MEU PAI
Quando Meu pai faleceu, no dia 12 de agôsto de 1961. na casa de sua filha Gasparina e do seu genro Paulo Costa, no Espinheiro, estando êle ainda insepulto, tracei nas primeiras fôlhas de papel que encontrei, umas palavras de quente recordação do amigo sem igual que nêle acabava de perder.
Tinha Alfredo Freyre, ao falecer, oitenta e seis, quase oitenta e sete anos. Mas até o fim dos seus dias de conservara admirável de lucidez, de " sense of humour" e de ternura humana. Admirável também do que não consigo denominar senão um tanto retòricamente estoicismo: escondendo dos filhos, dos netos, dos amigos, do próprio negro velho quase de sua idade – Manuel Santana – nascido ainda na escravidão e quase a vida inteira pessoa da nossa família e servo dedicado dos seus ioiôs – o pior das suas dores. Gracejando com uns e com outros. Sempre que possível, bebericando um pouco de uísque. Um dia antes de sua morte, dei-lhe de colher um pouco de licor escocês do melhor, que sempre amara, e segurando eu próprio um charuto – já não tinha fôrça alguma nas mãos – facilitei que fumasse um dos charutos baianos dos recebidos por nós, com freqüência, de amigos da Bahia : especialmente de Lauro Passos.
Reproduzidos vão nesta publicação comemorativa aquelas minhas palavras, publicadas dois ou três dias depois da morte de Alfredo Freyre, no Diário de Pernambuco. Acrescento-lhes novas e mais minuciosas recordações de Meu Pai, para atender a um pedido do hoje Prof. Lauro Oliveira, discípulo ilustre do velho Freyre na Faculdade de Direito e organizador da mesma publicação.
Impressionistas, em grande parte, são notas a que não falta alguma documentação. Ampliam aquêle primeiro artigo. Aparecendo no livro que resolveu dedicar à memória de Alfredo Freyre seu artigo e bom discípulo, o hoje mestre Lauro de Oliveira, valem como um testemunho de filho que foi também discípulo do Pai. Discípulo, colaborador, amigo .
Vasculhando velhos papéis de Meu Pai encontrei, entre seus poucos trabalhos publicados, um discurso, uma conferência, suas dissertações para a Faculdade de Direito do Recife. O discurso é de mocidade : proferido por êle em sessão fúnebre de loja maçônica do Recife em memória do falecimento de Manuel Gonçalves Agra. Alfredo Freyre foi a vida tôda muito amigo dos Agra: do velho e dos filhos do patriarca, especialmente Zeferino – todos êles maçons, embora nenhum dêles anti-clerical furioso. De Zeferino foi amigo fraternal. Amigo íntimo e compadre.
O discurso sôbre o velho Agra, tinha Alfredo Freyre ao proferí-lo, vinte e quatro anos. Publicou o Discurso, no ano de 1898, o" Pantheon das Artes", estabelecido à Rua Quinze de Novembro - isto é, à Rua do Imperador n. 69. Uma rua, a do Imperador, que seria, desde então, muito ligada à vida de Alfredo Freyre : aí era o Fôro, onde juiz o vi mais de uma vez presidir trabalhos, austero e litúrgico como um juiz inglês a quem faltasse apenas a peruca; aí ficava a Esquina do Lafaiete onde às vêzes, acompanhado por mim ou pelo filho mais velho, para conversar com amigos, ouvir anedotas e falar mal do Govêrno; aí era a Casa Agra, por êle tão frequentada e onde mais de uma vez levou-me a almoçar, entre caixões de defuntos guardados numas como imensas estantes, prontos para serem escolhidos por compradores às vêzes exigentes que insistiam num maior número de dourados que os de ataúdes em que sido acomodados vizinhos ou amigos.
Muito caracteristicamente, o então jovem Alfredo iniciaria sua oração sôbre o velho Agra citando Hor. L. 1, Od. XXIV:
Ergo... perpetuus sopor
Urget! Cui Pudor et Justitia Soror
Incorrupta Fides Mudaque Veritas
Quando illum inveniet parem!
