Biblioteca Virtual Gilberto Freyre - voltar à página inicial
busca       galeria       mapa do site       softwares       créditos       e-mail

Assinatura de Gilberto Freyre
Opúsculos  



A IMPORTÂNCIA PARA O BRASIL DOS INSTITUTOS DE PESQUISA CIENTÍFICA


     Conferência proferida no Instituto
Joaquin Nabuco de Pesquisas
Sociais e publicada no boletim
Nº 6 da mesma instituição

Congratulo-me com o diretor dêste Instituto de Pesquisas Sociais, o Professor Mauro Mota, pela feliz e inteligente iniciativa dos cursos que hoje aqui se inauguram. êles visam principalmente isto: estabelecer um contacto mais vivo entre o Instituto Joaquim Nabuco e a mocidade do Recife, tão várias nas suas procedências - pois vem de Estados diversos e não apenas de Pernambuco - quanto incerta, vaga indecisa nas suas tendências, mal preparado como é hoje o adolescente brasileiro nos cursos secundários; desorientado como é, de ordinário, o seu espírito ao chegar à mocidade, e convencido, como quase sempre se mostra, de que não precisa torna-se aprendiz de velhos para fazer-se valer como mestre entre mestres.

E´ preciso que a mocidade do Recife saiba o que se faz atualmente nesta casa. êsse Instituto em grande parte é seu, isto é, dos moços interessados em estudos sociais. Especialmente daqueles que, não sendo de modo algum ricos, precisem de trabalhar não só para concluir os estudos secundários como para prosseguir nos superiores: problema considerado - no que se refere a rapazes pobres em face dos cursos secundários - de Maciel, no seu recente ensaio Problemas de ensino secundário. Pois há trabalhos - e são quase todos - incompatíveis com os estudos; e nunca a pobreza do estudante deve servir de justificativa às suas deficiências nos estudos e às suas ausências das aulas por ser uma pobreza que o obrigue a trabalhar em indústria ou no comércio ou jornal ou em rádio ou em repartição pública, deixando-lhe tempo apenas para os exames e para o cumprimento de outros ritos acadêmicos: um dêles a farsa que é, em tantos casos, a formatura ou o bacharelamento dêsses falsos românticos; dêsses moços pobres tão desprezíveis quanto os ricos ociosos, pelo caráter carnavalesco dos seus cursos chamados superiores.

E´ preciso que êste Instituto procure na mocidade das escolas superiores, e mesmo entre os concluintes dos cursos secundários, confuso Recife de hoje, vocações, que, com certeza existem, para os trabalhos de pesquisa social - pesquisas de campo, pesquisas em tôrno de assuntos rurais, pesquisas que concorram para o esclarecimento dos problemas do Norte agrário do Brasil - em vez de conservar-se apolíneo, acadêmico e distante da sua principal razão de ser ou do seu principal motivo de existir, sendo uma atividade - a de auxiliar de pesquisa - remunerada, é das que podem conciliar-se com os estudos superiores do indivíduo que nela fôr aproveitado.

Enquanto êste Instituto não iniciar trabalhos de pesquisas de campo, que ponham todos os seus pesquisadores em contacto sistemático com aqueles ásperos problemas - os especificamente agrários, da região - seu objetivo estará sendo apenas arranhado na crosta. A iniciativa dos cursos que hoje se inauguram, graças ao Professor Mauro Mota, não tem outro sentido senão o de instruir jovens do Norte do Brasil, estudantes em escolas superiores do Recife, em técnicas elementares ou básicas pesquisas de campo adaptadas à análise das condições de vida e de trabalho do homem agrário desta região. Assim instruidos, poderão êsses estudantes tornar-se auxiliares de pesquisas de um Instituto que foi creado, em grande parte, a fim de que a mocidade intelectual mais capaz do Norte do Brasil, concentrada em escolas superiores do Recife, tenha suas vocações para os estudos sociais aproveitadas, no início ainda dos seus universitários. Definidas tais vocações, poderão os jovens, nossos conterrâneos, que as revelem, juntar desde novos ao saber geral o especializado em suas formas mais concretas.

Já se vai felizmente desvanecendo a idéia de que, nos estudos sociais, os improvisos podem fazer as vêzes do saber especializado. Ou de que basta o indivíduo inteirar-se de uma das sub-especializações dêsse saber, para ser um perito em Ciências Sociais. Ou, ainda, a ilusão de, apenas pela leitura ou somente de oitiva, ser possível adquirir alguém, por mais angélica que seja sua memória ou por mais musical que seja seu ouvido, inteiro domínio sôbre qualquer dessas ciências.

A nenhum ramo de ciência moderna se aplicam com mais rigor que aos estudos sociais de caráter científico ou sistemático, as palavras de Camões sôbre a ciência da guerra do seu tempo. Alguns ingênuos pretendiam aprendê-la acadêmicamente. Camões denunciou-lhes o êrro. A verdadeira ciência da guerra aprendia-se vendo, tratando e pelejando, escreveu o autor de Os Lusíadas, depois de ter êle próprio visto a África e experimentado o Oriente e aí tratado com mouros, negros, pardos, amarelos e pelejado contra infiéis. Pelejas em que perdeu um dos seus olhos gulosos do que chamou " varia côr".

De Camões é, em língua portuguesa, a apologia mais incisiva do saber de " experiência feito". Do saber que o moço aprende do velho:

" Tomai saber só de experimentados que viram largos anos, largos mêses" .

A apologia, também, do saber especializado desde que:

.... " mais em particular o experto sabe" .

A apologia, ainda, dos gôvernos que se apoiam nessa espécie de saber, em vez de confiarem apenas na astúcia dos políticos ou na intuição dos príncipes. Pelo que, se o autor d´ Os Lusíadas nascesse hoje de novo com o mesmo ânimo com que nasceu no século XVI, talvez o centro de estudos que melhor correspondesse às tendências do seu espírito fôsse, dentro do mundo de língua portuguêsa, êste Instituto, a despeito de tôda a modéstia e de todos os defeitos de organização, ainda incompleta, desta casa.

