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Assinatura de Gilberto Freyre
Opúsculos  



CONVERSA COM GILBERTO FREYRE


Gilberto Freyre, homem de luta

"... O caso Gilberto Freyre talvez seja o mais grave de todos. É bem verdade que aí a quinta-coluna se encontra de frente com um homem afeito às lutas, mesmo as lutas que não são puramente intelectuais, um "homem duro". Não creio que Gilberto se exile, aproveitando os reiterados convites que lhe chegam de tantas partes dos paizes mais cultos do mundo... Desde o início de sua vida intelectual, esse homem tem lutado..."

JORGE AMADO.

O autor de "Casa-Grande & Senzala" estava cuidando dos legumes, na sua chácara de Sto. Antonio de Apipucos, quando o jornalista apareceu. O escritor se achava de macacão azul. Tinha achado há pouco, ao revolver a terra com um resto arqueológico de faca de ponta (outrora de um cangaceiro célebre e hoje empregada nos cuidados pacíficos de uma tranquila chácara às margens do Capibaribe), uma moeda portuguesa de 1726: sinal da antiguidade da casa-grande caiada de amarelo, com janelas de vidraça, pintadas de azul, onde o escritor está instalado com a esposa e a filhinha e com uma biblioteca de perto de dez mil volumes, espalhados pelas três salas da frente, uma delas, enorme, com muito jacarandá escuro, alguns quadros antigos e, um contraste escandaloso, um quadro de Cícero Dias, outro de Jorge de Lima, um terceiro de De Garo. Destaca-se um retrato a oleo de José Lins do Rego por Ismailovitch.

Quando recordamos ao dono da casa a figura de Alexandre Herculano, retirado na sua quinta a cuidar de oliveiras e sem querer saber de vida intelectual ou pública, respondeu que não procurava seguir o exemplo do grande historiador português, que aliás, muito admirava. Não chegara ao abstencionismo, nem esperava chegar até lá. Ao contrário; era dos que admitiam a intervenção, na vida, dos homens que estudam problemas sociais e de cultura. Intervenção na vida e na política.

Tem mesmo certo desdem pelos chamados "intelectuais puros" e pelos "estetas" que parecem sacrificar ao purismo, científico ou estético, ou ao abstencionismo, grande parte do que há de vivo e criador na personalidade de um escritor, de um cientista, de um artista. Nunca pensa nem estuda um problema para chegar a conclusões. É mesmo acusado de concluir pouco. Mas não foge às sugestões que se levantam da análise, do estudo, da meditação e da interpretação de um problema social e de cultura e às vezes de um fato histórico, sugestões que atinjam sobrevivencias e atualidade, projetando-se sobre a vida e sobre problemas gerais do homem de sempre ou de algum grupo social contemporaneo.

São essas atitudes que dão a Gilberto Freyre alguma coisa de lutador que nele parece completar em vez de prejudicar o intelectual, o pensador, o cientista, o artista. Pois não são atitudes de partidarismo político, nem de sectarismo religioso ou filosófico, nem de quem procure vantagens individuais. São atitudes de quem intervem, de quem luta, de quem reage, de quem não se acomoda, de quem despreza situações vantajosas por força de uma personalidade de escritor inseparavel da do homem. Como já escreveu dele Odorico Tavares é um pensador, um intelectual, um escritor que se faz respeitar tambem pela coragem física, de que, apesar de não ser nenhum Tarzan, tem dado provas magníficas, já tendo enfrentado um grupo de dez ou onze individuos. Lutaram ele e o seu pai, o dr. Alfredo Freyre, até há pouco catedrático de Economia da Faculdade de Direito do Recife, até serem dificilmente subjugados, Gilberto todo rasgado, o fato e a camisa reduzidos a trapos, o velho Freyre, com um ferimento na perna. Fato recente, honroso para o escritor e deshonroso para seus inimigos.

PLANOS E REALIZAÇÕES

Perguntamos a Gilberto Freyre pelos seus trabalhos, pelos seus planos, pelos seus livros em preparo ou em projeto. Ele nos convida a sentar no balanço que lhe ofereceu seu velho amigo José Américo de Almeida. É um começo de fim de tarde. Muita cigarra no vasto arvoredo. Apipucos é célebre pelas muitas cigarras. Foi aqui perto, no Poço da Panela, que Olegario Mariano tornou-se "o poeta das cigarras". Do terraço da casa de Gilberto Freyre tem-se uma linda vista que alcança o Capibaribe e grande parte da varzea do rio histórico, a cuja margens desenvolveu-se a civilização patriarcal do açucar que seus livros revivem e analisam ao mesmo tempo. Poesia e ciência. Observamos ao escritor: "muita cigarra aqui" Ele responde que sim, que seu amigo Odilon Nestor até as inclue num poema dedicado à "casa de Apipucos", mas que há tambem muita formiga. E nos aponta uma que conduz um pedaço, para ela enorme, de folha de jasmim do Cairo. Em Apipucos cigarras e formigas convivem, sem se excluirem.

APARECERÃO ESTE ANO

Mas os seus trabalhos, Gilberto Freyre?

