JOSÉ DE ALENCAR
Um crítico e historiador literário português, desde jovem especializado no estudo das letras brasileiras, o Sr. josé Osório de Oliveira, já aplicou à literatura, em páginas sugestivas, o critério geral, por nós esboçado, de interpretação da cultura e da sociedade do Brasil: o critério de que essa cultura e essa sociedade se explicam principalmente como expressões ou resíduos de uma formação processada antes em tôrno da família patriarcal e escravocrata do que em volta do Estado, da Igreja ou do Indivíduo. Antes em volta de casasgrandes de engenho, de fazenda, de estância e de chácara do que de catedrais, palácios de govêrno e casas de senado ou de câmara.
Com efeito, literatura e arte refletiram e, até certo ponto, continuarn a refletir, no Brasil, condições e motivos de convivência principalmente de familia; e essa familia, a patriarcal e, por longo tempo, a escravocrata ou a desenvolvida à margern do sisterna escravocrata. Mesmo quando o artista ou o escritor brasileiro foi ou é um revoltado contra êsses motivos e essas condições de vida ou, pelo menos, um inconformado com a predominância delas sôbre o Brasil, com a pressão excessiva do poder patriarcal sôbre a mulher, o menino, o servo, com a possível deformação do indivíduo pela tutela da família ou pela mística de resultar a maior ou menor dignidade ou importância do homem, de sua origem, de sua situação ou do seu status como homem de família; mesmo em tais casos o familismo transparece da arte ou da literatura coloniais, do século XIX e até dos nossos dias, no Brasil, como a mais poderosa influência à base do que é mais dramático ou mais patético nessa literatura ou nessa arte. 0 revoltado dizem alguns psicólogos que nern sempre é menos influenciado pelas convenções ou pelo meio, objeto de sua revolta, que o homern docemente conformado com êsse meio e essas convenções. Exemplo disso é o fato de serem às vezes os anticlericais mais influênciados pelos padres, objeto do seu ódio constante, do que as beatas ou as pessoas devotadas quase inconscientemente ou só por hábito a êstes mesmos padres.
Aplicado ao romance brasileiro do século XIX - precisamente aquêle que atingiu com josé de Alencar uma de suas culminâncias - êsse critério familista, ao mesmo tempo sociológico e psicológico, de interpretação não pròpriamente literária, mas do fenômeno literário alongado do cultural e do social, parece esclarecer muito aspecto ainda obscuro do assunto; e com o auxílio de uma psicanálise moderada - isto é, de urna psicanálise à inglêsa - explicará talvez o paisagismo eloquente uma das constantes de Alencar - ern contraste com a quase ausência de paisagern no rornance de Machado de Assis: autor de quem chegou a dizer justa e espirituosamente Coelho Neto que sua arte dava a impressão de uma "casa sem quintal".
Com tais sugestões, não se pretende reduzir a crítica ou a história de uma literatura ou, dentro dessa literatura, a obra de urn escritor, a ramo de sociologia ou de psicologia social. De modo algum. Gênio e, obra literária de gênio pedem compreensão, interpretação e avaliação também literária; e não principalmente sociológica ou psicológica. Ainda há pouco, um critico inglês, o Professor David Daiches, reavivou em páginas lúcidas êsse critério de interpretação da obra literária -o principalmente literário; mas sem desprêzo pela sociologia ou pela psicologia que explique origens ou descubra raizes da obra ou do autor considerado.
Nestas notas em tôrno de um José de Alencar que foi, ao mesmo tempo, crítico social, renovador das letras e refornador da lingua literária do seu país - e não apenas literato convencional, muito menos beletrista de passo macio, conformado com o meio e satisfeito com as convenções literárias - o que se sugere é apenas o auxilio, que à interpretacão específica de uma literatura ou da obra ou da personalidade de um escritor de gênio ou simplesmente de talento criador ou renovador, pode trazer a interpretação sociológica e psicológica da cultura e do meio dentro, dos quais se tenha desenvolvido, nem sempre passivamente -às vêzes até à rebours -, o gênio desse escritor ou o espírito dessa literatura. Pois nem escritores nem literaturas se realizam no vácuo; ou num espaço sobrenaturalmente estético ou puramente literário que prescinda de todo do estudo da história como que natural - como diria o mestre dos mestres franceses de crítica literária --- dêsses escritores e, dessas literaturas.
E nenhuma história mais natural do homem ou de urna sociedade - que a de sua vida de família; e esta, em têrmos crus, é a história do seu sexo. 0 sexo, do individuo não apenas biológico mas social. Sexo, mais do que psicanaliticamente compreendido como, fôrça ou solicitação espalhada no corpo inteiro dêsse indivíduo social: da raiz dos seus cabelos, sensivel ao cafuné ou ao trinco voluptuoso por mão de mulata em cabeça de ioiô ou de iaiá, às pontas dos dedos dos pés aristocráticos, por sua vez vibráteis às comichões provocadas pela extração, às vêzes doce como uma carícia sexual, de bichos aí encravados; e não fôrça ou solicitação limitada aos orgãos genitais e, desejosa apenas de coito ou de cópula.