O latinista a dar ao moço recém-iniciado na Maçonaria – que seguiria durante anos, sem prejuízo, em tempo algum, do seu teísmo e do seu cristianismo, apenas prejudicado por certo preconceito contra os Jesuítas – a marca da sua formação Católica, Apostólica, Romana. Muito romana, até. Lia em latim doutores da igreja, tendo Santo Agostinho se tornado o escritor Católico da sua predileção. Desde menino que aprendera a ajudar missa em latim e, como padrinho, em batizados, seu latim de igreja conservou-se até à velhice impecável. Tão bom quanto o outro : o velho permitiu reler, também até o fim da vida com o maior dos prazeres intelectuais, os clássicos do seu agrado : e auxiliar-me na tradução de autores outros, de obras escritas em latim, ligadas aos meus estudos, tendo a meu pedido traduzido alguns trechos de Barleus. Um dêsses trechos vêm publicado no livro comemorativo do 1. Centenário do Diário de Pernambuco .
Parece Ter se tornado Marçon por influência de Zeferino Agra; e por Ter, na faculdade de Direito, sofrido, ao lado de certa influência, menos direta do que indireta, de Tobias Barreto - chegou a estudar alemão com um Professor Roth – a de certo anti-clericalismo, especialmente a do anti –Jesuitismo, então em voga nos meios intelectuais recifenses. Foram essas as influências que o afastam da igreja, sem que se tivesse tornado um anti-Católico. Ao contrário : foi sempre amigo de bispos e abades – sobretudo dos versados em latim; e costumava proclamar-se admirador da Igreja, embora anti-clerical; das Fôrças Armadas brasileiras, embora anti-militarista; e da Monarquia, também brasileira, embora lhe repugnassem os monarquistas convencionais.
No seu discurso de jovem de vinte e quatro anos, publicou em 1898, dizia: " eu não tenho pejo de declarar solenemente que creio firmemente em alguma coisa além da matéria", repelindo qualquer " panteísmo repugnante e vil " e proclamando sua crença " na vida d’ além túmulo". Espiritualismo do mais puro e do mais cristão. Teísta e cristão era como desejava ser caracterizado, fora de qualquer compromisso de caráter sectário com esta ou aquela forma de organização religiosa, embora sempre admirador da Católica.
Quanto ao velho Agra, no seu discurso, elogia, principalmente, no brasileiro, para êle ilustre, de quem faz a apologia mais sincera, o " homem afeito fortuna, soubera educar os filhos. Pois a preocupação constante do velho Agra fôra servir aos amigos " sem o mínimo laivo de ostentação ". Tanto que " as honras que todos tanto procuram, mesmo a custa de dinheiro ", êle sempre as desprezara: " No tempo em que elas valiam alguma coisa e dignificavam recompensa do verdadeiro mérito, Manoel Gonçalves Agra recusara a comenda da Ordem da Rosa que pelo Govêrno Imperial lhe fôra concedida ". Diga-se de passagem que o Pai de Alfredo Freyre, sondado pelo seu amigo, Barão de Santo André, sôbre como receberia honra semelhante, recusara formalmente o título de barão com que os amigos pretendiam que o Imperador o agraciasse.
Para Alfredo Freyre o que valia no homem eram as qualidades que lhe dessem independência e lhe permitissem servir, assim independente, aos seus semelhantes mais fracos. Mas serví-los sem ostentação. Chegava no seu culto à independência e no seu pendor para defender os fracos dos abusos dos fortes, a ser quixotesco. A ter, até, certa consciência do seu quixotismo, que atribuia às suas origens espanholas. Isto o levou a, por amor a essas origens, restabelecer no "y" do seu Freyre o dos Freyre espanhóis, seus antepassados. No que seria seguido por todos os descendentes.