Ele então nos fala dos livros que devem aparecer este ano: "No Brasil, quatro; ainda este mês, "Problemas brasileiros de Antropologia", editado pela Casa do Estudante do Brasil e com estudos como "A Propósito de Paulistas", no qual creio que se diz alguma coisa de novo sobre assuntos nossos; a quarta edição de "Casa-Grande & Senzala", aumentada, revista cuidadosamente e creio que melhorada, tantos são os acréscimos, tão completas as indicações bibliográficas, principalmente as de fontes, e tão numerosos os índices, trabalho em que teve a valiosa colaboração de Daniel Pereira e Abelardo Cunha, devendo-se ainda notar que as ilustrações de Santa Rosa dão ao livro a unidade artística sem prejuízo da exatidão de livro de ciencia que lhe faltou nas primeiras edições. Na apresentação de "Casa-Grande", em dois volumes nos tipos, na impressão, nítida muito vêem se esmerando o editor José Olympio e seus técnicos. Outros livros: o primeiro volume de "Sociologia", obra em quatro volumes, sendo o primeiro sobre "Sociologias e Sociologia - Introdução ao estudo das tendências sociológicas" e devendo chegar o último à filosofia social, inclusive uma tentativa de filosofia das relações inter-humanas e inter-regionais nas Américas e no mundo e após-guerra; o livro "Perfil de Euclides e outros perfís", que reune ensaios aparecidos em revistas, opúsculos ou jornais e varios inéditos e que terá ilustrações do meu amigo, o grande pintor Portinari. Isto sem falar na nova edição de "Olinda", com ilustrações de Luiz Jardim que só farão aumentar as admirações que esse extraordinario artista já conta em nosso meio e no estrangeiro".

TRADUÇÕES

E traduções?

"Na Argentina deverá aparecer nova edição de "Casa-Grande & Senzala", da Editora Emecé. A primeira foi iniciativa do Professor Ricardo Sevene, tão atento à vida intelectual brasileiro e trabalho do bom amigo do Brasil falecido há pouco, Benjamin de Garay. Apareceu o ano passado e exgotou-se rapidamente. Foi acolhida com grande simpatia, o que mostra o interesse que começa a haver da parte dos nossos vizinhos da América espanhola por assuntos brasileiros. Tambem este ano, deverá aparecer em lingua espanhola o ensaio "Nordeste", que será editado pela Espasa-Calpe de Madrid e Buenos Aires e para o qual escrevi, a pedido dos editores, o prólogo que "A Manhã" acaba de publicar. E em lingua inglesa creio que aparecerão ainda estes: "Casa-Grande & Senzala", a ser editado pela Imprensa da Universidade de Columbia e "Sobrados e Mucambos", que está sendo traduzido pelo Dr. M. C. Cardozo, da Universidade Católica de Washington. A publicação em inglês, desses dois ensaios tem sido retardada pelas dificuldades encontradas pelos tradutores".

OUTROS TRABALHOS

E outros trabalhos? Projetos?

"Para a coleção dirigida por Alvaro Lins, para o editor Fischer, tenho em preparo "Ingleses no Brasil". É livro que se baseia em documentos de arquivos. Em material por assim dizer virgem. Procurarei fixar aspectos que me pareceram significativos nas relações de cultura do Brasil com a Inglaterra, especialmente durante o século XIX".

E "Ordem e Progresso"?

"Continuo a reunir material para "Ordem e Progresso". Preciso de maior número de depoimentos de paulistas e mineiros, gente muito esquiva e que se abre muito dificilmente à curiosidade de um pesquisador. Estou sendo auxiliado agora na colheita desse material, em São Paulo e Minas, por Luiz Martins, Riserio Leite e Osmar Pimentel; na Baía, Ceará, Amazonas, Pará, por Luiz Maia; no Maranhão, por D. Maria Clay. Como sabe, "Ordem e Progresso" será o último volume da série iniciada com "Casa-Grande & Senzala" e cujo segundo volume foi "Sobrados e Mucambos". Este é livro praticamente esgotado. Já não é encontrado nas livrarias. Constantemente recebe cartas da Bahia, de Belo Horizonte, do Ceará, do Rio Grande do sul, de pessoas que não encontram "Sobrados" nas livrarias. Talvez ainda este ano saia Segunda edição deste livro, tão aumentada quanto a de "Casa-Grande".

VIAGENS... SÓ EM APIPUCOS

E viagens?

Não espero viajar este ano. Já não sou o cigano de outróra.

O cigano de beca?

Isto: já não sou o cigano de beca de outrora.

Deixa Yale, uma catedra em Yale, por Apipucos?

É, para morar, prefiro Apipucos a qualquer outro lugar da terra, mesmo com as dificuldades de vida que nos últimos anos o recifense vem experimentando com a falta cada vez maior, de carne sadia, de peixe, de ovos, de verduras, de leite e, parece incrivel, até d'agua! Por isto é que vou plantando legumes, criando galinhas e cuidado de cavar uma cacimba perto de casa. Como no tempo de meu bisavô...