Quando a família dominante num meio é a patriarcal e, além de patriarcal, escravocrata, não só o sexo como o indivíduo quase inteiro se forma ou se deforma sob a influência familial. Suas mãos, se, são de filho de senhor, tendem a tornar-se duas mãos esquerdas; se são de filho de escravo, duas mãos direitas. Seus pés, se são de filho de senhor, tendem a tornar-se dois pés de moça, mesmo sendo agressivamente viril o resto do corpo; se são de filho de escravo, tendern a tornar-se brutalmente másculos, mesmo sendo pés de moça ou de mulher dengosa. 0 social deforma no indivíduo o, que é ou se supõe natural. Tudo no individuo nascido e crescido em meio patriarcal e escravocrata, é marcado ou.afetado pela sua situação de filho ou de homem de família. Pela sua origem: status da familia antes mesmo de nascer o indivíduo. Pela presença - ou pela ausência - do pai. Pela presença - ou pela ausência - da mãe. Pela posição do indivíduo na familia: livre ou escravo; senhoril ou servil; filho ou. filha; filho primeiro ou filho segundo; o último filho ou filho único. Pelas relações com os senhores ou com os servos, com. os parentes, com os estranhos, com os animais., com as árvores: as árvores próprias - da familia ou de quintal ou fazenda paterna - ou as da rua, da mata, do alheio. Tudo isso deixa-lhe marca. Tudo - desde o peito da mãe ou da mucama que o amamentou - Ihe abre ou Ihe aguça zonas de sensibilidade que, no caso do artista ou do escritor, explicam ou esclarecem - ao menos, em parte - o infantilismo de um Raul Pompéia, o erotismo de um Olavo Bilac, o marianismo de um Dom Vital, o donjuanismo de um Maciel Monteiro, o narcisismo de um joaquim Nabuco, o adolescentismo de um Euclides da Cunha, o necrofilismo de um Augusto dos Anjos, o germanismo antifrancês de um Tobias Barreto, o inconformismo de um Aleijadinho, o paisagismo de um josé de Alencar. Esclarecem o antimelanismo abertamente insatisfeito com a sua condição de mulato, de um Lima Barreto, por um lado, e o "arianismo" aristocràticamente superior a questões de raça em seu esfôrço de descoloração - descoloração protetora e mstificadora da própria pele - de um Machado, por outro lado: um Machado a fingir-se o tempo inteiro de branco fino; o tempo inteiro a bater janelas e a fechar portas côntra toda espécie de paisagem mais cruamente brasileira, fluminense ou carioca em suas cores vivas; contra todo arvoredo mais indiscretamente tropical que lhe recordasse sua meninice de rua e de morro, sua condição de filho de gente de côr, de filho de família plebéia, de descendente de escravo negro. Nada de paisagem, nada de côr, nada de árvore, nada de sol. E' dentro de casa - e casa, geralmente, grande, sobrado, geralmente, nobre - que Machado, nos seus rornances, procura se resguardar das cruezas da rua e da vista também crua dos morros plebeus. Dentro de casa, aristocratizado em personagens de que êle é quase sempre a eminência cinzenta, para não dizer parda, ficticiamente afidalgado por bigodes e barbas de ioiô branco, por lunetas de doutor de sobrado, por títulos de conselheiro do Império, é que êle se defende da memória de ter nascido mulato e quase em mucambo e de ter crescido menino de rua e quase moleque.
Reproduziu o brasileiro de Brás Cubas o caso famoso de Shakespeare. Também o inglês Shakespeare, tendo nascido plebeu, nos seus dramas, mais de urna vez - e através, ao que parece, do mesmo rnecanismo de dissimulação protetora que afasta Machado não só da paisagem, da rua, da praça (com mêdo, talves, de ver surgir o "morro" fatal a qualquer instante) como do Abolicionismo mais inflamado da época - revela-se desdenhoso da gente comum, das causas populares, dos ambientes plebeus. E, em parte sob a pressão da época unida à do temperamento, em parte por dissimulação do próprio status, é quase sempre um retratista de homens e mulheres nobres dentro de casas ou cenários igualmente nobres.
Do paisagismo agreste e corajosamente tropical no romance de José de Alencar, em contraste com a quase ausência de paisagern, de côr e de trópico em Machado - e na literatura brasileira ninguém mais se fechou às cruezas da paisagem tropical do que Machado, do mesmo modo que ninguém excedeu josé de Alencar no gôsto e na eloqüência de associar ao drama dos homens a exuberância de paisagens brasileiras - talvez se possa dar explicação, senão ortodoxamente psicanalítica, psicológica. Explicação que se junte à social, ou sociológica, para nos esclarecer a abundância de árvore, de mata, de queda dágua, de cascata, de selva, nas principais novelas do cearense, notáveis também pelo fato de nelas virem quase sempre destacadas as cabeleiras fartas das heroínas, numa como ostentação do vigor tropical de mulheres que fôssem expressão do viço maternal das selvas, das matas, das águas brasileiras.
Para os psicanalistas, os sonhos com paisagens e árvores ramalhudas têm, do mesmo modo que os sonhos) com máquinas complicadas, sentido ou significação sexual muito nítida. Dos discípulos modernos de Freud, alguns chegam a notar nos escritores pintores ou simplesmente homens de talento que insistern na descrição ou exaltação de paisagens - o caso brasileiro de Alencar, ao lado do universal, de Chateaubriand - e de máquinas - o caso brasileiro de Santos Dumont, ao lado do universal, de Wells - a revelação de traços ou experiências que tais escritores ou indivíduos de gênio ou talento criador, estimariam guardar exclusivamente para si. Nas árvores e nas máquinas êles se, refugiariam de decepções em amores ou emprêsas de recinto fechado, de interior de casa, de côrte ou cidade sofisticada.
0 paisagismo exuberante de josé de Alencar parece ter sido para o autor de 0 Tronco, do Ipê e Til precisamente o contrário do que a ausência de paisagern foi para Machado: refúgio contra tristezas, decepções e ressentimentos de vida de côrte,. de interior de casa nobre ou de sobrado de cidade. Em Alencar, porém há menos de sistemático - imensamente menos na preocupação de evitar o romancista, nos seus romances, a glorificação do interior das casas nobres de cidade para só exaltar a floresta, a mata, o arvoredo, o tejupar, do que em Machado no sentido contrário. Quando é preciso falar do interior das casas êle fala. Apenas não é sôbre móveis, porcelanas e tapêtes que se derrama o óleo de sua melhor eloqüência, mas sôbre árvores, águas, matas e relvas.