O patrono dêste Instituto todos sabemos que foi um lúcido entusiasta não só da arte com da filosofia de Camões: um Camões que a mocidade brasileira de hoje infelizmente não lê senão para exercícios de gramáticas nos colégios. Uma das observações mais sagazes de Joaquim Nabuco sôbre os Lusiadas é a de ter o grande poeta, muito antes dos anglosaxões e dos alemães fazerem a apologia da Ação, da Energia, do Esfôrço criadores, exaltado no homem o ânimo de enfrentar asperezas, vencer obstáculos e correr perigos, para conseguir triunfos difíceis. Triunfos como os do português nas Áfricas e no Oriente. Ninguém, na verdade, mais desdenhoso do que Camões, dos homens de vida fácil e dos sábios apenas de gabinete ou sómente de academia. êle quis mais do que qualquer dos grandes com poetas da sua época o homem de estudo em contacto com a realidade e com a natureza; e suas palavras chegam aos ouvidos brasileiros de hoje animadas da mais vibrante atualidade. Continuamos a necessitar da filosofia de Camões no sentido de que o melhor saber é o feito de experiência. Ou o que se adquire " vendo, tratando, pelejando".

Já não somos - os brasileiros - tão bacharelescos como há trinta ou há quarenta anos. Mas de modo nenhum chegamos a nos desintoxicar de todo dos excessos de bacharelismo que faz ainda muito brasileiro conservar-se apenas teórico, abstrato, quando não sómente retórico e superficialmente acadêmico, no seu saber, por lhe parecer impróprio da sua condição de fidalgo intelectual lidar com os fatos mais crus, descer ás realidades mais ásperas, confundir-se com os operários, se é engenheiro, tratar com os rústicos, se é agrônomo; sujar-se de graxa, melar-se de terra, avermelhar-se de barro. Daí a primeira preocupação do bacharel brasileiro incumbido de qualquer trabalho de campo na ciência da sua especialização, ser, de ordinário, evitar essa rude tarefa ou passá-la subtilmente adiante, considerando-se de início superior a tais esforços, como outróra os médicos com relação à anatomia ou à dissecação de cadáveres.

Dos próprios professores, vários, entre nós, quase não ensinam: ensinam por êles os assistentes ou os auxiliares dos assistentes. De modo que não os alcança o reparo um tanto injusto de George Bernard Shaw: " Quem sabe fazer, faz; quem não sabe fazer, ensina" . para êles teria que se criar, dentro do humour de Shaw uma terceira categoria: a do doutor ou bacharel que não precisa sequer ensinar, em substituição ao não saber fazer, ao não saber criar, ao não saber escrever, bastando-lhe ou parecer que sabe, ou simular que não faz, simplesmente por não querer fazer. Tais aparências e simulações não têm sido de todo raras no Brasil. Contra elas, êste Instituto ou se impõe como uma das reações modestas porém incisivas em que comece a definir-se, em nosso país, um novo modo do homem de estudo concorrer para o esclarecimento dos problemas sociais de sua região e do seu tempo, ou a fundação, no Recife, dêste órgão fóra de portas do Ministério da Educação e Cultura, terá sido um sonho e sonho inteiramente vão.

Bem sei que, a despeito de andar um tanto degradada, entre nós, a atividade política, há quem se deixe seduzir pelas suas glórias como se nelas estivessem as honras máximas a que devesse aspirar nos nossos dias um brasileiro moço e de talento. Longe de mim pretender contribuir para afastar de semelhante atividade os jovens de decidida vocação para aquelas vida pública que se processa atualmente no Brasil através do jôgo eleitoral e do choque entre partidos. Há, porém, atividades tão dignas quanto a política, assim dependente de jôgo eleitoral, da inteligência e do gôsto de ação de brasileiros jovens e de espírito público.

Aliás sempre foi assim. Ninguém ignora os serviços prestados ao Brasil por homens apolíticos do saber ou do talento do jurisconsulto Teixeira de Freitas, do compositor Carlos Gomes, do médico Oswaldo Cruz, do engenheiro Pereira Passos, do diplomata-geógrafo Barão do Rio Branco, do africanologista Nina Rodrigues, do sanitarista Saturnino de Brito, do internaciolanista-historiador Oliveira Lima, do antropólogo Roquette Pinto, do mestre do Direito Clóvis Bevilacqua, do educador Abílio César Borges, do filólogo João Ribeiro, do psiquiatra Juliano Moreira, do inventor Alberto Santos Dumont, do engenheiro-escritor Euclides da Cunha, do cientista Vital Brasil, do engenheiro-geólogo Teodoro Sampaio, do jornalista José Carlos Rodrigues, do industrial Luis Tarquinio, do agrônomo Manoel Paulino Cavalcanti, do historiador-etnógrafo Capistrano de Abreu, do oficial do Exército e sertanista Cândido Rondon - homens que nunca deixaram dominar pela paixão da política partidária; ou que não ocuparam em tempo algum cargos de importância na administração senão por força da sua competência técnica ou do seu saber especializado. O caso, em nossos dias, de um Pontes de Miranda, de um Marcondes Ferraz, de um José Maria Whitaker, de um Prudente de Moraes Neto, de um Rodrigo Melo Franco de Andrade, de um Anísio Teixeira, de um César Lattes, de um Oscar Niemeyer, de um Lucio Costa, de um Carlos Drummond. De um Lucas Lopes, de um Villa-Lobos, de um Otávio Domingues, de um Sérgio Buarque, de um Roberto Campos, de um Romulo de Almeida.

Ainda no século XIX, escrevia Eça de Queiroz, no seu modo quase sempre exagerado de fixar a realidade, nada haver " mais ruidoso, e que mais vivamente se saracoteie com brilho de lantejoulas do que a Política". Por tôda Europa descobria êle, através do seu monóculo de grande caricaturista da sociedade e dos homens do seu tempo, multidões de " politiquetes e de politicões enflorados, emplumados, atordoadores, cacarejando imperialmente, de crista alta" . Entretanto - comentava Eça - duzentos anos depois de todo aquele esplendor dos políticos, o Chanceler de Ferro, como era denominado Bismarck, seria ferrugem, ao lado da glória sempre atual e da influência sempre atuante dos intelectuais e artistas europeus daqueles dias, criadores de obras por assim dizer eternas, de literatura, de filosofia, de ciência, de arte, de engenharia.