Mas será possivel, nenhuma viagem em projeto?

"Nenhuma. Se tiver oportunidade irei passar uns tempos na Bahia, para colher material para o "Guia do Salvador" que pretendo escrever. Mas isso não chega a ser viagem no sentido a que v. se refere".

Sim, falo de viagens ao estrangeiro. Aos Estados Unidos, à Argentina...

Os convites de universidades norte-americanos não tenho podido aceitá-los desde 1940. O ministro Gustavo Capanema falou-me na continuação da viagem que realizei o ano passado em missão técnica do Ministerio da Educação e Saude, pela Argentina, Uruguai e Paraguai. O plano primitivo era o de visitar eu, em incumbência do Ministério da Educação, todos os países da América para a apresentação, àquele ministro, de um plano ou de sugestões para a intensificação das nossas relações de cultura com os mesmos países. Motivos que chamarei pessoais me impediram de aceitar novas incumbencias desse gênero, o que aliás lamento, pois encontrei no ministro Capanema um homem de espírito público, animado a realizar uma obra de verdadeiro e urgente interamericanismo cultural. Sobre a viagem ao Uruguai, à Argentina e ao Paraguai, apresentei ao mesmo ministro um relatório inicial com algumas sugestões que talvez possam ser aproveitadas um dia no interesse daquela obra de interamericanismo cultural. Como simples escritor, continuaria a fazer o possível para que as nossas relações intelectuais com o Paraguai, país de minha particular simpatia, com o Uruguai deixei tão bons amigos, com os Estados Unidos, onde conto com velhas e sólidas amizades, com a Argentina - onde sou hoje colaboradores efetivos de La Nacion, por convite do seu diretor, sr. Luiz Mitre - e com os demais países do continentes, continuem a se aprofundar e se desenvolver. Creio que os escritores, os artistas, os cientistas das Américas precisam de se conhecer melhor para desenvolverem neste continente uma cultura nova, em que variedade se junte à unidade. Tenho tambem um convite para ir à Inglaterra, afim de trazer conferencias numa das universidades inglesas. Não preciso recordar minha simpatia pela Inglaterra intelectual nem dizer quanto estimarei novo contato com uma vida universitária e com seus escritores, cientistas e artistas, quando isto for possivel. Por enquanto repito que estou recusando os convites para o estrangeiro".

DESFAZENDO UM BOATO

A propósito ainda de viagens há quem diga que sua viagem à Argentina foi por conta do DIP, para neutralizar o efeito de palavras de outro escritor brasileiro...

O boato já é meu conhecido e sei de onde partiu. Parece infamiazinha sutil dos meus mais metódicos inimigos que são os Jesuitas do "Nóbrega" e de Lisboa, mas não, vem de outra fonte, onde se procura imitar a velha técnica de deformar a realidade na tentativa de desacreditar ou desmoralizar pessôas que parecem perigosas à "causa" ou a outras pessoas... Mas se venho sobrevivendo às magistrais intrigas jesuíticas, como fazer caso das dos seus simples imitadores? Que eles continuem a mentir, pelo menos contra mim, com a melhor arte de que forem capazes. São até pitorescos. A minha recusa a continuar a desempenhar a missão Capanema nada tem que ver com boatos desse gênero. Prende-se a escrúpulos de outra natureza, que, repito, em nada diminuem a consideração que, pessoalmente, tenho pelo atual ministro da Educação, de quem varias vezes tenho divergido, a quem mais de uma vez tenho criticado, mas em quem reconheço um dos raros homens de espírito público que o Brasil tem hoje em posto de direção".

Foi a viagem à Argentina, Uruguai e Paraguai, sua primeira viagem de caráter oficial ou semi-oficial?

Não: em 1937 tive a surpresa de ser designado pelo Presidente Getúlio Vargas para, juntamente com os srs. Drs. Manoel Cícero Peregrino e Camilo de Oliveira, representar o Brasil no Congresso de Historia Portuguesa em Lisboa e estudar o problema de documentos referentes ao Brasil nos arquivos daquela cidade".

E as outras viagens?

"Todas as minhas viagens à Europa e aos Estados Unidos em 26, 30, 36, 38 e 39 - foram por minha conta ou a convite de Universidades estrangeiras, as anteriores por conta da minha familia. Tive em 1940, 41 e 42, convites também de universidades estrangeiras para realizar conferências, convites que sinto não ter podido atender, do mesmo modo que não pude aceitar a direção do curso de Filosofia Social que o ano passado me ofereceu a Universidade de Yale".

POESIA E CIÊNCIA

Ainda uma pergunta: há "poesia" nos seus livros em preparo ou somente ciência, como dizem alguns críticos que é o que "deve ser" em livros da natureza dos seus?