Alencar, todos sabern que sobressai, na literatura brasileira como paisagista e, ern certo sentido, como ruralista que chegasse a ter alguma coisa de um Thoreau em seu individualismo romântico. São suas páginas de paisagista as que esplendem nas antologias. São elas que, aprendidas de cor pelo brasileiro, na meninice de colégio antigo, contan aos ouvidos dos velhos com uma riqueza de sons que o tempo não consegue destruir. Riqueza de sons para os ouvidos e riqueza de côres para os olhos. Riqueza até de sabores para êsse como que paladar ou essa como que sensibilidade ao gôsto das palavras que faz que tantos de nós nos deliciemos - principalmente na adolescência -com certas combinações de vogais com consoantes como se essas combinações tivessem sabor ou encanto físico.
Acentui-se, porém, mais uma vez, que em Alencar o paisagista não exclui o retratista de interiores suburbana ou ruralmente patriarcais com janelas abertas e portas escancaradas para jardins, pomares, terreiros, senzalas, raramente, para ruas, pragas ou mercados.O retratista de índias ingênuamente nuas não exclui o pintor de iaiás sobrecarregadas de saias, de babados, de rendas finas, embora os ressentimentos que êle evidentemente guardava de convenções européias ou católicas de ortodoxia familial como que animassem em sua sensibilidade pendores para aquêle nudismo libertário. Ressentimentos que o fizeram buscar, ao que parece, refúgio ou compensação em florestas, em matas, em águas, em cascatas, em árvores; nos dominios meio fantásticos dos brasileiros, para êle autênticos, que eram os filhos das selvas; que eram os índios, filhos livres da natureza; filhos naturais do Brasil; bons e nobres selvagens, independentes das convenções de nobreza de brasão a cinco contos de réis o título, ou de moralidade rigidamente canônica das casas-grandes que dos sobrados. Iracema, Ubirajara, Ceci, Peri, Moacir foram figuras ideais de indígenas com quem êle se aliou contra os brasileiros convencionalmente sub-europeus. Aquêles ressentimentos parecern ter se manifestado, dissimuladamente, no drama Mãe, e a propósito de mãe escrava em relacão com filho natural, ainda mais que nos romances em que moças ofendidas em seu orgulho ou em sua dignidade de indivíduos ou pessoas - independente do prestígio dos pais ou da riqueza de suas famílias - se vingam de homens ávidos de dotes ou à procura de vantagens econômicas por meio de casamentos de conveniência; casamentos sôbre os quais, mais de uma vez, vencem, nas novelas de Alencar, os casamentos de amor.
Para Machado, quem dissesse amor, dízia - principalmente numa sociedade corno a patriarcal e escravocrata do Brasil, na sua fase de transição para a família romântica (deve-se acrescentar ao romancista filósofo) –"complicação". "Complicação do natural com o social". Complicação do natural com o social de que a causa às vêzes era a côr do homem apaixonado ou a sua condição de filho natural.
Foi Como josé de Alencar viu o amor no Brasil do seu tempo: como complicação do natural com o social. Ou mais românticamente do que Machado: como complicação do natural pelo social.
Seu paisagismo, seu naturismo, seu indianismo parecern representar todo êsse esfôrço socialmente crítico e românticamente reformador da sociedade e não apenas literàriamente romântico. Esfôrço só, não: na verdade, quase um sisterna no sentido de resolver o brasileiro as complicações do social, voltando ou regressando, quanto possível, ao natural; ou avançando para um social mais próximo do natural. No sentido de resolver o brasileiro as complicações acumuladas em tôrno do individuo, por um sistema de família considerado por alguns antinatural nos seus excessos, reintegrando-se no natural, ou no suposto natural, que era, senão, o desenvolvido no meio, da floresta, pelo índigena quase nu, o favorecido pela vizinhança da floresta, da mata, do arvoredo, entre brancos ou mestiços mais distantes das convenções de côrte ou de cidade. Puro romantismo literário, êsse paisagismo ou êsse parapaisagismo? Não: também crítica social. Critica indireta a todo um sisterna sócio-econômico: o patriarcal e escravocrata das casas-grandes e dos sobrados. Mas crítica sem rancor nem demagogia. Crítica messiânica na qual uma vez por outra transparece a indignação do homem superiormente Iúcido que na política do Império sofreu traições dos apagados e vis, sem ter deixado de ser, além de lúcido, independente nas suas atitudes e quixotesco nos seus rompantes. Urn Dom Quixote cearense com uma cabeça que lembrava a de frade rebelde, de Dom Vital, colada como por engano a um corpo de menino doente, de adolescente franzino, de estudante romântico. E não é à toa ou só por pitoresco que, a propósito de Alencar, lembramos Dom Vital: homens do mesmo ânimo, brasileiros da mesma região, româticos da mesma espécie, um empenhou-se em defender contra os abusos do paternalismo, então dominante no Brasil, a Santa Madre Igreja, outro, a para êle também santa e também mãe, Natureza brasileira.: inclusive a raca indígena que foi, na composição social do Brasil, raça principalmente maternal.
Romantismo socialmente critico - êsse, de Alencar - e até político, que se antecipou, a seu modo, na crítica ao sistema sócio-econômico e social em vigor, ao antipatriarcalismo às vêzes demagógico que se reflete nas páginas dos "realistas" do feitio de, Aluísio Azevedo; e aparece nas de Machado como pura e quase abstrata análise acadêmica. Sem nenhuma "intenção reformista", como inteligentemente acentua da crítica social de Machado o ensaista Astrojildo Pereira. Sem nenhuma ênfase messiânica. Sem nenhuma eloqüência revolucionária.
Eloqüência - e eloqüência revolucionária - não faltou a josé de Alencar nem como político nem como romancista ou escritor: só seu estilo foi quase uma revolução não em copo dágua parlamentar ou taça acadêmica mas que agitou as próprias águas transatlânticas das relações intelectuais do Brasil com Portugal. Eloqüência, a do autor de Iracema, antes de exaltação das árvores, dos rios, das paisagens, dos "verdes mares bravios", dos índios quase vegetais na sua natureza e, quase angélicos na sua nudez que de elogio dos homens encartolados ou das mulheres enluvadas da Côrte e das capitais.