Interessante é o trecho do seu discurso de elogio ao velho Agra em que se refere à "hora extrema" do insigne cidadão do Recife: a hora em que " o homem passa em revista, com a mágoa de deixá-los, a sua espôsa, os seus filhos e os seus amigos", precisando de " uma consolação, um confôrto" que Agra parece não ter aceitado, de modo algum, de sacerdote Católico; mas que Alfredo Freyre aceitaria. Pois, embora não frequentasse igreja alguma, era amigo de vários sacerdotes Católicos como de vários pastores Protestantes. Pelo que não lhe foi difícil aceitar de um dêles, Frei Romeu Peréa, quando êste se apresentou para confortar o amigo moribundo, o consôlo Católico.
Em A Escola Primária, trabalho de Alfredo Freyre publicado em 1912, tendo por subtítulo " Conferência cívica realizada no Teatro Santa Izabel em 6 de março de 1912" e trazendo como indicação da casa impressora a tipografia a vapor de J. Agostinho Bezerra, estabelecida, como " o Pantheou ", à Rua do Imperador, é o educador que se revela. Tinha então trinta e oito anos. Era professor, além de juiz. Professor do Colégio Americano Gilreath. E já se definira nêle um entusiasmo, talvez um tanto ingênuo, dos métodos anglo-americanos de educação que importavam na idéia de representarem êsses métodos, em grande parte, a superioridade da concepção Protestante de ensino sôbre a Católica. O que não significa que tenha de tornado nessa, ou em qualquer época, adepto do Protestantismo. De modo algum.
Nem isso nem descrente nas virtudes e nas possibilidades da raça ou da cultura latina. Ao contrário: em A Escola Primária proclamava Alfredo Freyre – a conferência fôra proferida no histórico Teatro Santa Izabel, sob a presidência do então Governador do Estado de Pernambuco, que era o General Dantas Barreto, - não estar a raça latina" condenada, como orgulhosa e pedantemente afirmam alguns". Apenas ela estaria faltando "à sua missão nobre e elevada" pelo fato de vir sendo " mal dirigida, mal educada". A vantagem dos anglo saxões era, nos tempos modernos, a de serem bem dirigidos e bem educados para a época. Os anglo-saxões vinham triunfando pelo " self-control" e pelo " self-support" que lhes dava a capacidade de saberem dirigir-se, certo como era que, desde a infância, a escola, através de professores idôneos e de ambientes adequados, preparava o indivíduo para ser homem não só livre como responsável. E desenvolvendo idéias, algumas estimuladas nêle pelo seu amigo inglês e Anglicano Mr. Williams, - professor particular de Inglês e de Desenho que salvara um dos seus filhos da condição melancólica de aparente retardo mental, reabilitando-o, - Alfredo Freyre batia-se pela organização, no Brasil, de um sistema de ensino em que " a geografia fôsse uma manipulação, a literatura escolar uma manipulação, maxime se a associarmos ìntimamente com o desenho e a modelagem. Os trabalhos manuais são exercícios de resistência moral. Todo o ensino deve aliar o esfôrço físico muscular à assimilação de idéias. Libertado o pensamento e o sentimento de tôda a tutela pela redução gradual do papel do professor, mais nítida aparecerá a responsabilidade do aluno". Para Alfredo Freyre " o progresso espantoso da república norte-americana" era devido " ao método das suas escolas, cuja substância é aprender agindo ". Na pregação de tais idéias é justo salientar-se que precedeu ao Professor A. Carneiro Leão –aliás seu amigo – e a outros americanistas.
