, o meu, á base de manuscritos e de documentos até hoje inéditos. Se uma outra vez, recorri, na sua elaboração, observadores inglêses e, sobretudo, franceses de uma situação – a crescente presença alemã no nosso País, iniciada, em seu moderno aspecto, nos primeiros anos do século passado intensificada, não só no Sul do Império, como na própria Província de Pernambuco, nos meados do mesmo século – foi por terem tais observadores se preocupando com o assunto de maneira sociològicamente significativa. O tema – contactos pernambucanos com a Alemanha nos meados do século XIX – procurei desenvolvê-lo em conferências de caráter universitário, a serem proferidas, se houver oportunidade para tanto, no decorrer dos trabalhos do Colóquio que hoje se inicia.

Nesta primeira conferência, apenas versarei aspectos gerais do assunto: colocando-o quanto possível dentro do seu contexto sócio-cultural brasileiro. Também dentro de um tempo social menos estrito que os vinte anos que constituem os meados de um século.

Ao fazê-lo, obedeço no meu modo sociológico ou antropológico-social de procurar ser historiador da sociedade e da cultura brasileiras, sob critério antes alemão ou francês que anglo-americano de estudar-se sociològicamente uma sociedade ou uma cultura; e que é o método antes vertical que horizontal. Nós, brasileiros, é o método que mais temos seguido nos estudos dêsse gênero, surpreendendo e até desnorteando muitos dos sociólogos e dos antropólogos dos Estados Unidos, com êsse nosso modo, para vários dêles, herético, de juntar à análise sociológica a psicológica e socialmente histórica ou antropológica das origens e dos antecedentes do grupo ou da cultura, do subgrupo ou da subcultura, que interesse ao analista procurar caracterizar nas suas expressões gerais. Expressões gerais de que as contemporâneas são apenas um aspecto.

Ainda há pouco, lendo os comentários à edição em língua inglêsa de um trabalho brasileiro, do gênero a que acabo de referir-me, - comentários publicados recentemente em língua inglêsa – surpreendo o anglo-americano desnorteado com a metodologia do autor. Entretanto, conhecesse melhor êsse professor anglo-americano o seu Simmel e teria observado tratar-se de variante brasileira de um método germânico já quase clássico; e eu consiste em sobrepor-se ao que, numa cultura ou sociedade que se analise sociológica e històricamente, é substância particular o conjunto de formas gerais que caracteriza as substância particulares de modo mais amplo. Assim, desenvolvimento brasileiro, as formas familiais de organização social – quase sempre patriarcais ou para-patriarcais – e as economia – quase sempre de caráter rural – apresentam-se transregionais a quem considere aquêle desenvolvimento nas suas origens e nas duas formas decisivas de relativa estabilização. Caracterizam transregionalmente a formação do todo brasileiro. Não importa que se tenham iniciado, no Nordeste brasileiro, com a agricultura da cana e com o fabrico do açúcar: transferiram-se, como formas de organização social e de exploração econômica, para a área centro-sul do café, depois de terem atingido a do gado, a do cacau e até a da mineração e de terem se comunicado à própria área amazônica.

A presença alemã no Brasil viria trazer um aspecto nôvo à formação brasileira; mas sem fazer violência radical ás formas já características dessa formação. Dando nôvo conteúdo étnico e cultural a essas formas, é certo; mas integrando-se no que nelas era já transregionalmente brasileiro no sentido de serem formas de organização predominantemente familial e até patriarcal, de sociedade ou de convivência, ao mesmo tempo que de organização predominantemente rural economia, adaptáveis a predominâncias étnicas diferentes das ibéricas, a relações de lavradores com as terras diferentes das escravocráticas, a atitudes religiosas diferentes das católicas.

Alegra-me o fato de ter vindo do Brasil setentrional a sugestão de reunirem-se em colóquio os brasileiros interessados em assuntos que, na reunião-pilôto do Rio de Janeiro, decidimos denominar um tanto arbitràriamente, teuto-brasileros. é fato expressivo. Mostra que, no Brasil, especializar-se um homem de estudo na análise de sociedade ou cultural regional, das várias que formam o conjunto brasileiro de dimensões nacionais, não significa que, no seu especialismo, deixe de interessar-se pelas demais sociedades e culturas do seu país; que seja incapaz de compreendê-las sociològicamente; que perca de vista as interrelações entre essas várias culturas. Da minha parte, é assim que venho procurando analisar, compreender e interpretar o conjunto sócio-cultural brasileiro: através mais do que nêle é dinâmicamente transregional do que estàticamente regional. Através do estudo das interrelações que fazem suas diferenças se completarem no plano psicossocial, mesmo quando os contrastes de nível econômico põem em situação de desequilíbrio as relações interregionais.

Repito que é atendendo mais à transregionalização de formas – formas no sentido sociológico – que à permanência, nas várias regiões brasileiras, de substâncias de caráter ecológico, étnico, econômico e mesmo cultural que diferenciam essas regiões umas das outras e tôdas das suas origens européias ou ameríndias, africanas ou asianas, que venho procurando estudar, compreender e interpretar o Brasil. O Brasil uno e plural que todos os brasileiros sentem hoje como um todo, sem prejuízo do que seja apêgo de cada um à sua região, à sua província, à sua cidade, à sua aldeia e até à sua casa ou ao seu quintal. O Brasil em que a estância se desenvolveu, como forma social, no sentido de um equivalente sociológico do engenho de açúcar, da fazenda de café, da fazenda de criar, dentro do mesmo complexo, nas suas predominâncias, rural-patriarcal, comum à formação do Brasil inteiro.

A êsse conjunto, de proporções continentais, todos concordamos em que é necessária, como língua transregional e nacional, uma língua comum: a portuguêsa. Mas sem que a adoção dessa língua geral implique, da parte dos brasileiros de origens não-lusitanas, no repúdio às suas línguas particulares. Creio mesmo que o brasileiro ideal seria o que fôsse, quando de origem não-lusitana, bilíngüe; e juntasse ao conhecimento da língua portuguêsa o da língua de sua cultura de origem, conservada tão viva que entre as duas línguas – a nacional e a particular – se verificassem constantes interpenetrações, em proveito da nacional. Interpenetrações que do plano lingüístico se estendessem ao étnico-cultural e numa população que se vem desenvolvendo, adquirindo característicos próprios, desenvolvendo estilos nacionais de convivência e formas nacionais de expressão política, ética, estética, através de interpenetrações étnico-culturais cada dia mais extensas.

Enganam-se os estrangeiros, mesmo antropólogos, ou sociólogos, que supõem o Brasil tão diferenciado em Brasis – Brasis a que têm dado as denominações mais diversas – que o que é sociològicamente válido para um dêsses Brasis, deixa sempre de valer para a interpretação dos demais. São sociólogos e antropólogos que não distinguem bem formas transregionais, de substâncias regionais. Daí as incompreensões em que resvalam e as generalizações inexatas em que se extremam.

Desautoriza-lhes várias dessas generalizações o modo por que o Brasil vem se afirmando uno nas suas formas sociológicas de ser uma só comunidade nacional, sem deixar de ser plural nas substâncias de caráter étnico-cultural que constituam a mesma comunidade. Esta, a grande fôrça do sistema sócio-cultural brasileiro: a de ser ao mesmo tempo uno e plural. Dinâmicamente uno e dinâmicamente plural.



Fonte: FREYRE, Gilberto. O 1º COLÓQUIO de estudos teuto-brasileiros: Discurso Inaugural. Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 1964.

Topo
Voltar Página inicial