A não ser quando queria exaltar em homens civilizados, seus heróis, e em mulheres civilizadas, suas heroínas, o natural, que conservavam no seu comportamento e sob seus modos e trajos elegantes, em contraste com o artificial, o postiço, o convencional do comportamento de outros homens e de outras mulheres que só tinham de elegante a aparência. Ou quando desejava valorizar o brasileiro, mesmo de cidade, que se conservasse no seu estado de graça americana ou de pureza nacional - inclusive a maneira mais doce, mais relassa e às vêzes mais agreste de falar português que a européia - em contraste com o brasileiro imitado do europeu: o brasileiro que essa imitação exagerada tornasse antinatural ou sofisticado. Ou suti-eurupeu, como diriamos hoje.
Daí o gôsto com que êsse revolucionário social, e não apenas literário, em simpatia até com o que êle próprio denomina "certa emancipação da mulher" de certos escrupulos da sociedade brasileira",descreve cenas de interior ao mesmo tempo patriarcal e maternal de casa-grande de fazenda fluminense. E' que ai a vida Ihe parecia decorrer brasileiramente, em contraste com o europeismo do interior de sobrados mais afrancesadamente burgueses. 0 prazer com que descreve velhas chácaras do Rio de Janeiro do seu tempo é igualmente expressivo do romantismo não só literário como social com que o cearense reagiu contra a descaracterização do Brasil rùsticamente agrário sob a excessiva influência da nova Europa burguesa, carbonífera e industrial.
De modo que precisamos de estar atentos a esta contradição em Alencar : o seu modernismo antipatriarcal nuns pontos -- inclusive o desejo de "certa emancipação da mulher" - e o seu tradicionalismo, noutros pontos: inclusive no gôsto pela figura castiçamente brasileira de sinhàzinha de casa-grande patriarcal. Nenhum tipo de mulher, dona de casa, parece ter sido mais atraente aos seus olhos que o produzido em certas fazendas e chácaras pela tradição ao mesmo tempo patriarcal e rural, maternal e agrária. Seu radicalismo de romântico estava em não desejar a relva brasileira abafada pelo chamado tapête europeu; nem a mulher deformada pela moda cortesã, nem o natural sacrificado ao artificial. Dai, numa de suas páginas, traçar a própria reabilitação do filho natural, tantas vêzes vítima do artificio social.
Em Diva, ao recordar "a casa do Sr. Duarte".. é como se exaltasse a resistência da paisagem tradicionalmente brasileira de arredor de cidade à sofisticação da natureza pela influência burguesamente européia, com jardins franceses: "a chácara coberta de arvoredo estendia-se pelas encostas até as pitorescas eminências de Santa Teresa". Vista "magnífica", a que se gozava da casa; sombras "deliciosas", as suas; ar puro, o que se respirava naquele alto. 0 arrabalde - nota o romancista quase esquecido de Diva para recordar a casa do Duarte - "era naquele tempo mais campo do que é hoje". E continua, num dos trechos mais expressivos do paisagismo ou do naturismo que nêle venho procurando salientar como um gôsto voluptuosamente cornpensador de desgostos experimentados ou sofridos em recinto, ou dentro de sistema, socialmente fechado: "Ainda a fouce exterminadora da civilização não esmoutara os bosques que revestiam os flancos da mantanha. A rua, êsse braço mil do centauro cidade, só anos depois espreguiçando pelas encostas, fisgou as garras nos cimos frondosos das colinas. Elas foram outrora, essas lindas colinas, a verde coroa da jovem Guanabara, hoje velha regateira, calva de suas matas, nua de seus prados". Mais "Límpidas correntes, que a sêde febril do gigante urbano ainda não estancara, rolavam trépidas pela escarpa, saltavam de cascata em cascata, e iam fugindo e garrulando conchegar-se nas alvas bacias debruadas de relva". E ainda: "paineiras ern flor", "bosques espêssos de bambus", "leques de palmeiras vibrados pelo vento". Ai - destacava o romancista depois de tôda uma página de exaltação de natureza tão maternal "nascera Emlia e se criara".
E em vez de deixar o leitor concluir ter sido Emília uma espécie de filha natural dêsse resto de mata braviamente brasileira, êle próprio se antecipa em informar dessas árvores, dessas cascatas, dessas colinas que foram "o molde da alma" da moça, formada antes ao contacto dessa alpestre natureza cheia de fragosidades e umbrosas espessuras" que sob a influência de pai e mãe convencionalmente burgueses. Até penetrar nesses restos de mata ramalhuda e deixar-se moldar por sua natureza ainda bravia, Emília fôra "como flor que se planta em vaso de porcelana e vegeta nos terraços". A mãe cuidava poder conservar assim aquela menina tímida e melindrosa: sempre dentro de casa, quando muito no terraço. Mas outra mãe - a natureza brasileira -- atraiu Emília ao seu seio. Tomou-a a si. Criou-a como filha: filha natural. 0 mato passou a não ter segrêdo para a menina. Sabia ela onde estava a melhor goiabeira, o cajueiro mais doce e o côco de indaiá", de que era "muito gulosa". Trepava nas árvores. Pendurava-se aos ramos. Saltava pelas ladeiras " as mais íngremes".
Diga-se de passagem que o modo brasileiro de Alencar escrever português - um estilo para a época, escandaloso, pelo que trazia de agrestemente antiacadêmico, para a lingua literária do Brasil - foi um tanto como, Emília, no seu modo de desgarrar-se das convenções paternarmente lusitanas ou européias para ganhar côres, formas e sons mais maternalmente brasileiros; ou mais naturais, mais nativos, mais tropicais. Em Alencar a lingua portuguêsa, sem se ter tornado a lingua de um grande escritor, como que adquiriu o que os biólogos chamam vigor híbrido: conservando-se portuguêsa, abrasileirou-se, ora arredondando-se em palavras mais do que latinamente doces, ora parecendo língua menos latina que bárbara com zz, yy e ww, vindos do grego, do tupi, do nagô e até do inglês. Pois em Alencar, brasileiro do Ceará casado com filha de inglês, ocorrem anglicismos, para a época ainda crus, como "doguezinho" e "paquête" e não apenas expressões inglêsas como o "away" de Byron gritado ao ouvido de urn cavalo para correr bern.