Precursor também de renovadores do ensino no Brasil foi Alfredo Freyre – e o seu A Escola Primária é disto testemunho – na importância atribuída a áreas para recreio de alunos de escolas primárias e secundárias. Chegou a considerar o assunto com critério já mais sociológico do que pedagógico. Critério no qual é evidente ter o filho inconcientemente se inspirado quando, em curso, pioneiro no Brasil – por mais que certos historiadores brasileiros de Sociologia pretendam encobrir o fato – de Sociologia moderna acompanhada de pesquisa de campo, procurou, em 1928, estudar o problema, no Recife, de áreas de recreio para crianças, agravado pelo desaparecimento de sítios em certas zonas e de quintais, noutras, com a crescente ocupação urbano por edifícios comerciais e por novos tipos de residências. Em 1912 já observava Alfredo Freyre em A Escola Primária: As crianças pobres – e estas constituem a maioria – só dispõem da rua para brincar; suas casas na generalidade não têm as acomodações indispensáveis e muito menos área para jogos. Mas a rua é precisamente o lugar onde a criança não deve permanecer". Recorde-se de passagem que da pesquisa sociológica de 1928 em tôrno do assunto, resultou ter sido o Recife a primeira cidade brasileira a iniciar um sistema de playgrounds , infelizmente abandonado, como luxo ou gôsto inútil, pelos triunfadores, em certos pontos, tão curtos de idéas, de 1930. E justo é atribuir se a inspiração dessa idéia a Alfredo Freyre e a sua conferência de 1912 no Teatro Santa Isabel: uma conferência cívica digna de ser situada ao lado das de Joaquim Nabuco e dos versos igualmente cívicos de Castro Alves e Tobias Barreto, proferidos no mesmo e glorioso Teatro. Situado ao lado dêles, não – é claro, - pelas virtudes literárias, mas pelo que nela se encontra de inovador, de renovador, de pioneiro, com referência à reorientação do povo brasileiro e da sua reeducação para povo, além de livre, responsável.
Nessa conferência Alfredo Freyre bate-se também por idéias então quase fantásticas. Pelo ensino prático e intuitivo. Pela fundação de grupos escolares na capital e na sede dos municípios de Pernambuco. Pelo limite de alunos para cada classe a quarenta, no máximo. Pela construção de edifícios escolares com áreas suficientes para recreio dos alunos. Pelos trabalhos manuais por todos os alunos. Por melhores livros escolares. Por exercícios fora da escola e visitas a fábricas, "guiados os alunos pelos mestres que lhes completarão o ensino pela observação ". Pelo contrato de professôres estrangeiros para certas matérias. Pelas reuniões frequentes do professorado para troca de idéias, sugestões, discussão " de quanto possa interessar ao ensino" . Pela criação de uma revista de educação. Pela " fundação e uma sociedade tendo por fim o desenvolvimento da escola e tratar das questões relativas ao ensino ". Sugestões, para a época, revolucionária. Renovadoras. Pioneiras.
E revelando-se o brasileiro fiel a Pernambuco que sempre foi – um Pernambuco por amor do qual recusou ofertas que lhe vieram tanto do Rio como de São Paulo – perguntava Alfredo Freyre em sua conferência de 6 de março de 1912 no Teatro Santa Isabel : " E por que não seremos nós, os pernambucanos, os iniciadores de um movimento de revificação?" Isto é, de " revificação do ensino no Brasil"? São Paulo, é certo, em 1980, já confiará a direção de uma escola modêlo a Miss Browne, americana, sendo essa escola considerada " a instituição matriz onde se lançaram os fundamentos do moderno regimen educativo desde então em vigor entre os paulistas". Mas só em São Paulo: Estado rico. A Alfredo Freyre é evidente que parecia, em 1912, dever sistema semelhante estender-se ao Brasil menos rico, partindo de Pernambuco, com a introdução, aqui, de métodos não só anglo-americanos como alemães e suecos: métodos que em Pernambuco sofressem "umas tantas modificações", sendo "escolhido um plano definitivo de adaptação (ao Brasil) sòmente depois da necessária experiência" . Outra vez o critério objetivamente sociológico a orientar o sonho do educador empenhado em concorrer, pela educação de um nôvo tipo, para a "revificação social" do seu País. Uma revificação que atingisse o operário fazendo dêle" um operário instruído" e extinguindo-se, através dos trabalhos manuais, nas escolas a que fôssem obrigados todos os alunos, "o prejuízo, entre nós existente contra o trabalho manual’. No Estados Unidos, segundo Alfredo Freyre em 1912, - ponto em que se exagerava um tanto – atrás " se todo americano" se encontrava um operário, isto é, um homem "capaz de produzir e realizar", fora das convenções de conferir o diploma acadêmico ao diplomado " nobreza intelectual".