As épocas vividas por Eça vêm sendo, com efeito, recordadas menos por aqueles políticos apenas astutos do que por êsses outros homens de alta inteligência, de profundo saber e de supremo poder criador, alguns dos quais homens ao mesmo tempo de saber e de ação como, no próprio Portugal, Oliveira Martins, de acôrdo, em grande parte, com a profecia do autor d´ Os Maias, a França dos dias de Eça vem sendo lembrada menos pelo seu petulante Napoleão III e pelos presidentes da também terceira República, que pelos seus Flaubert, seus Taines, seus Renan, seus Pasteur, seus Claude Bernard, seus Degas, seus Debussy, seus Eiffel, seus Lesseps. A Grã-Bretanha, menos pela sua Rainha apenas adjetiva com relação à sua época e pelos seus Gladstone, seus Disraeli, seus Salisbury, que pelos seus Dickens, seus Brownings, seus Darwin, seus Spencer, seus Huxley, seus Newman, seus Pater, suas Florence Nightinhale: substantivos e verbos ainda hoje poderosos, fortes, atuantes. A Alemanha é outra que vem sendo recordada menos pelos seus Kaisers, seus pensadores, seus artistas. E o Portugal do fim do século XIX é hoje lembrado menos pelos seus reis, seus conselheiros, seus políticos, que pelos seus Anteros, seus Ramalhos, seus Oliveira Martins, seus Sabugosas, o próprio Eça.

Referi-me ao Barão do Rio Branco. Brasileiro dos maiores que têm servido o Brasil, êsse Barão do Rio Branco, cujo exemplo, como o do patrono dêste Instituto, como o de Ruy Barbosa, o de José Bonifácio, o de Teixeira de Freiras, o de Silvio Romero, o de Roquette Pinto, é o de uma inteligência que não confiar nunca na improvisação para enfrentar os problemas a que procurou dar solução. Dêle se pode dizer que fez escola, tornando o Itamaraty do seu tempo de Ministro das Relações Exteriores, verdadeiro centro de estudos brasileiros e americanos, para o qual procurou atrair, astúcias às vezes de Jesuita em busca de vocações para o serviço da Companhia, as melhores inteligências brasileiros capazes de, com êle, estudar problemas nacionais ligados a questões internacionais. Foi assim que atraiu para o serviço do Itamaraty - no qual já encontrou Oliveira Lima e Joaquim Nabuco - Euclides da Cunha, Rodrigo Octavio, Aluisio de Azevêdo, Graça Aranha, Dunshee de Abranches, Araújo Jorge, a quase todos confiando tarefas de pesquisa ou de estudo, de acôrdo com a competência ou a especialidade de cada um. Ainda hoje, quase meio século depois da ação desenvolvida pelo Barão do Rio Branco no Itamaraty, quem participa de conferências internacionais nota, da parte de entrangeiros, ser a diplomacia brasileira considerada por êles aparte das diplomacias sulamericanas; e isto por enxergarem nela a projeção da figura extraordinária de organizador de pesquisas e de atividades metodicamente diplomáticas que foi o segundo Rio Branco: homem de estudo e não apenas de Estado no seu modo de dirigir, orientar e sistematizar a política exterior do Brasil.

O Barão Rio Branco conseguiu, na verdade, formar no Brasil um grupo de internacionalistas que foram quase todos homens de estudo, isto é, especializados no estudo objetivo, do ponto de vista brasileiro, de problemas geográficos, jurídicos, políticos, de particular interêsse para o Brasil da sua época. Estudo diferente do acadêmico, do abstrato, do bacharelesco, em que por vêzes se esterilizavam os jovens brasileiros de então.

E´ pena que ao Ministério da Agricultura tenha faltado sempre, no nosso País, um Barão do Rio Branco, que permanecesse, na direção de tão importante Ministério, o tempo bastante para criar entre agrônomos brasileiros, o fervor, a mística, o desejo de servir à Nação, que o segundo Rio Branco soube e pôde criar no Itamaraty; êsse fervor, a consciência de que só se serve bem uma grande causa, estudando-se sistematicamente, através de um instituto ou de um centro de pesquisas, os problemas que ela envolve; estudando-se de perto e nas suas fontes tais problemas, com Euclides da Cunha, por incumbência do Barão, estudou as questões de limites do Brasil como o Peru; Gastão da Cunha, os problemas de relações de nosso País com o Paraguay; Joaquim Nabuco, a questão dos nossos limites com a Guiana Inglêsa. Antes de haver no Itamaraty um Instituto Rio Branco, como aquele em que hoje se preparam jovens brasileiros para a atividade diplomática, já o Itamaraty era quase um Instituto, quase uma casa de estudo, quase um reduto beneditino de saber político e de pesquisa histórico-geográfica; e êsse quase instituto, animado pela presença do próprio Barão, até o fim da vida um insaciável homem de estudo, um infatigável pesquisador, um incessante coordenador e orientador de estudos e de pesquisas.

Assim como ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro está associado, no Brasil, o mais antigo esforço de sistematização dos estudos de história nacional e pre-nacional do País, e ao Instituto de Geografia e Estatistica, a sistematização dos modernos estudos estatísticos e geográfico referentes ao complexo nacional; e ao Instituto de Manguinhos, o combate, também sistemático, às doenças chamadas tropicais que nos desprestigiavam aos olhos dos europeus; e ao Instituto de Butantan, a luta científica contra o ofidismo nas áreas rurais do País - a êste Instituto poderá vir um dia associar-se a iniciativa da sistematização, nesta parte tropical da América, de estudos e esforços sociais no sentido de dar-se caráter ecológico ao desenvolvimento de um moderna organização agrária no trópico, diferente não só na técnica agronômica como na estrutura social, das organizações dominantes nos países boreais e nas áreas temperadas.

O conceito lusotropical ou lusotropicológico, já hoje considerado válido, em seu aspecto teórico, em meios universitários e supra-universitários da Europa e dos Estrados Unidos, acolhido na nova edição de the Encyclopedia Americana, exposto na Revista História, do México, por solicitação do seu diretor, o eminente Silvio Zavala, e em The Listener, de Londres - tendo partido, sob a forma de conceito com pretensões a científico, do Recife, é natural que tenha no Recife um dos pontos principais de condensação e de sistematização. Em Portugal já o vem desenvolvendo, do ponto de vista da experiência étnica especificamente portuguesa na Africa e na Asia, um biólogo ilustre - o Dr. Almerindo Lessa; do ponto de vista própriamente ecológico, já lhe deu seu apoio autorizado o geógrafo Orlando Ribeiro; já o adotou o antropólogo Jorge Dias; já o acolheu o jurista Adriano Moreira; e agora começa a aplicá-lo à ecologia agrária do trópico lusitano, um agrônomo eminente em sua especialidade e mestre em assuntos de Economia Rural, convencido de precisarem os portugueses de hoje de dar " um conteúdo moderno ao seu modo de ser e agir em terras americanas, africanas e asiáticas": precisamente o método já caracterizado, no Brasil, como lusotropical e susceptível de ser sistematizado em ciência especial que se denomine Lusotropicologia. Refiro-me ao Professor Henrique de Barros e ao seu recente estudo " Lusotropicalismo agronômico", aparecido em Lisboa.