E' ainda Emília que desenvolve uma das filosofias mais brasileiras e antiburgueses que o paisagismo ou o naturismo romântico de Alencar lhe inspirou: a de que viver é gostar", esperdigar a existência como "uma riqueza que Deus dá para ser prodigalizada". Pois "os que só cuidam de preservá-la dos perigos, êsses são os piores avarentos". Filosofia antiburguesa que – seja dito, também de passagern - esboçamos um dia em conversa. com nosso amigo josé Olympio, pensando que esboçávamos idéia original a propósito de saúde: que a saúde era valor para ser gasto e não guardado como os avarentos guardam ouro. Até que um mestre de história literária nos advertiu: "Há qualquer coisa nesse sentido em Santo Thyrso". Mas relendo agora josé de Alencar, vemos que antes de nós e do próprio Santo Thyrso, quem se exprimiu mais ou menos no mesmo sentido romântico e antiburguês foi josé de Alencar.
No que foi coerente com seu romantismo urn tanto anárquico no bom como no mau sentido de revoltado indivíduo contra o excessivo poder das instituições ou das convenções sociais. Com seu naturismo sempre opôsto ao que fôsse excesso de ordenação, regu!arnentação ou artificialização da vida ou da natureza humana pela Família ou pelo Govêrno ou pela Igreja. Pois sendo a natureza mãe mais importante que o pai, do sistema patriarcal, era, também, mais generosa com os filhos; deixava-lhes mais liberdade para viverem; para gastarem a vida e para gastarem-se a si próprios. Para crescerem livres, em vez de constantemente preocupados em se resguardarem de perigos não só para os individuos como para a espécie. Inclusive a espécie social: a sagrada família patriarcal.
Não é raro em José de Alencar fazer o autor filosofia romântica, de revolta do indivíduo contra as instituições e convenções burguesas, sob a aparência de quem só fizesse romance ou escrevesse novela. Filosofia de campo e não de gabinete, a sua. Anárquica e de modo algum. acadêmica em sua forma. Filosofia provocada por observações de rua e não apenas pelas sugestões de livros estrangeiros.
Em Lucíola, é o bacharel em Direito que confessa, depois de ter ido à festa da Glória e visto ai, brasileiramente reunidas, "tôdas as raças, desde o caucasiano sem mescla até o africano puro ;tôdas as posições, desde as ilustrações da política, da fortuna ou do talento, até o proletário humilde e desconhecido; tôdas as profissões, desde o banqueiro até o mendigo; finalmente todos os tipos grotescos; da sociedade brasileira... roçando a sêda e a casimira pela baeta ou pelo algodão,misturando os perfumes delicados às impuras exalações, o fumo aromático do havana às acres baforadas do cigarro de palha", e conclui: E' uma festa filosófica essa festa da Glória! Aprendi mais naquela meia hora de observação do que nos cinco anos que acabava de esperdiçar em Olinda com urna prodigalidade verdadeiramente brasileira".
José de Alencar recorde-se ainda uma vez que, quando quer, descreve com precisão quase de miniaturista, nos seus romances de vida de côrte imperial ou de fazenda patriarcal, móveis e adornos do interior das casas - tapêtes, jacarandás, jarros, porcelanas, cortinas - e trajos e calçados de homens e mulheres elegantes. Principalmente de mulheres: vestidos, leques, jóias, chapéus, penteados, sapatos, sombrinhas. Em A Viuvinha deixa-nos ver Carolina num "alvo roupão de cambraia atacado por alamares de laços de fita côr de palha". Em Cinco Minutos, uma mulher prucurada e de repente entrevistada pelo herói da novela, não deixa de impressioná-lo pelo vestido: "Corri e apenas,tive tempo de perceber os folhos de urn vestido preto, envolto num largo burnous de sêda branca, que desapareceu ligeiramente na escada". E quando aparece de novo, é ainda com o rosto coberto por "um chapéuzinho de palha com um véu preto" que a mulher misteriosa se apresenta: através dêsse rnistério sua beleza apenas se faz adivinhar. Sua beleza natural se faz pressentir através do artifício: do véu e da sêda do vestido. êsse vestido, fixa-o o olhar do romancista, numa corno demonstração de saber enxergar encantos de vestuário burguês e não apenas de formas de corpo do mulher quase em estado de graça.
Mas em Luciola, pela bôca de um personagem central, exclama Alencar com exagêro romântico: "Não reparo na toilette das moças bonitas pela mesma razão por que não se repara na moldura de um belo quadro". Sem se esquecer da forma dos pés das mulheres e mesmo dos homens, para apenas lembrar-se de suas botinas de duraque ou de seus sapatos franceses, destaca principalmente, em. heróis e heroínas, característicos brasileiros de forma aristocrática de pé, ern oposição à burguesa ou plebèiamente européia:o famoso "pé de chumbo, calcanhar de frigideira" do portoguês de caricatura ou do mascate reinol. De um dos seus heróis - o de Senhora - anota que o pé não era pequeno; mas antes que se julgue que fõsse um pé burguêsmente abrutalhado, chato e feio, de mascate ou taverneiro, salienta que tinha "a palma estreita e o firme arqueado da forma aristocrática". 0 pé mameluco. 0 pé brasileiro.O pé parecido com o do ameríndio. De Aurélia -- heroína tipicamente alencariana - lembra "os opulentos cabelos": outro orgulho das brasileiras de outrora em face das européias de cabelo ralo ou raro e das africanas de cabelo encarapinhado Repita-se, para ficar bern acentuado êste traço de simboIogia sexual em Alencar, que em suas heroínas -- quase sempre brancas, indígenas ou tocadas de sangue indígena - os cabelos parecem ser uma como expressão de vigor e, ao mesmo tempo de maternalidade ou feminilidade, da natureza tropical que, das árvores, se derrarnasse pela nudez das sinhás quando naturalmente belas, brasileiramente bonitas. Os cabelos de Aurélia "borbotavam em cascatas sôbre as alvas espáduas bombeadas, com uma elegante simplicidade e garbo original que a arte não pode dar, ainda que o imite, e que só a própria natureza incute". Também dos cabelos de Carolina, em A Viuvinha, nos diz o romancista que erarn "longos"; e que se "espreguiçavam lânguidamente sôbre o colo aveludado como se sentissem o êxtase dêsse contacto lascivo". Fala-nos de outras cabeleiras, de outros pés, de outros encantos naturais e sensuais de forma de mulher brasileira que evidentemente considerava superiores a quantos artifícios as modas européias pudessern inventar. Seriam sempre artifícios incapazes de fazer nascer nas damas requintadas cabelos tão fartos como das iaiás simplesmente iaiás do Brasil; e reduzir em inglêsas; em francesas, em alemãs, a extensão dos pés, até ficarem do tamanho dos das sinhàzinhas.