Querendo que a escola, tal como êle a idealizava, alcançasse o operário, Alfredo Freyre pretendia que ela fôsse gratuita; que os livros e demais objetos escolares fôssem fornecidos a todos os alunos; que não houvesse entre ricos e pobres distinção que resultasse do suprimento de livro sòmente aos que os solicitassem " por penosa e humilhante declaração de indigência". Além do que, parecia-lhe essencial ao brasileiro, nos estudos secundários, um bom conhecimento das línguas modernas – a inglêsa, a francesa e, se possível, a alemã e ao brasileiro que fôsse prolongar os estudos secundários nos superiores, o conhecimento do inglês ou do francês literário. Quando meu irmão e eu, ainda meninos, fizera-nos tomar lições particulares de inglês com o Inglês Mr. Williams. Adolescente, foi em parte por estímulo de sua parte que me tornei discípulo de francês literário, da boa Mme. Meunier; e, ao mesmo tempo de grego, do Professor W. Taylor. Pois nele o modernista nunca abafou o humanista voltado para os clássicos.
" Não hesitemos em contratar fora do país pessoal habilitado para temporàriamente fazer o trabalho que nós, os naturais, não podemos fazer", proclamava Alfredo Freyre em seu manifesto um tanto revolucionário de 1912 a favor de um nôvo tipo de escola para o Brasil. O que explica Ter se aproximado dos colégios anglo-americanos que desde os começos do século XX – sendo Alfredo Freyre muito jovem – vinham operando em Pernambuco, seguindo o exemplo dos estabelecidos em São Paulo desde os fins do século XIX. Nêle, entretanto, êsse entusiasmo com relação ao aproveitamento, pelos brasileiros, de técnicos estrangeiros, inclusive de educação, sempre se conciliou com o mais sadio brasileirismo e com uma confiança, também sadia, sem furores patrióticos, na capacidade da gente brasileira para desenvolver-se em democracia, livre de " oligarquias, regimen muito mais nefasto que o monárquico ".Ou antes: mais nefasto do que a crença, de alguns, em ser o regimen monárquico, só por ser monárquico, nefasto: superstição de que Alfredo Freyre não participava, entusiasta, como sempre foi, da monarquia britânica, compatível com o desenvolvimento democrático entre as gentes de língua inglêsa; e admirador da própria monarquia brasileira, acêrca da qual muito se informou, quando moço, ouvindo quanto lhe contava de Pernambuco II e dos estadistas do Império o seu principal mestre de Direito que não foi nenhum dos da Faculdade mas o Desembargador Manuel do Nascimento da Fonseca Galvão. Assinale-se ter sido sempre um entusiasta quase absoluto de Teixeira de Freitas; e um admirador lúcido do Visconde de Ouro Prêto.