Aí escreve o Professor Henrique de Barros, do ponto de vista do Portugal europeu: " Conhecer os homens, conhecer a terra, conhecer as ligações profundas, simbióticas, do homem com a terra, eis o que é imprescindível. Imprescindível e urgente". E acrescenta com a sua já bem estabelecida autoridade em assuntos agronômicos: " Entre os usos indígenas que mais e melhor carecemos de entender figuram os que dizem respeito à cultura da terra. Só agora, talvez há não menos de duas dezenas de anos, o Europeu ou os seus descendentes começaram a aperceber-se dêste fato singular: que os seus conhecimentos de fazer agricultura nas regiões temperadas do globo não serviam para os trópicos..." Mais ainda: que a mera transplantação para terras tropicais da sua arte e da sua técnica " acaba quase sempre por ocasionar a depredação da fertilidade da terra, senão mesmo a irreversível esterilização". Admitem hoje os agrônomos europeus mais esclarecidos que os métodos indígenas de agricultura tropical, ainda que " fracamente produtivos" " se apoiavam na compreensão da Natureza, no entendimento de que, sob climas de tanta agressividade como são os dos trópicos, o equilíbrio do binômio solo-vegetação não pode ser destruido pelo homens, sem perigos incomensuráveis e tanto maiores quanto mais extensa, indiscriminada, rápida e brutal for essa destruição". E que a técnica ocidental tendo " certamente muito que ensinar aos cultivadores dos trópicos" tem também " a aprender dêles outro tanto ou talvez mais" . quanto mais não seja, " é indispensável que aprenda, e isto com urgência, aquilo que não deve fazer" .

E´ o que se evidencia do trabalho realizado em Timor por antigo aluno do Professor Barros e hoje seu colega, o agrônomo Helder Lains e Silva, de quem acaba de ser publicado o ensaio Timor e a Cultura do Café, editado pela Junta de Investigações do Ultramar e onde - destaca Mestre Henrique de Barros - ´transmite-se ao leitor a funda convicção do autor de que não há progresso agrícola possível nas zonas tropicais que se não apoie no estudo profundo das condições do equilíbrio biológico em que vivam a terra, as plantas, os animais e os homens, antes da intervenção perturbadora dos brancos" . Precisamente a tese que vem sendo defendida desde 1936 no Brasil e, particularmente no Recife, por aqueles que, partindo de uma Sociologia regional ou de uma Antropologia ecológica, desenvolveram recentemente o conceito luso-tropical para caracterizar um estilo simbiótico e transculturação ao mesmo tempo que de adaptação de europeu aos trópicos; e sôbre êsse conceito, o de uma lusotropicologia, para a sistematização de estudos dessa forma e dêsse processo bio-sociais de adaptação e de transculturação, em que a interpretação cultural e a miscegenação biológica têm cooperado de modo raro na história dos contactos inter-humanos e inter-culturais dessa espécie.

Se é certo, como pretende o Professor Henrique de Barros, que " Portugal necessita sem demora de um corpo bem preparado técnicamente de agrônomos tropicalistas", que juntem ao preparo técnico " o fervor pela unidade nacional que sómente na diversidade e pela diversidade pode manter-se triunfante", ( Diário de Lisboa, 30.1.57), essa necessidade experimenta-a também o Brasil de hoje e sôbre êsse fervor é que alcançará plenitude a idéia de uma comunidade lusotropical que inclua Portugal, o Brasil e as províncias portuguesas da África e do Oriente; e seja um tipo novo de federação apoiada em tradições e pendores comuns no sentido de uma interpretação de tal modo profunda da cultura ocidental e das tropicais e de povos brancos e de côr, que dessa interpenetração possa resultar, em antecipação a outros desenvolvimentos étnicos e culturais em regiões quentes, um terceiro estilo de cultura que seja também, uma nova forma de civilização tropical.

Ainda há pouco, em jornal de Lisboa - e daqui sugiro que no boletim do Instituto Joaquim Nabuco se crie um aseção do comentário a quanto se venha publicando em revistas e jornais portugueses, em particular, e estrangeiros, em geral, sôbre assuntos relacionados com o programa de estudos e atividades desta casa - um conhecedor de problemas lusoafricanos escrevia a propósito da industrialização da castanha do cajú: " A província constituida pelo nosso arquipélago de Cabo Verde pode constituir um grande centro de industrialização de castanha de caju. Gente sóbria e de grande capacidade de trabalho a quem as necessidades obrigam a emigrar e contribuir para o enriquecimento de outras regiões, indo trabalhar em territórios do pior clima e da maior hostilidade para o homem, podem os cabo-verdianos granjear o seu sustento em sua casa por intermédio da industrialização da castanha de caju, trabalhada no sistema que se usa no Indostão e na nossa própria India. A deslocação de alguns naturais de Goa, devidamente habilitados na indústria de descasque e envazilhamento da castanha de caju - como já defendemos para o que se poderá fazer em Moçambique, - servirá para em Cabo Verde se instalarem alguns monitores da indústria e esta vingar no arquipélago’. A Africa Portuguesa - a Guiné está muito próxima de Cabo Verde - forneceria a matéria-prima; Goa, a mão-de-obra especializada ou classificada; e Cabo Verde " a restante mão-de-obra com absoluta vantagem para a Nação e para o Ultramar português". Cabo Verde fica a caminho dos Estados Unidos da América do Norte, " país que é o maior consumidor da amêndoa da castanha de caju". O transporte da matéria-prima para Cabo Verde não oneraria, segundo êsse observador, o preço do produto fabricado, dado o atual sistema de comunicação da Africa Portuguesa - sobretudo a Guiné - com o arquipélago lusitano.

E´ assunto que não pode deixar de interessar o Brasil. Cabo Verde, próximo do Brasil quase tanto quanto da Africa Portuguesa, poderia ser também - uma vez aceita ou firmada a vantagem econômica do esquema Amparo Batista - o centro de industrialização da castanha dos cajueiros do Nordeste brasileiro. E juntos, o Brasil e Portugal, poderiam suprir de casdos ainda dominados por outros paises mais distantes tanhas de caju, tecnicamente bem preparadas, merca-que êstes dois, lusotropicais, dos mesmos mercados.