Êsse é um dos pontos que Alencar mais, insiste nos seus romances de vida de côrte e vida de fazenda: a superioridade da beleza natural sôbre a criada ou inventada pela arte. Não só quanto a pessoas: também quanto a coisas. Os jardins franceses ou inglêses de cidade que aparecem nos seus romances não sobrepujarn em encanto os parques naturais que vêm do mato grosso até os fundos das quintas, dos sítios ou das chácaras patriarcais. São os enfeites dêsses jardins como os dos vestidos de mulher comprados nas lojas francêsas da Rua do Ouvidor: não conseguern mais do que acentuar a beleza ou o encanto natural das formas de corpo e de paisagem. As formas do corpo das brasileirinhas, que Alencar retrata em geral no verdor da vida e não no esplendor da idade: e dos trechos de natureza também adolescente e como que em formação que descreve, antecipando-se a Euclides nesse gôsto por"beauté du diable" nas formas das paisagens e não apenas das pessoas.
Em 0 Tronco do Ipê - romance caracterìsticamente de casa-grande aristocrática, com sinhás e mucamas, com ioiôs e negros velhos do tempo da escravidão, com barão, padre e até compadre - contrasta o romancista duas figuras brasileiras de meninas moça - Alice e Adélia com alguma coisa de "flor agreste, cheia de seiva, e habituada a se embalar ao sôpro da brisa ou a beber a luz esplêndida do sol". Adélia com "certo ar de languidez, que se nota nas flores dos jardins, assim como nas moças criadas sob a atmosfera enervadora da cidade".
Quem visse as duas meninas-informa o romancista corn aparente imparcialidade"acharia sem dú
vida mais bonita Adélia, porém gostaria muito mais de Alice". E´ que Alice representava criatura muito
mais natural do que Adélia; muito mais ern harmonia com a paisagem brasileira; muito mais à vontade no meio das árvores e das águas da fazenda.
Adélia nem mesmo em passeio pelo mato separava-se do seu "leque de aspas de marfim"; e seu pèzinho Alencar raramente se esquece dos pés das mulheres "calçado com uma botina de duraque", pisa "a relva ou as fôlhas com tanta delicadeza como se roçara pelo mais fino tapête". Sinhàzinha de sobrado, de casa atapetada, de salão afrancesado de côrte. Sinhàzinha excessivamente dengosa a cujo excesso de delicadeza cortesã o romancista opõe como seu ideal de mulher, como projeto em mulher de sua filosofia de homem identificado com a natureza ou com a paisagem brasileira como filho com sua mãe - a verdadeira Mãe - o desembaraço quase de menino, junto à graça já de mulher, de Alice: uma Alice cujo encanto pelas laranjas, pelos figos e abacates, pelas romãs e goiabas. pelos araçás e pelas uvas, pelas jaboticabas e pelas mangas do vasto pomar da casa-grande, não se conteta em ver tanta fruta gostosa pendurada nas árvores, à espera da mão servil do pajem que venha colhê-las para as fruteiras da mesa patriarcal. Ela própria quer trepar às Arvores e colhêr as frutas. E escandaliza as negras mais cortesãs: "Nhanhã, isto são modos? Tomara que sinhá saiba", exclama uma. Outra grita: "Onde já se viu uma menina trepar nas árvores? No Rio de Janeiro só quem faz isso é menina à-toa!" 0 pajern também intervém: "Eu tiro, nhanhã, diga o que quer, que eu tiro. Uma moça faceira tem seu pajem para servir a ela". E Adélia, tôda sinhá de côrte, repara: "Não trepe, Alice, não é bonito; estraga as mãos e pode romper seu vestido".
Diante do que, Alice se resigna a comer os frutos tirados pelo pajem: "muito menos gostosos" do que coIhidos por ela própria, comenta o romancista, interpretando emfàticamente o rompante natipatriarcal e antiburguês da filha do barão desejosa de se aproximar da natureza como filha que se aproximasse da mãe para sugar-lhe o leite ou tirar-lhe os frutos com as próprias mãos. Toma quase como advogado o partido da menina revoltada contra os excessos de feminilidade da criação antes cortesã que rùsticamente patriarcal de certas meninas sinhás, isto é, finas à moda burguesa embora ainda patriarcal. Contra os excessos de criação senhorial ou escravocrata que fazia de brancos de sobrado e mesmo de casa –grande figuras sobrenaturais a precisarem sempre dos pretos de senzala para se comunicarem com a natureza,com a paisagem, com as águas,com os animais.
Era precisamente o que fazia Adélia em face das árvoresl, das plantas e das frutas do pomar da fazenda: comunicava-se com elas através das escravas. O romancista surpereende Adélia num dêsses flagrantes de criatura exageradamente artificial : " Quando o pajem Martinho lhe trazia alguma goiaba ou figo ela, segurando-a na pontinha dos dedos enluvados, voltava-se para a mucama:
" _ Fará mal, Felícia?