"Creio que sei porque me faz esta pergunta. Não pretendo poder respondê-la. Nem terei a ingenuidade de acreditar que realmente haja nos meus trabalhos essa combinação raríssima de poesia com ciência, que tantos desejam e poucos conseguem. Se houvesse tal combinação em tudo que escrevo, estaria contentíssimo. Lembra-se das palavras de Ellis sobre o assunto? São mais ou menos estas: que nem a poesia nem a ciencia são fins, porém, meios. Como meios, podem ser empregados para o mesmo fim, o da compreensão da vida humana, quando existe, é claro, no pesquisador, a capacidade de unir meios aparentemente tão antagônicas de indagação da mesma vida. E quem, senão um cientísta social como Graham Wallas, fala na beleza da relação rítmica entre o individuo e a espécie, entre a causa e o efeito? Beleza ou poesia a que pesquisador nenhum se aprofunde no estudo e na compreensão da realidade social pode ser indiferente. Em "Nordeste" creio ter conseguido sugerir, muito palidamente, é certo, a poesia da relação rítmica entre o ser humano e o meio. Gritaram então alguns críticos que aquilo não era senão poesia misturada com uma sociologia norte-americana aprendida às pressas. E perguntavam pelas estatísticas, como se só das estatísticas vivessem as ciências sociais. Nem vivem só das estatísticas nem apenas de fatos rigidamente estabelecidos mas principalmente de relações rítmicas, e portanto poéticas, entre realidade cuja decomposição em fatos e cuja representação em números varia de geração para geração, com o aperfeiçoamento de técnicas e o alargamento de conhecimentos e experiencias da vida na sua totalidade. A tendencia, hoje, em filosofia da ciencia é no sentido da definição de Singer de que a ciencia é um processo de criar conhecimento pela extensão e renovação constante do mesmo conhecimento. Portanto, um processo ativo, criador. Sob varios aspectos, se confundem com o processo poético. Não é dificil de ver que essa identificação opera com particular vigor no estudo, quanto possivel científico, de historia de instituições, de costumes, de relações inter-humanas ou dos homens com a natureza regional, onde a pura objetividade descritiva junta-se o esforço de compreensão. Compreensão de que o homem é capaz com relação ao que é humano. Aqui, naturalmente, entra Dilthey. Mas não lhe parece que esse palavrorio que V. está anotando com tanto afan, está se tornando demasiado pedante para uma conversa de suburbio? Para ser perfeito só falta uma citaçãozinha em alemão".

A propósito; dizem que sua sociologia é apenas uma cópia ou adaptação da norte-americana?

Enquanto há quem diga isso no Brasil, pesquisadores norte-americanos como Francis Butler Simkins se dizem influenciado pelas idéias e métodos do seu colega brasileiro. E o professor Metraux, suíço que conhece bem a sociologia européia e americana, considera "Casa-Grande" livro "único".

Acrescenta Gilberto Freyre:

De fato, muito aproveitei do estudo de métodos sociológicos de pesquisas norte-americanas, como os de Thomas, por exemplo. Entretanto, por mais paradoxal que pareça, minhas afinidades mais profundas de idéias são com os sociólogos alemães, principalmente Weber, Freyre, Simmel e Tonntes, e com os russos sem que siga exclusivamente qualquer deles. E nunca se esqueça de que procuro sempre basear meus estudos sociológicos nos de antropologia e historia. Principalmente nos de antropologia que foram o forte de meu curso de ciências sociais na universidade de Columbia. Boas, meu principal mestre naquela universidade, e como sabe, judeu alemão, e homem verdadeiramente de gênio, tinha um profundo desprezo pelo que vulgarmente passa por "sociologia". A atitude também de outro alemão, ou teuto-americano, Ruediger Bilden, que dentre os meus colegas naquela universidade, foi o que fez maior impressão sobre mim e que, por sua vez, confessa ter sob o estímulo de preocupações e trabalhos meus, se dedicado ao estudo da escravidão e das instituições patriarcais na América, em geral e no Brasil, em particular. A sociologia é na verdade, uma ciencia de nome muito desprestigiado pelos falsos profetas, pelos vulgarizadores superficiais e pelos improvizadores afoitos. E confesso que tenho um horror todo especial ao simplismo de idéias e métodos com que a maioria dos sociólogos norte-americanos se aproximam de complexos problemas sociológicos, pretendendo resolvê-los pela estatísticas e por outros abusos do método objetivo. No Estados Unidos e na Inglaterra minhas maiores afinidades e meu maior contacto repito que são com os antropologistas, filósofos sociais, geógrafos e historiadores e não com os sociólogos.

(Do O Jornal, Rio, de 11 de Abril de 1943).

APENDICE:

QUATRO ARTIGOS DE GILBERTO FREYRE

O Exemplo de Ibiapina

Ainda sob a impressão do livro que o sr. Celso Matriz acaba de dedicar à bôa figura cearense de padre e de educador que foi Ibiapina, leio a circular em que o capitão Severino Sombra - também cearense - convoca brasileiros "representativos na ciência, nas letras, no clero, no magistério, na administração pública, no comércio, na indústria, etc." para o esforço de "mobilização total da Nação", cuja necessidade julgo ter sido um dos primeiros a proclamar. A mobilização dos "recursos e valores de cultura que nos são característicos" ao lado da mobilização simplesmente militar, industrial, econômica, é idéia que defendo desde 1940. De modo que só posso aplaudir agora a iniciativa do capitão Severino Sombra, justificada nesta nítidas palavras: "A estratégia total de guerra moderna é... a conjugação das diferentes estratégias - militar, econômica, financeira, política, diplomática, intelectual, moral - que precisam ser estudadas, planejadas e bem conduzidas harmoniosamente. A envergadura da tarefa ultrapassa, pois, os limites profissionais dos militares para interessar a todos os homens de responsabilidade na vida nacional, seja qual for a sua modalidade de ação".