A favor de semelhante organização inter-regional, dentro da comunidade lusotropical, da indústria da castanha do cajú, salienta aquele tropicalista haver já na África Portuguesa ânimo ou ambiente favorável. Nas suas palavras: " Em Moçambique está a desenvolver-se, ultimamente, um movimento de compreensão e lusitanidade verdadeiramente feliz". A propósito do que recorda ter-se levantado ultimamente na imprensa daquela Província - de tôdas as províncias ultramarinas de Portugal, a que sofre maior impacto do imperialismo sulafricano, estritamente racista e por conseguinte anti-brasileiro - o problema da unidade lusitana " com um dos maiores e mais momentosos da vida nacional", focando-se nesse mesmo problema o da unidade nacional, o da próprio unidade Lusitana, como de importância máxima para o futuro da África e para o futuro " da gente lusitana espalhada pelo Mundo": " Na verdade, nos tempos que correm, os exemplos da união de paises e gentes de tôdas raças para continuarem a existir e poderem subsistir com um certo nível de vida e liberdade de pensamento, ou seja a defesa da civilização, impõem-nos profundos estudos da gente lusitana e dos territórios que lhe estão afetos. O Brasil e Portugal, com as províncias dêste último espalhadas pelas " sete partidas do Mundo", constituem um todo que pose, - desde que intimamente ligado, - manter em respeito certos apetites e inconfessáveis atitudes de pretensos defensores". E ainda: " Ninguém pode duvidar de que a gente lusitana, espalhada pelo Mundo, se estudar e resolver os problemas dentro duma base de interêsse comum e igualdade absoluta, bem como mútuo auxílio, pode marcar posição de relêvo no Mundo atual e futuro e lutar mais e melhor pelas liberdades e bem-estar de todos os lusitanos. Não podemos, pois, nós, portugueses do Ultramar, ignorar os problemas da Metrópole, e a esta, os do Ultramar. Nós estamos a ir mais longe. Dentro do campo atual em que Mundo se divide e agrupa, temos não só de conhecer os problemas das diversas províncias portuguesas, como os do Brasil, nação irmã e, mais do que irmã, hoje fundamental e declaradamente lusitana. Temos de fomentar e desenvolver todos os territórios portugueses ultramarinos e metropolitanos, aproximando-nos mais e mais da terra brasileira, de modo a que a lusitanidade seja tão forte que voltamos a fazer dos mares - sobretudo do Atlântico - um verdadeiro caminho lusíada".

Como se vê, franca adesão de homens de Moçambique, preocupados com problemas econômicos de sua região, ao lusotropicalismo: um lusotropicalismo de sabor já acentuadamente prática, isto é, visto por gente prática com olhos de quando o Presidente Juscelino Kubitschek declara, como há pouco declarou, vem vibrante e inteligente discurso, que os jovens brasileiros de hoje pertencem " a uma geração convocada para altos feitos e para testemunhar extraordinárias mudanças", tem os olhos voltados para problemas da importância dos que são aqui sugeridos: os mesmos que recentemente foram postos em relevo por um dos mais esclarecidos diplomatas dentre os que hoje servem o Itamaraty com seu talento, com sua mocidade e com seu espírito público. Refiro-me ao consul Adolfo Justo Bezerra de Menezes e ao seu livro O Brasil e o Mundo Asio-Africano. Livro que constitui valioso testemunho, camonianamente feito de experiência viva e de observação direta, a favor da tese lusotropicalista que é uma tese recifense.

Em suas páginas, toca o diplomata brasileiro em assunto que vem preocupando o Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais desde os seus primeiros dias: o de vivenda barata para o trópico rural. E escreve o Cônsul Bezerra de Menezes, de acôrdo, aliás, como a já antiga orientação dêste Instituto: " Quem sabe se, em vez de tentar fazer casa de tijolo e cimento para o sertanejo, a qual continua fora do seu alcance pecuniário, não seria melhor usar materiais e estilos adaptáveis às condições econômicas e climáticas brasileiras?". E continua: " O ideal seria que alguns professores do Instituto Joaquim Nabuco, do Recife, que parece ser o único grupo de investigadores que já cuidou dêsse problema com seriedade, pudesse vir à Indonésia estudar " in loco" as construções de bambu usadas principalmente em Java", das quais destaca as " grandes qualidades de higiene e durabilidade". Vê-se que entre as gente mais idônea da Escola Superior de Guerra, da Escola de Sociologia e Pesquisas, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, do Museu Paulista e do Museu Nacional, repercute a obra que vem sendo obscura mas honestamente iniciada pelos jovens pesquisadores do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais. Repercussão que se estende cada vez mais ao estrangeiro - aos meios cultos e idôneos, do estrangeiro - resultando essa repercussão em prestígio autêntico - e não fictício - para mais nobre depende grandemente, para sua projeção no mundo moderno, dos institutos de pesquisas que na verdade se dediquem a sua missão de análise de fatos, de esclarecimento de problemas, de interpretação de tendências, de reorientação de conduta de administradores, políticos, líderes industriais, agrários, operários.

Acontecimentos como a atual articulação, na Europa, de novo sistema de relações de nações progressivas européias com populações e regiões africanas - o sistema chamado Eurafrica - mostram não ser luxo, do ponto de vista da não só necessária, como urgente, reorientação da política brasileira a respeito das relações dentro do Brasil, das atividades industriais com as agrárias, a existência de um instituto com êste, creado em 1949 para a valorização entre nós, do homem agrário, da vida agrária, da economia agrária. E´ uma reorientação que se impõe no momento com urgência dramática ao nosso país, vítima e até martir da excessiva valorização das atividades industrias com prejuizo das agrárias. E´ preciso, porém, que essa reorientação se faça apoiada em estudos, em ciência, em análise e em interpretação idôneas da situação brasileira e de suas relações com a situação internacional; e não opondo-se a uma mística outra mística.

A articulação da Eurafrica já está tendo repercussão entre os homens práticos do Brasil. Com essa repercussão se torna mais clara a necessidade, entre nós, de um centro estudos de Ecologia, de Antropologia, de economia e de Sociologia agrárias como o Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais. " A única fonte capaz de manter as nossas correntes de exportação é sabidamente a agricultura, seguida da mineração: afirmar o contrário é demagogia e má fé". Quem acaba de o declarar em São Paulo é o Vice-Presidente da Sociedade Rural brasileira, o Sr. José Peres de oliveira, cujas expressões coincidem com as de memorável discurso no Senado da República, em tôrno da organização da Eurafrica, proferido pelo Senador Assis Chateaubriand.