" _Deixe ver, iaiá.
" _A Felícia tomava então a fruta, que cheirava e abria ao meio; comendo uma banda dava a outra a Adélia:
"_Pode comer, iaiá! Está muito gostosa".
E’ claro que ao indianista de Iracema e de O Guarani só podiam repugnar êsses excessos de sinhàzinha de salão. êsses exageros de menina afrancesada com mêdo de tudo que fôsse tropical. O que êle admirava eram as Alices e as Divas que – meninas um tanto meninos, brancas um tanto índias -, sendo de salão. eram também amigas da natureza,da paisagem,das árvores,das cascatas,das águas,dos animais.
Alencar faz de Alice um elogio em que se define, talvez melhor do que em qualquer outro dos seus romances,seu ideal de arte, de vida e de mulher brasileira . Uma arte, uma vida, um tipo de mulher que já se esboçavam, dentro do próprio sistema patriarcal de família rural, embora cuntrariadas suas expressões mais arrojadas por êsse mesmo sistema. Para Alencar, Alice, era "a menina brasileira, a moça criada no seio da família, desde muito cedo habituada à lida doméstica e preparada para ser uma perfeita dona de casa. A baronesa não se preocupara com a educação da filha; mas tal é a fôrça do costume que a moça achou nas tradições e hábitos da casa o molde onde se formou a sua atividade". E encantado com aspectos rurais do sistema patriarcal brasileiro – aquêles em que os excessos de poder do Pai ou Patriarca de casa-grande eram como que corrigidos ou atenuados pela influência das mães - a branca, a índia, a mestiça, a negra e, principalmente, a da Mãe Natureza - Alencar, ainda a propósito de sua querida Alice, repara do tipo de mulher das melhores casas grandes da época – isto é', a primeira metade do s6culo XIX - que "a civilização européia já tinha, é certo, polido êsse tipo nacional, mas não Ihe desvanecera a originalidade".
Fiel ao tipo nacional ou brasileiro, Alice juntava às prendas de sala as de dona de casa rural, entendida não só em doces como em galinhas, ovos, vacas de leite. Enquanto Adália "era o tipo, raro então e hoje muito comum, de certos costumes de importação; era a mocinha de maneiras arrebicadas à francesa, cuidando ùnicamente de modas e do toucador'.
Expandindo-se em crítico social, o romancista ao mesmo tempo que retrata, em Alice, as virtudes do sistema patriarcal brasileiro, quando favorecido pelo contacto com a "Mãe Natureza" mais do que com a "Mãe Preta", exalta na moça a revolta do* indivíduo desejoso de ser natural contra os abusos ou exageros do sisterna social. Principalmente aquêles exageros de artificialização da mulher ou do branco senhuril em pessoa quase separada da natureza, da paisagem ou do meio tropical pela mediação constante do escravo. Alice não crescera assim. Tornara-se querida tanto da pretalhada da senzala como do gado, das ovelhas, das.galinhas da fazenda. Crescera tão brasileiramente que, moça feita, seu Natal continuaria o de Menino Jesus e de presépio dos velhos tempos.
Nada de Natal "enluvado e perfumado Como um baile de Côrte", pensa ela, já sinhá-moça. E vai adiante: procura restaurar na festa tradicional de familia brasileira o que vinha caindo no esquecimento, sob a influência de Natais franceses ou inglêses. Procura restaurar o Natal de confraternização da casa-grande com o terreiro, e, por conseguinte, corn a natureza, com a paisagem, com o campo. 0 que provoca a indignação de Adélia: "prefiro dançar na sala, a machucar os pés no chão duro; assim como acho mais bonita uma ária italiana do que os tais descantes", diz a sub-europeizada Adéia. Alice, porem, não se dá por vencida: ."São gostos. 0 teu deve ser melhor do que o meu, pois vives na Côrte e eu sou apenas uma roceira, porém Mário, que veio de Paris, pensa comigo".
E' como se Alencar, através dessa Alice ao mesmo tempo tradicionalista e modernista, familista e individualista, tivesse se antecipado à tentativa de renovação da cultura brasileira sôbre base ao mesmo tempo modernista e tradicionalista que foi, em nossos dias. O Movimento Regionalista do Recife, ao' lado do mais grandioso Madernismo de São Paulo, do qual também uma ala se esforçou pela combinação daqueles contrários, Movimentos que tiveram, evidentemente, ern josé de Alencar um dos seus melhores precursores. Pois a verdade é que o autor de Til a quase todos nós, brasileiros que temos procurado reinterpretar o Brasil, nestes últimos trinta anos, influenciou dêste ou daquele modo. êle foi para alguns de nós uma espécie de avô distante: dêsses de quem certos jovens se sentern mais próximos do que dos próprios pais. Mário de Andrade, Roquette, Manuel Bandeira, Gastão Cruls, o próprio Oswaldo de Andrade de Pau Brasil, josé Américo de Almeida, josé Lins do Rego, Cassiano Ricardo, Rachel de Queiroz, estiveram, em seus esforços de renovação literária do Brasil, próximos dêsse um tanto esquecido avô intelectual, ao mesmo tempo que distanciados da geração imediatamente anterior à dêles de romancistas, poetas ou escritores. E Euclides da Cunha em mais de um sentido foi um continuador do autor de O Sertanejo, 0 Gaúcho, 0 Guarani, cuja influência parece tambérn ter sido considerável sôbre o "brasileirismo" de Silvio Romero, o sertanejismo de Taunay,o caboclismo de Inglês de Sousa.