No momento em que nos preparamos para harmonizar valores e aproveitar energias que precisam de estar coordenados no interesse da nossa condição de povo mestiço com pretensões a livre, exemplos como o do padre Ibiapina - que sozinho, fundou e organizou vinte casa de caridade nos sertões do nordeste - se impõem aos brasileiros como grandes valores morais. Valores morais acima dos proprios recursos materiais julgados indispensaveis à defesa e ao aperfeiçoamento da nossa personalidade nacional.

Ibiapina foi realmente isto: uma enorme força moral a serviço da Igreja e do Brasil. Foi um Dom Bosco a quem só faltou maior espírito de cooperação da parte dos católicos e da parte dos brasileiros do seu tempo para a sua obra perpetuar-se numa organização semelhante à dos Salesianos voltada com especial ternura para a educação industrial da gente dos sertões. Organização que nos dias decisivos em que vamos nos empenhar em formidavel esforço de "mobilização total", nos faz uma falta tremenda.

Nunca o Brasil precisou tanto como hoje de padres que ao ideal universalista de católicos, à larga simpatia humana de cristãos, reunam, como Ibiapina reunia, a autenticidade de sua condição, do seu sentimento e das suas preocupações de brasileiros. Não que devemos desejar o catolicismo fragmentado em seitas tão numerosas quanto as repúblicas para o seu clero é a sua doutrina corresponderem mesquinha e burocraticamente a confiança dos nacionalismos exaltados de hoje. De modo nenhum.

Mas, por outro lado, o tempo é de não nos entregarmos a confianças absolutas sempre que se trate da educação do menino brasileiro, da sua formação moral e intelectual nas escolas, nos colegios, nas organizações de escotismo, tão faceis de se tornarem focos de anti-brasileirismo sob a orientação de falsos religiosos. De religiosos que sob os hábitos de "franciscanos", de "jesuitas", de "beneditinos", tragam o corpo misticamente grudado a camisas políticas, a votos de propaganda não da Fé uma vez entregue aos santos, mas de doutrinas ferozmente etnocêntricas: anti-cristãs e anti-brasileiras.

Conheço um Estado do Norte onde até o outro dia os escoteiros eram dirigidos por um religioso que nunca fez misterio do seu entusiasmo transoceanico pela patria de origem e pela mística de superioridade de raça que tem ali o seu Thibet.

Durante largos anos êsse nordico fantasiado de "beneditino" esteve à frente da formação moral e cívica de numeroso grupo de meninos e adolescentes brasileiros. Meninos e adolescentes brasileiros continuam, em varios Estados do Brasil, sob influencias iguais: de individuos fantasiados de "jesuitas", de "beneditinos", "franciscanos", de "professores de alemão", de "mestres" disso ou daquilo, mas devotos, quando não agentes, de doutrinas violentamente anti-brasileiras e anti-democráticas. Não exagero. Cada palavra que acaba de escrever baseia-se em conhecimento de atos que estão a pedir, nêsses Estados, providencias tão sérias e vigorosas como as que vêm sendo tomadas em Santa Catarina, no Estado do Rio, no Rio Grande do Sul, e ultimamente na Baía, Paraíba, Alagôas, São Paulo, Paraná.

Contra essas mistificações do ofício de missionário, do ministério cristão, do magistério público e particular, é que me parece oportuno opor o exemplo de Ibiapina. Do Ibiapina que fez questão de juntar ao nome de Maria um nome indígena; e que foi tão brasileiro na alma, na ação, nas idéias, quanto no nome de indio e no sangue de mestiço.

Não me venha com a página célebre de Carlos de Laet em defesa do frade estrangeiro. Em circunstancias normais, tudo que aí se diz é admiravelmente sensato e magnificamente cristão. Nem a Igreja de Cristo pode deixar balcanizar-se por odios de nação contra nação, de raça contra raça, de classe contra classe.

Mas numa época em que os odios políticos e os orgulhos de raça sobrepõem-se a tudo mais, quebrando até em religiosos a fidelidade aos ideais cristãos de fraternidade humana, os povos, como o brasileiro, cuja organização inteira descansa sôbre a mestiçagem, sôbre os direitos do preto, do indígena, do mestiço aos mesmos privilegios do branco, precisam estar vigilantes. Tão vigilantes como outrora Ibiapina, o cearense que foi ao mesmo tempo padre fiel à Igreja e brasileiro sinceramente preocupado com o futuro do Brasil.