Qual a causa do desequilibrio na economia brasileira? Responda aquele paulista ilustre, confirmando o que já se tem dito, tantas vêzes, neste Instituto: " ... a proteção desmedida a uma falsa indústria". São ainda palavras do Sr. Peres de Oliveira: " Em nome da industrialização, sacrificam-se a lavoura e o povo em geral. Atribui-se a grupos o direito de importar a dólares privilegiados os produtos que por êles aqui acabados são distribuidos aos consumidores á base de dólares de 300 ou 400 cruzeiros quando não mais" ... " Os produtos agrícolas sofrem tabelamentos de preços de tôda ordem - de que é exemplo maior o confisco cambial. E os artigos das indústrias produzidos com favores especiais, não têm limites de prêço. Se os beneficiários trabalhassem com lucros de 20 ou 25 por cento, no máximo, então seria razoável". E mais: " Poderiamos manter um ativo comércio com a Europa, vendendo-lhe os nossos tradicionais artigos da produção, no Brasil, é anti-econômica para a nação e para o povo, embora lucrativa para os que as fabricam, interrompendo as nossas compras de Europa e oferecendo aos europeus a preços elevados as nossa mercadorias da agricultura não podemos esperar outra coisa: a substituição dos produtos brasileiros pelos de outras fontes. No após-guerra, o Brasil foi empolgado pelos extremismos. Falamos em " necessidade de industrialização" e vamos ao extremo de tentar fabricar aqui tudo o que é produto industrial. Falamos em independência econômica nacional e nos extremos em desprezar o auxilio de capitais estrangeiros na exploração de nossas riquezas minerais, deixando-as no sub-solo para as gerações futuras. Do outro lado, supondo que o equilíbrio de nossa balança comercial deve ser obtido a custa do sacrificio da população, reduzimos as importações ( encarecendo os seus preços internamente), ao invés de elevarmos as nossa exportações para importarmos ainda mais. Evidentemente, não será protegendo " falsas indústrias", como bem assinalou o engenheiro Glycon de Paiva, ex-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico, que iremos aumentar a nossa pauta de produtos exportáveis". E ainda: " Atingimos a um ponto, com bem afirma o economista Roberto de Oliveira Campos, superintendente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e portanto figura de prol do govêrno federal, que o próprio movimento de industrialização nos custará, se não melhorarmos a base agrária em que a indústria deve necessariamente se alicerçar, um verdadeiro trabalho de reconstrução brasileira, com a perda dos anos que o Brasil vem gastando numa orientação errônea de sua política econômica".

E´ como centro de estudos orientadores ou reorientadores de homens de govêrno, de lideres industriais, agrários, comerciais, operários, religiosos, que existe o Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais. Sua função é orientar êsse lideres, não pretendendo impor, a quaisquer dêles, um programa rígido de ação, mas esclarecê-los através de pesquisas científicas realizadas com independência; e nunca sob encomenda, como é quase sempre o caso de investigações efetuadas em secções de estudos de todo dependentes de diretores apenas políticos de atividades oficiais. Nem sob a pressão de místicas ou de ideologias sectarias.

O Instituto de Pesquisa Sociais em que hoje se inauguram cursos de caráter para-universitários, destro de limites que são ainda modestos, não pretende ser escola de feitio convencionalmente acadêmico nem conceder títulos semelhantes aos de bacharel ou de doutor que as academias hoje tão liberalmente concedem entre nós. Sua maior aspiração sabemos que é tornar-se parte, embora humilde, do conjunto de bons institutos de pesquisas que vêm constituindo a mais autêntica expressão de capacidade brasileira de contribuir de modo efetivo para o desenvolvimento das ciências, da técnica, das artes e das letras no continente americano. Não sendo o Brasil conhecido fóra das suas fronteiras por nenhuma das suas universidades, nem os seus títulos universitários reconhecidos da Europa e da América Inglesa, é entretanto, estimado, nesses meio, pelo trabalho realizado por alguns dos seus institutos: pelo Itamaraty - por nós já recordado - do tempo de Barão do Rio Branco e hoje pelo Instituto Rio Branco; pelo antigo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, particularmente ligado ao nome de Dom Pedro II e hoje também, neste particular, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas; pelo Instituto de Manguinhos; pelo Instituto Butantan; por museus, que vistos de perto têm sido institutos de pesquisas científicas: o Nacional, o Goeldi, o Paulista, o Histórico, o Imperial, de Petrópolis. E, ainda, pela Casa Ruy Barbosa. Pela Associação Brasileira de Geógrafos. Pela Fundação Getulio Vargas. Pelo Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos. Pela Diretoria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Pela Fundação Larragoti. Pela secção de pesquisas históricas do Institutos do Açúcar e do Alcool. O que mostra que o mundo intelectual não se deixa impressionar pelas aparências mas é sensível à realidade; e julga as organizações de cultura pelos trabalhos que realizam. Daí o brasileiro, ausente do mapa da cultura moderna, no que respeita a universidades e a títulos universitários, estar nele presente por uns poucos institutos onde efetivamente se tem feito, entre nós, ciência, estudo, pesquisa honesta e limpa; onde homens de avental tem concorrido para o esclarecimento de problemas tropicais de interêsse largamente humano.

Talvez se deva o retardamento da fundação de universidades nesta parte da América ao fato de os primeiros educadores da juventude brasileira terem querido inverter aquela ordem: antes de haverem concorrido para que aqui se produzissem obras de ciência de algum interêsse ou de algum valor, além do retórico, trataram de procurar obter de Roma e de Lisboa o reconhecimento dos títulos de Bacharel e de Mestre em Artes concedidos parece que prematuramente pelos Jesuitas da Bahia aos seus melhores e talvez mais eloquentes alunos, em cerimônias de bacharelamento e de doutoramento iguais na pompa ás da Universidade de Evora: " musica de instrumentos e vozes, recitação de epigramas, disputas públicas", não faltando o anel de gráu, o capelo feito de estôjo de seda azul, tudo, diz um cronista, com " pompas extraordinárias".