Na sua dissertação " Do papel moeda no Brasil", apresentada em 1917" como candidato ao lugar de subtituto da 5ª seção da mesma Faculdade" (Dissertações apresentadas a Faculdade de Direito do Recife por Alfredo A. da S. Freyre, Recife,1917), destaca êle, considerando com notável inteligência o aspecto psico-social, dos problemas de economia e finanças, a importância do plano Ouro Prêto – com o qual contrasta o Plano Ruy Barbosa. São páginas ainda hoje merecedoras de atenta leitura. Recordando o ambiente brasileiro na época monárquica, escreve: " Precisamos de distinguir os nossos costumes em 1889 e depois daquela data. A uma relativa seriedade nos negócios políticos e de administração é preciso adicionar a probidade nos negócios comerciais e o crédito extraordinário de que gozava o Brasil nas praças estrangeiras ". Mais : " Ninguém corria atrás das aventuras nem dos lucros a fôrça avassaladora que hoje apresenta e vem concorrendo grandemente para a ruína do País. Além do que " os particulares eram modestos na sua vida " . A essa " vida simples, sóbria " é que sucederiam " o chamado ensilhamento ou jôgo da bôlsa, loterias, empregos de todo o gênero". Indo além escrevia Alfredo Freyre em 1917, num julgamento favorável à monarquia brasileira e desfavorável à República de 89: " Não é aceitável que essa mesma revolução nos costumes se houvesse operado sem a revolta de 15 de novembro que trouxe a queda a monarquia. Não deixou ela de ser radical através a aparente tranquilidade". Mais: " Pensamos, estudando os fatos e comparando-os, que a reforma de 7 de junho (a de Ouro Prêto) teria sido bem sucedida e nos teria preparado melhores dias se não preparados para a situação que promoveram e não souberam sustentar e honrar ". E ainda: " Outra fôsse a educação do nosso meio social e o Visconde de Ouro Prêto teria levado por diante a sua obra patriótica. Infelizmente nem sempre a voz da razão é ouvida, o que determina o adiamento indefinido de medidas que teriam em dado momento a sua realização". é que, segundo Alfredo Freyre – em sua dissertação de 1917 – Ruy Barbosa, sucedendo a Ouro Prêto e abandonando, por isto ou por aquilo, o plano do antecessor, não estaria "à altura da situação no Ministério da Fazenda". Acêrca do que escreveu: " Longe, muito longe, estamos de negar a vastíssima e assombrosa erudição do grande mestre. Mas a S. Excia. Faleciam certos requisitos para afrontar as responsabilidades que tomou sôbre os ombros. O conselheiro Ruy Barbosa, são os fatos que o demonstram, não tinha nem a mesma experiência nos negócios financeiros, nem a mesma segurança de pontos de vistas do seu antecessor. E de consequências desastrosas para o país foi a falência do mais potente ministro que a República colocara logo no seu início à frente das suas finanças".
Palavras corajosas estas, de Alfredo Freyre publicadas em 1917, de crítica à ação de Ruy Barbosa como Ministro da Fazenda do Govêrno Provisório. Palavras publicadas, quando o culto a Ruy, nos meios intelectuais brasileiros, era – fato que resultou dos triunfos, na Haya, em 1907, do insigne brasileiro – quase uma mística; e mística numa época em que as figuras intelectuais gozavam, no Brasil, mesmo noutros meios, e não apenas nos intelectuais, de uma admiração que, nos nossos dias, só é consagrada aos heróis esportivos ou aos artistas de cinema, de televisão e de rádio.
"Do papel moeda no Brasil" é um dos melhores trabalhos publicados por Alfredo Freyre, que o escreveu como candidato à cadeira de Economia Política e Ciência das Finanças, da Faculdade de Direito do Recife, tendo por competidor o eloquente e erudito Joaquim Pimenta. Joaquim Pimenta, cearense dinâmico, tendo sido há pouco derrotado, noutro concurso na mesma Escola, pelo decerto mais fulgurante do que êle, Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Melo, tinha quase assegurada a vitória do nôvo concurso. Era a praxe.
O nôvo concurso incluía, além de Economia e Finanças, outra matéria : " Ciência da Administração e Direito Administrativo". Neste particular, a dissertação de Alfredo Freyre versou o assunto " Do Estado, sua ação cultural e relações com a Igreja ".
Nenhum desprimor para a memória de Alfredo Freyre – que sabendo escrever de modo preciso, correto e, por vêzes, até elegante, sempre foi um tanto preguiçoso em confiar de todo ao papel as idéias que, como professor, preferia desenvolver, oralmente, de simples e rápidas notas a lápis – em informar eu agora, dessas suas dissertações de 1917,que, embora senhor das matérias que nelas desenvolveria, deixou a sua elaboração para as vésperas do concurso. O que o obrigou a recorrer aos serviços do seu segundo filho, então de dezessete anos, que já o vinha auxiliando na tradução ao português de obras escritas em inglês; e no resumo dessas obras e de outras, em francês, em português. Também em resumos de ensaios jurídicos, inclusive de Tobias Barreto e de obras não só de historiadores como de juristas e sociólogos nacionais.