(Artigo de Gilberto Freyre, publicado no O Jornal (Rio), de 9 de Junho de 1942 e que foi o pretexto para sua prisão pelas autoridades do Estado de Pernambuco).

O Padre Ibiapina e suas "Mães-sinhás"

Acabo de ler o livro que o escritor Celso Mariz escreveu sôbre o padre Ibiapina. É um livro que revela a brasileiro de hoje a capacidade de realização de um brasileiro extraordinário do século passado.

Sozinho e em luta áspera com obstáculos de toda a espécie, Ibiapina levantou nos sertões do Nordeste, entre mandacarús e chique-chiques, uma admiravel organização cristã de assistência social ao sertanejo, de educação doméstica e industrial da mulher do interior, de amparo a orfãos e a doentes, de combate ás sêcas e ao cangaceirismo, ás superstições e ás pestes. Que de tudo cuidou o bravo missionário, em quem as virtudes de cearense se aguçam em virtudes de santo, sem que nessa dificil sublimação se perdesse a capacidade prática de organizar, de administrar, de desenvolver industrias, virtudes tão caracteristicas dos homens do Ceará.

Noutro país cristão a obra do padre Ibiapina - suas bôas e santas "Casas de Caridade" - seriam hoje uma força organizada a serviço cristão dos sertões. Seria uma força organizada semelhante á dos Salesianos. Só a nossa imprevidencia de mestiços ainda indecisos e desconfiados dos nossos valores mais intimos deixaria desconjuntar-se a formidavel organização do padre cearense, notavel como obra indistintamente cristã e notavel com realização arrojadamente cristã de brasileiro. E como tal, impregnada do melhor e do mais saudavel dos brasileirismos.

Chega a nos comover o nome docemente brasileiro por que se tornaram conhecidas algumas superiores das comunidades religiosas fundadas por Ibiapina: Mães-Sinhás. E essas Mães-Sinhás davam ás casas de caridade um brando rumor de casas-grandes de familia, ensinando ás orfãnzinhas a cozinhar, a fiar, a tecer e tingir o algodão, a tratar de doentes, a plantar sementes em tempo certo, a fazer chapéu de palha e rêde, a lê, a escrever, a rezar, o Padre-Nosso, a cantar as ladainhas em bom português, sem trocar os rr pelos ll. Pois quasi todas as Mães-Sinhás eram senhoras de familias ilustres que, tocadas pelos apêlos e pelo exemplo do grande missionário se dedicavam ao serviço de Deus e do Próximo.

A própria arquitetura das casa de caridade tinha alguma coisa de arquitetura doméstica que lhes adoçava os frontões aos olhos das meninas e das moças confiadas aos cuidados das Mães-Sinhás; alguma coisa que as torna simpaticamente brasileiras aos olhos do observador que hoje, em viagem pelos sertões do Nordeste, ainda surpreende alguma de pé: alguma das que tiveram a felicidade de ser aproveitadas para colégio ou escola por algum bispo ou vigario mais esclarecido. Porque a maioria delas - eram dezoito ou vinte - não existe mais; esfacelaram-se sós e abandonadas; tornaram-se casarões malassombrados. E faz pena contrastarmos êsse abandono tristonho de hoje com o carinho vigilante de Ibiapina por todas as suas "casas". Por todas suas "casas brasileiras", espalhadas pelos sertões do Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco. Casas brasileiras de São José, que era o santo de todas. Brasileiras e, ao mesmo tempo, substancialmente cristãs.

Quando o apóstolo se delicia, numa de suas cartas agora publicadas pelo sr. Celso Mariz, com o zelo de certa Mãe-Sinhá que reformara e pintara de novo a casa sob o seu cuidado, não esquece de regosijar-se com as côres vivamente brasileiras, liricamente brasileiras, da pintura nova: "Não lhe esqueceu a bela côr amarela com bom azul na frente do edificio". Era cristão e era brasileiro, o bravo missionário fundador das "Casas de Caridade".

Não seria possivel restaurarmos hoje, com organização moderna, as velhas "casas de caridade", para que se reatasse a obra de cristianização dos sertões sem prejuizo de sua integridade brasileira, realizada por Ibiapina e por suas Mães-Sinhás - hoje que não podemos confiar senão desconfiando, em grande numero dos missionários estrangeiros, católicos e protestantes, espalhado pelo interior do Brasil?

(De "A Manhã", do Rio, de 6 de junho de 1943).

A Propósito de uma Caricatura

A Abadia dos Beneditinos do Rio de Janeiro é uma das sombras mais amigas que tenho encontrado na vida. Aí venho conhecendo, ha largos anos, letrados e, ao mesmo tempo, misticos, e artistas, artesãos, homens bons, com os quais é uma alegria conviver. Homens que juntam á religiosidade a erudição sem alarde ou o sentimento artistico sem preciosismo: e dentro dessa erudição ou desse sentimento, o gosto pelas tradições brasileiras e pelo estudo do nosso passado. Homens aos quais em tranquilamente confiaria a educação de um filho.