O Brasil, ainda sem universidade, pretendeu desde o seu mais remoto período colonial ser reconhecido centro universitário da América, sôbre base precária: a de conceder gráus, com tôdas as pompas das cerimônias em vigor na Europa, sem que êles correspondessem téses ou dissertações ou experimentos - seria absurdo argumentar-se com o exemplo de um ou outro Vieira: homens de gênio - que verdadeiramente revelassem aos europeus de Roma e de Lisboa a capacidade brasileira para as formas mais altas de cultura.

E´ erro em que no País se vem insistindo, em alguns meios, num vão esforço de fazer-se respeitar o Brasil na Europa e nos Estados Unidos por aparências ou títulos universitários que, nos meios superiormente intelectuais do continente americano e dos Velhos Mundos por ninguém são verdadeiramente considerados ou respeitados.

Contra essa tendência é que têm operado a nosso favor institutos de pesquisas científicas, sob vários aspectos muito mais úteis ao Brasil e à valorização do homem, da terra e da cultura brasileira, dentro e fora do País, que tôdas as universidades, academias e faculdades brasileiras reunidas. Desses institutos é que o Joaquim Nabuco deve procurar seguir o exemplo ou a tradição.

Um Instituto que já alcançou, como o Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, repercussão internacional, deve resguardar-se da leviandade de atribuir títulos acadêmicos aos seus pesquisadores, à simples e fácil moda brasileira. Pois tais títulos são considerados, quase sempre, com algum humour, nos meios universitários da Europa e dos Estados Unidos; e de validade apenas nacional; ou objeto de cortesia sómente diplomática ou mundana para com seus portadores, quando em missões ou cargos oficiais ou oficiosos do seu país no estrangeiro. Para fins estritamente científicos ou superiormente culturais, são de ordinário rejeitados.

Neste particular - repita-se - o Brasil, antes de iludir-se com aparências, deve procurar fazer-se notar e quanto possível estimar ou respeitar, nos centros mundiais de estudos superiores, pelos trabalhos realizados em institutos científicos de pesquisas sistemáticas; ou por simples indivíduos com preparo ou orientação científica. E aumentar o número, hoje reduzidíssimo, dos seus César Lattes, através de esforços como os que vêm realizando no Recife pesquisadores já de renome, quando não internacional, nacional, nas suas diferentes especialidades, como o químico Oswaldo Lima, o físico-matemático Luis Freire, o etnógrafo Estevão Pinto, o botânico Chaves Batista, os agrônomos Renato Farias, Vasconcelos Sobrinho e Moacir de Brito, o engenheiro Antônio Baltar, o historiador Gonçalves de Melo, os críticos e historiadores Olivio Montenegro, Anibal Fernandes, Luis Delgado, Silvio Rabêlo, Amaro Quintas e Aderbal Jurema, os psiquiatras-antropólogos Renê Ribeiro e Gonçalves Fernandes, os médicos-cientistas Bezerra Coutinho, Nelson Chaves, Ruy João Marques, Luis Tavares, os pesquisadores de assuntos pedagógicos Anita Paes Barreto e Isnar de Moura, e os de assuntos geográficos, Mário Lacerda, Gilberto Osório, Mauro Mota, Hilton Sette, Manoel Correa, Tadeu Tocha.

Estão os institutos brasileiros onde se realizam trabalhos como no Recife os de Oswaldo Lima, Chaves Batista e Nelson Chaves, mais do que as universidades ou as academias, mesmo as tradicionais - merecedoras, aliás da melhor estima brasileira, pelos valores que nelas se concentram - em condições de poder atrair para o nosso País o aprêço daqueles centros mundiais de ciência. O que se verificou com César Lattes pode-se verificar com outros brasileiros jovens e honestos, homens de estudo, que se disponham a esforços ásperos de pesquisa criadora. Dêles é que principalmente depende a valorização do Brasil como país capaz de acompanhar, dentro da sua modéstia ou dos seus limites, as nações modernas onde se faz ciência da mais alta, através de investigações de que vêm resultando acréscimos valiosos ao saber.

Dêles é que principalmente depende a necessária retificação da idéia, não de todo exata, que envolve há anos de modo melancólicamente desfavorável o Brasil e os seus estudos acadêmicos: a idéia de serem êsses estudos, em grande parte, apenas decorativos; e simples pretextos para os graduados em primeiro gráu, em cursos apenas profissionais ou técnicos e sem trabalho algum de pesquisa original, logo se intitularem de doutores e pretenderem ser aceitos como mestre, á fôrça mágica de rubís e de outras pedras simbólicas. Aos brasileiros cabe reabilitar êsse pitoresco e bom brasileirismo - o dos anéis de gráu com pedras preciosas - deixando de pretender que êle corresponda á tentativa, repudiada pelo estrangeiro culto, de pleitear-se para todo diplomado em primeiro gráu, em escola apenas profissional, do País, o título de Doutor, dispensando-se o que para êsse gráu ou para o de Mestre se exige em todos os paises da Europa e nos Estados Unidos: a pesquisa ou a contribuição original para a Ciência. Contribuição sob a forma de tése, dissertação, ensaio, experimento ou seu equivalente. Ou sob o aspecto de obra notável, como foi, outróra, na especialização jurídica, a sistemática de Teixeira de Freitas e é hoje a de Mestre Pontes de Miranda. Como foi outróra, na especialização antropológica, o trabalho realizado por Nina Rodrigues, e recentemente, a atividade pesquisadora desenvolvida por Mestre Roquette Pinto.

Do Recife, ou Pernambuco, foi como se impuseram à atenção e à própria consagração da parte de especialistas estrangeiros, pesquisadores ou experimentadores da terra que aqui realizaram investigações ou experimentos na verdade merecedores de atenção e dígnos de consagração: o Morais que escreveu o primeiro dicionário da língua portuguêsa escrito por brasileiro; os juristas Tobias Barreto, Clóvis Beviláqua, Martins Júnior João Vieira - êste, dizem que o único brasileiro por quem indagou o italiano Enrico Ferri ao passar pelo Rio de Janeiro; o agricultor Manoel Cavalcanti que aqui desenvolveu o tipo de cana denominada Cavalcanti; o historiador José Higino, que nos arquivos da Holanda examinou os documentos relativos ao Brasil, fazendo dêles inventário sistemático para o Instituto Arqueológico; o historiador Oliveira Lima que, no Engenho Cachoeirinha, escreveu a obra prima intitulada Dom João VI no Brasil.