Ao escrever, ainda adolescente, em língua inglêsa, a tese universitária sôbre a sociedade patriarcal brasileira no meado do século XIX, em que procuramos sugerir que o escravo no Brasil de então era tratado melhor pelo senhor rural que o operário de fábrica na Europa da mesma época, cremos ter, inconscientemente, seguido sugestões de um Alencar lido com entusiamo e até fervor na meninice. Tanto fervor que nos lembramos de Ter colhido então de suas páginas num caderno quase secreto de garatujas do menino de onze anos, palavras que tinham para nós qualquer coisa de puramente físico e pecaminosamente sensual no seu encanto. Qualquer coisa de fisicamente encantador para os olhos, para os ouvidos e, de algum modo, para o paladar de urn menino sensualmente literário; e não apenas para a sua verde imaginação ou inteligência. De algumas dessas palavras caracterìsticamente alencarianas, ainda hoje nos recordamos; e as mais sedutoras da nossa sensibilidade visual de menino desde os onze anos aliteratado e capaz, um tanto à maneira de Huysmans, de deixar de prestar atenção, num concêrto de grande pianista, à execução da música, fascinado pela apresentação tipográfica do programa do concêto, foram, mais do que aquelas em que as vogais se sucedem, doces e redondas, inundando-nos os ouvidos como um óleo e como que dissolvendo-se nêles - névoa, aura, níveo,as animadas por yy e vv, zz e uu, 11 e ff, ii e rr - effluvio, topazio, enflorar, refrangir, electrizar, alumbre, trescalar, aljofrar, fulgor, sylpho, hymeneu, laivo, nupcial, diaphano, zephyro, glycerina, acrysolar, fulvo, pulchro, pulchritude,ogival. Palavras - estas ultimas - que pareciam dançar no papel para deleite único, íntimo, secreto, dos olhos do menino a quem elas so apresentavam angulosa e verdemente moças, ao lado das redondas, gordas, maduras e às vêzes maternal e tenamente moles, como, a despeito do seu significado, ou de acôrdo com êle, magoa, gemma, mimo, gozo, colo, coxa, sinhá, mingau, maná. Pois de Alencar pode-se talvez dizer que sem ter propriamente feminilizado a lingua portuguêsa, ao abrasileirá-la, amaciou-a, quebrando nela excessos de "ãos" e durezas de pronornes sernpre autoritário e masculinamente colocados.
Mas voltemos à possível influência de Alencar sôbre aquela tese de adolescente com relacão a escravos no Brasil. Relendo agora -só agora - um 0 Tronco do Ipê, há quase quarenta anos abandonado, encontramos êste reparo pôsto pelo romancista na bôca de urn personagern de sua particular simpatia: "A miséria das classes pobres na Europa é tal, que ern comparação corn elas o escravo, do Brasil deve considerar-se abastado". Reparo que deveriamos ter citado naquela tese, ao lado de depoimentos de viajantes estrangeiros. Repare que provavelmente nos deixara marcado o inconsciente para defesa de idéia tão escandalosa para aquêles brasileiros, ao contrário dos ufanistas, habituados a um Brasil quase sempre atrasado com relação à Europa.
Crítico social do Brasil escravocrata e patriarcal do seu tempo, não era Alencar urn Maria-vai-com-as-outras que se deixasse dominar por uma sistemática oposição a tudo que fôsse patriarcal, escravocrata e quase feudal na sociedade brasileira de então para só enxergar belezas de organização social e encantos de cultura na Europa triunfalmente burguesa ou nos Estados Unidos igualmente burgueses nos seus modos nacionais de ser. Seu modernismo não era tanto que extinguisse nêle o equilibrio crítico e o fechasse a qualquer tradicionalismo; nem tampouco que o fizesse contentar-se com o burguesismo triunfante na Europa e na América inglêsa.
Pode ter sido a seu modo anglofilo. Discípulo de Sir Walter Scott. Couper talvez deva ser considerado seu exemplo de indianista, mais do que Chateaubriand, de eloqüência paisagistica. Mas conservou-se sempre de pés firmes sôbre o chão brasileiro. Não só o chão ideal das selvas, das matas, das florestas, do seu entusiasmo de naturista lírico ou de paisagista romântico para quern a paisagern fai evidentemente refúgio e compensação maternal de dissabores experimentados nos meios urbanos, no interior dos sobrados, nos recintos atapetados da Côrte: também o chão dos terreiros das casas-grandes de engenho, de fazenda, de estância. 0 barro, o massapê, a terra das fazendas e das chácaras nas quais parece ter sentido ainda mais do que Machado de Assis - um Machado quase irmão de Adélia no seu modo esquivo de pisar na terra sempre que descia de casa à rua ou da sala ao quintal, com cautelas de gato a atravessar chão molhado ou enlameado pela chuva do trópico - um acanchego ou uma intimidade brasileira que quase lhe fugia dos pés quando pisava os tapêtes dos palácios oficiais e das casas requintadamente burguesas da Côrte. Não que não soubesse pisar em tapête: sabia. Tomara chá e não apenas chocolate em pequeno. Mas o mundo de sua predileção sentimental era outro. Sua aspiração, ser escritor autônoma e telùricamente brasileiro: aspiração grandiosa em que o olhar clínico, e não apenas crítico, do Professor Olívio Montenegro enxergou megalomania. Para ser verdadeiramente telúrico e autônomo de fato, faltou a Alencar, além do ânimo cearense, nêle tão forte, potência artística: a potência de um artista verdadeiramente criador como Vila-Lobos na música. Alencar quis ser na literatura o que Vila-Lobos vem sendo na música. Não o conseguiu embora ainda hoje deva ser considerado o único romancista que superou no Brasil o calendário cristão, a história sagrada e a história clássica como fonte de inspiração para nomes de meninos. Por causa de Alencar o Brasil se encheu de Peris, de Iracemas, de Ubirajaras. E a verdade é que sua palavra às vêzes macia, outras vêzes agreste, permitiu-lhe comunicar a flama daquela aspiração a numerosos brasileiros, através de uma das influências mais largas e mais persistentes que já teve no Brasil um escritor leal à sua vocação e fiel à sua condição de intelectual independente. Independente de convenções e de governos, de academias e de institutos. Tanto que nenhum título se grudou ao seu nome: nem mesmo o de Conselheiro.
Santo Antônio de Apipucos (Recife), maio, 1951.
Fonte: FREYRE, Gilberto. José de Alencar. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Saúde, 1952. 32p.
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