Quando ha pouco alguem que evidentemente não prima pelo escrupulo lembrou-se de me caricaturar em "anti-clerical" e até em "anti-beneditino", ocorreu-me fazer um balanço das minha afeições e idéias. Verifiquei que, sem ser de modo nenhum "catolico pratico", mas apenas sociologicamente catolico e essencialmente cristão, é consideravel o numero de coincidencias de pensamento e de sentimento que me aproximam do Cristianismo e da própria Igreja: a atitude em face do problema de raças, por exemplo. Consideravel tambem o numero de meus amigos, homens da Igreja. Homens ortodoxa e decisivamente da Igreja como o meu velho e sabio mestre na Universidade de Columbia, o professor Carlton Haves, que o Presidente Roosevelt enviou ha pouco para a Espanha como embaixador dos estados Unidos. Ou como o bem orientado humanista científico, tipo admiravel de mineiro autentico e de homem de bem que é Hamilton Nougueira. Ou como o jovem, lucido e bravo critico literario Alvaro Lins. Ou como Afranio Coutinho - critico igualmente corajoso, inteligencia compreensiva e a lealdade em pessoa. Ou, ainda, como esse esquivo provinciano a quem todos devemos um ensaio tão inteligente sobre Dom Vital: Luiz Cedro Carneiro Leão. Aos quais poderia juntar afetuosamente outros nomes. Inclusive nomes de padres e de frades; e no meio destes, frades estrangeiros meus conhecidos velhos.

Realmente um acatolico - e acatolico de tendencias nitidamente socialista que se conciliem britanicamente com as personalistas - terá tido tão poucos amigos fora da Igreja ou do cristianismo; nem tão poucas idéias contrarias á Igreja. E nas amizades desinteressadas, do mesmo modo que nas idéias mais intimas, nós nos revelamos melhor do que nas afirmações ou atos ostensivos, nos quais tantas vezes o homem engana aos outros e até a si proprio.

Os direitos do caricaturista não me parecem que sejam ilimitados. Por mais que a caricatura importe em deformação, o caricaturista fracasse quando pretende exagerar no caricaturado não as saliencias mas os traços mediocres. É o caso, agora, do caricaturista que da minha simples, limpida e franca condição de acatólico procura extrair efeitos impossiveis, apresentando-a como "anti-clericalismo". O motivo é só este: levantar-me eu contra aqueles cristão fingidos ou católicos desviados do Catolicismo, que revelando-se etnocentricos num país sem preconceitos de raça como o Brasil, atraiçoam o Cristo e atraiçoam o Brasil. Atraiçoam a Igreja e ao mesmo tempo a América de formação portuguesa.

Não, meu fino caricaturista: nem tudo se consegue com a caricatura. É uma arte diabólica: disto ninguem duvida. Uma arte muito digna daqueles que se gabam de suprir com a astucia o pouco ou nenhum viço da inteligencia nativa. Mas não consegue milagres.

Minha atitude para com o Cristianismo e a Igreja é nitida demais para permitir sucessos tão faceis de caricaturistas que nem á etica da caricatura conseguem ser fieis. Pois o alegre humorista que agora se agita contra mim dentro do seu dominó cheio de guisos, talvez ignore que há etica para o caricaturista. Pelo menos para o caricaturista conciencioso.

O que o caricaturista de Marim decerto não ignora é minha admiração e respeito por beneditinos - e religiosos de outras ordens - como o antigo abade de Olinda, dom Pedro Roeser. Ou como o abade atual do Rio de Janeiro. Estrangeiros conhecidos e respeitados por católicos do Norte e do Sul do Brasil pela sua integridade de cristãos e de homens, de religiosos e de educadores. Estrangeiros verdadeiramente cristãos que de modo nenhum se confundem com "os outros": os etnocentricos em vez de cristocentricos. Nem com os maus brasileiros.

Contra os etnocentricos, é que continuarei a escrever, fiel a ideas que resultam de estudos e de pesquisas em torno de problemas fundamentais de antropologia e do Brasil: e não de simples caprichos do momento. Fiel a essas idéias e com um pouco daquela independencia que a Igreja não recusa hoje aos seus Maritain e Bernanos.

Teria graça vermos triunfantes os que pretendem explorar ou dominar tão ilustre instituição tornando-a em paises onde o Estado é separado da Igreja, uma especie de papão das conciencias, com os acatólicos brasileiros de responsabilidade intelectual e cientifica privados de um direito que o Catolicismo cristã e sabiamente respeita hoje até nos seus adversarios.

(Do "O Jornal", Rio, de 15 de setembro de 1942).

Falsos Profetas

Os jornais brasileiros - menos os do Estado onde resido, o único do Brasil em que a censura à imprensa é feita por agentes da policia estadual e não pelos representantes do Departamento de Imprensa e Propaganda - veem revelando pormenores da vasta organização nazista e antibrasileira de "frades" alemães protegidos por "autoridades brasileiras" - o delegado de policia, o prefeito e varios outros funcionários de Cairú, todos integralistas da nefanda facção desse partido a serviço do nazismo germânico - ha anos em atividade no norte do Brasil. Um conjunto de evidencias contra as quais só se levantarão agora, para negá-las, os cínicos empenhados em atividades iguais às dos mesmos "frades" alemães e às dos mesmos nazintegralistas: apenas sob outros disfarces.