Aos trabalhos verdadeiramente notáveis, realizados não importa onde, não falta nunca o reconhecimento por parte dos centros especializados na ciência ou técnica que os mesmos trabalhos tenham concorrido para enriquecer ou renovar. Pode tardar êsse reconhecimento. Mas faltar, parece não faltar nunca. Cêdo ou tarde, não deixam os autores de pesquisas e de experimentos de valor, de ser consagrados: e dessa consagrados brilhos, às vezes de todo efêmeros, que prestigiam os intelectuais notáveis apenas pelas glórias oficiais; ou pelas honras acadêmicas; ou pelos triunfos oratórios conquistados por êles, Deus sabe às vêzes como, nos seus paises; e nos alheios, através de operações diplomáticas ou de propagandas politicas, de efeitos também curtos e superficiais. O caso do próprio triunfo oratório de Ruy Barbosa na Haia - tão efêmero, embora tão brilhante; e ao qual se veem avantajando, nos últimos decênios, pelo prestígio alcançado para as ciências políticas e jurídicas cultivadas no Brasil, a repercussão de esforços, bem menos ruidosos que o do esplêndido Ruy, do Sr. Raul Fernandes, em Genebra; e mais recentemente, a do Sr. Gilberto Amado, em comités jurídicos da Organização das Nações Unidas e a do Sr. Levi Carneiro, na Haia, no Tribunal Internacional de Juristas que tem ali a sua séde. Para o Recife - famoso por uma Academia de Direito na verdade gloriosa - os trabalhos jurídicos que vêm ultimamente atraindo a melhor atenção dos mestres do Rio de Janeiro, de São Paulo e até do estrangeiro, são os que se ajustam a essa tradição de estudos sérios, mas não acacianamente solenes. Os recentes estudos do Professor Pinto Ferreira e do Professor Lourival Vilanova e a recentíssima e admirável tese doutoral apresentada á Faculdade de Direito do Recife pelo jovem jurista-sociologo Cláudio Souto, " Da Inexistência Cientifico-conceitual do Direito Comparado", que sirvam de exemplo.

No esfôrço, já em comêço de articulação, do Brasil com Portugal e com as províncias portuguesas da Africa e do Oriente, para juntos formarem um federação de novo tipo - voltemos a êste ponto - está decerto uma missão digna das novas gerações tanto brasileiras como portuguesas. Missão digna desses moços numa época em que, entre a mocidade do Brasil, em grande parte, em consequência do declínio dos estudos secundários entre nós, tantos são os moços mal saidos da adolescência que caminham ás tontas para a vida viril, alguns se prestando passiva ou mecanicamente a servir de mignons de velhotes mais ou menos ratés em seu modo mais ou menos precário de ser intelectuais.

Precisamos, os brasileiros, nos tornar conscientes da nossa responsabilidade atual de meia-potência ou de meia-fôrça; e essa responsabilidade é inseparável da nossa situação de povo que, a despeito de lideres por vêzes incapazes, é hoje portador de um conjunto de valores que representam a principal civilização moderna em espaço tropical e sub-tropical. Mais do que á União Indiana - cuja população em grande parte se acha em fase ainda prenacional de existência - é ao Brasil que toca o papel de lider da modernização dos trópicos, sem prejuizo do que seja valor ou condição essencialmente tropical de vida: valor e condição a serem resguardados da própria mística de " produtividade" e de " eficiência" em que se extremam muitos dos progressistas do Ocidente. E´ também ao Brasil, - democracia étnica, - mais do que á União Indiana - ainda vítima de degradantes preconceitos de castas: degradantes da condição humana e degradantes da condição nacional - que principalmente cabe, no mundo de hoje, o papel de nação intermediária entre povos europeus e não-europeus. Entre povos brancos e povos de côr.

A consciência dessa missão brasileira me parece agudamente necessária aos que, no nosso País, se dediquem áqueles estudos sociais através dos quais se procure, como neste Instituto, com a valorização do homem nacional, em particular, a do homem tropical, tem de básico, isto é, o conjunto de suas relações com a terra, com a natureza, com o solo, com a região, com o clima quente, com o agricultor, lavrador, criador de gado. Sabemos não ser outro o programa do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais.

E´ um programa diante do qual ninguém pode conservar-se mesquinho ou diletante. êle exige de cada um dos pesquisadores ligados e êste Instituto o melhor de sua energia, do seu fervor, da sua inteligência, da sua capacidade de estudo, de sua disposição para a pesquisa de campo, do seu ânimo de cooperação. Pois é um programa que exige a conjugação de competências diversas e de especializações diferentes.

Ao Professor Mauro Mota cabe a tarefa de fazer que o grupo de pesquisadores aqui reunidos, de orquestra a afinar-se, passe a orquestra capaz de realizar o seu primeiro concerto, através de um trabalho de campo de que todos participem e para o qual cada um concorra com o seu saber especializado. Trabalho já planejado e programado. E´ para que na execução dêle os pesquisadores tenham a auxiliá-los jovens iniciados em modernas técnicas de pesquisa social, que hoje se inauguram os cursos organizados pelo Professor Mauro Mota, em proveito, ao mesmo tempo, do Instituto e da mocidade recifense. Para valorização, ao mesmo tempo, do Brasil e do trópico: valorização baseada na ciência, no estudo, na pesquisa ecológica e antropológica.

Em iniciativas como esta se reafirma, sob nova forma, a tradição do Recife, ainda há pouco, evocada pelo critico Alceu Amoroso Lima ( Tristão de Ataíde): a de ser a capital de Pernambuco para o Brasil um ponto de encontro do Sertão com o Mundo. A de ter sido o berço do "camoneanismo tropical ". O berço do " naturalismo no Brasil". A " ponta avançada da terra nova" a receber e a transmitir á nacionalidade brasileira " o espírito de universidade" . A cidade por cujas águas de rio tem entrado o Mundo e descido o Sertão formando êsse contraste uma " harmonia conquistada" pelos recifenses: pela sua elite e pelo seu povo.

Êste Instituto é uma elite a serviço de um povo; é, dentro do Recife, um ponto intenso de encontro do Mundo com o Sertão, com a Mata, com o Agreste agrários. E talvez venha a ser o centro de irradiação de um novo "ismo", porventura fecunda e valioso para todo o Brasil e par todos os povos tropicais.



Fonte: FREYRE, Gilberto. A Importância para o Brasil dos institutos de pesquisa científica. Recife: Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas, 1957. 34p.

Topo
Voltar Página inicial