Entretanto, por ter denunciado essas manobras ainda a tempo de se ter evitado que vidas brasileiras se perdessem em navios nacionais torpedeados nas costas do Norte do Brasil e na proximidade de velhos conventos ocupados por frades estrangeiros, tive a honra de ser preso por "autoridades brasileiras", talvez da mesma especie das de Cairú manobradas pelo tal Frei Aleixo; e de passar dois dias honrosamente incomunicavel na imunda Casa de Detenção do Recife, depois de ter oferecido, auxiliado por meu pai, a resistencia física que nos foi possível oferecer a onze agentes de policia a serviço de "brasileiros" e de "autoridades" parece que do mesmo tipo das agora envolvidas nos fatos de Cairú. Fatos desassombradamente revelados ao país inteiro por autoridades federais e militares concientes do seu dever.

Vê-se que em 1940, em 41, em 42, eu não exagerava nem falava aereamente. Os fatos denunciados por mim eram e são concretíssimos, afetando a segurança do Brasil nas suas raizes, pondo em perigo a cultura, as tradições, a propria vida dos brasileiros. Entretanto, em vez de atenderem tais clamores, brasileiros, com a responsabilidade por aquela segurança e pela vida de patricios confiantes e ingenuos, requintaram-se em displicencia, tentaram caricaturar-me ou deformar-me em anticlerical e em anticatólico, pretenderam que minhas palavras de advertencia fossem "fantasias de literato", invenções de "comunista", manobras de individuo misterioso talvez a serviço dos Estados Unidos ou do "Intelligence Service" de Sua Majestade Britanica. Pois como se compreendia que fosse eu objeto de tantos convites de universidades norte-americanas, inglesas e de argentinas, e de jornais como La Nación e La Prensa?

Aí estão os fatos claros, límpidos, irrecusaveis, para mostrar de que lado estava a razão, a honestidade, a sincera identificação com os interesses e as tradições brasileiras. Podemos ser simplesmente dois loucos, o Bispo de Maura e eu. Duas criaturas sem juizo nem equilibrio. Dois insensatos. Dois donguixotes ridículos. Mas nessa questão de atividades antibrasileiras de alemães, italianos e outros estrangeiros fantasiados de "frades" franciscanos, de "monges" beneditinos, de "padres" da Companhia - e não apenas de "pastores" luteranos ou "missionarios" evangélicos - vê-se agora, diante das informações oficiais sobre o caso do Convento de Cairú, que os dois loucos é que primeiro falavam a verdade. Os dois loucos é que se anteciparam a bispos ilustres mas extremamente cautos, a jornalistas brilhantes mas excessivamente prudentes, a intelectuais eminentes, mas exageradamente sensatos, na defesa de interesses brasileiros, de tradições democráticas, de valores cristãos subterraneamente roidos por agentes nazistas ou fascistas, disfarçados em "frades" e até em "mestres" e "orientadores espirituais" de organizações chamadas de escoteiros. "Mestres" e "orientadores" ostensivamente protegidos por bachareletes que nunca estiveram à altura das responsabilidades pedagógicas que desempenham.

Houve quem pensasse, então, e talvez haja ainda quem suponha, que fatos dessa natureza nunca devem ser comentados nos jornais e revistas, para não se comprometer o prestigio da Igreja, do cristianismo e da religião, nem se maguar nenhum dos seus chefes, respeitaveis e bons. Mas o prestigio da verdadeira Igreja, do verdadeiro cristianismo, da verdadeira religião, está acima e muito acima, dos abusos e das mistificações dos falsos frades, dos falsos cristãos, dos falsos religiosos, dos falsos devotos de Cristo e da Virgem nas Congregações Marianas, patifes mais ou menos refinados que se servem das vestes sagradas e de gestos seráficos para fins rasteiramente políticos. Fins políticos que até os bebês sabem hoje ser anti-cristãos ao mesmo tempo que anti-brasileiros; anticatólicos ao mesmo tempo que antiamericanos. Pois nem os individuos supremamente cínicos ousam mais falar na conciliação de antagonismos que se repetem tão violenta ou cruamente como o Nazismo e o Cristianismo.

As atividades de "frades" como os de Cairú ou de falsos "monges" beneditinos como o que durante tantos anos orientou espiritualmente uma organização de escoteiros do Recife, oferecendo-lhes o exemplo da "juventude hitlerista", não comprometem o Cristianismo. Cedo ou tarde, desses falsos profetas desgrudam-se ou hábitos religiosos de que eles se servem como de fantasias de dia de carnaval. Todos vemos então que neles simplesmente se cumpre a palavra dos livros sagrados: são falsos profetas.

(Do O Jornal, (Rio), de 20 de Julho de 1943).



Fonte: FREYRE, Gilberto. Conversa com Gilberto Freyre: seguida por quatro artigos. Rio de Janeiro: [José Olympio], 1943. 35p.

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