Há páginas inteiras, nas duas dissertações, que o candidato aproveitou do trabalho de colaboração executado pelo filho. O qual, dêsse modo, aos dezessete anos, foi honrado um pai de ordinário antes severo que camaradesco com os filhos – severidade de que muito e quase inùtilmente sofri em aulas particulares de Latim – para participar na elaboração de dissertações doutorais que mereceriam elogios de alguns dos mais ilustres mestres de então da Faculdade de Direito, embora alguns comprometidos a votar no aliás brilhante – repita-se competidor de Alfredo Freyre. Vinguei-me dêsse competidor, traçando-lhe uma caricatura, não de todo amável, que circulou entre professores e estudantes da Escola, no próprio dia em que se proclamou a vitória do ilustre cearense; e, que, encantado por triunfo que tanto ambicionava, não parece ter apreciado o gatafunho do meninote atrevido, filho do pernambucano que êle derrotara. Acrescentava Pimenta ao orgulho de intelectual, sem nenhum favor, brilhante, certa gabolice de cearense ávido de êxito na metrópole da região. Gabolice que caracterizando certos cearenses mais sôfregos de sucesso não se vem notando de modo algum noutros. Clóvis Bevilaqua, por exemplo, que tive o gôsto de conhecer, êle já muito velho, eu ainda jovem, dizem todos os seus contemporâneos que, mesmo moço, era tão modesto que chegava a ser humilde, contrastando os deus modos com os do sergipano Tobias Barreto. Dos pernambucanos se diga, de passagem, que raros, dentre êles, retribuem com qualquer preconceito contra os brasileiros vindos de outros Estados, para o Recife, o ânimo anti-pernambucano com que alguns dêstes se entregam a competições de ordem intelectual, política, econômica, dentro de Pernambuco, com filhos de Pernambuco. Lembro-me de Meu Pai Ter sido muito amigo de Tito Rosas – professor da Faculdade de Direito do Recife, de notável talento, que ainda moço suicidou-se – e que era paraíbano; muito amigo, também, de Odilon Nestor, outro paraíbano – felizmente ainda vivo e lúcido; muito amigo do sergipano Aníbal Freire; amigo e admirador de Gilberto Amado; admirador do alagoano Gondim Filho. Todos homens que se anteciparam a êle na conquista de cátedras na velha Faculdade. Nunca observei nêle uma expressão de inveja ou uma explosão de despeito contra aquêles, que, fôsse qual fôsse sua origem, pelo maior brilho do talento ou pela evidência de um saber mais ostensivo que o seu, ou por circunstâncias outras de caráter puramente social ou apenas acidenta, lograram triunfos maiores ou mais rápidos que os modestos e até modestíssimos, dado o seu valor, por êle obtidos. Nunca.
Sua Dissertação apresentada à Faculdade de Direito do Recife, em 1934, como candidato ao lugar de professor catedrático de Economia Política e Ciência das Finanças da mesma Faculdade (Recife,1934) é outra das suas publicações que revelam a lucidez da sua inteligência e a segurança do seu saber, especializados no trato de assuntos econômicos e financeiros. Mas especializados nesses assuntos dentro do seu contexto sociológico e até psico-social. Mais do que isto : humanístico. Nesse seu trabalho vem com efeito citado, Horácio - Qaerenda Pecunia primum est; Ibit in immensos ni provideatis abusus, praeclara res Numaria (Budelius, De Monetis).
Também aí, tratando-se de A moeda e seus aparelhos reguladores, o autor, embora mostrando-se atualíssimo no seu saber, a ponto de apresentar-se como o primeiro mestre brasileiro de Economia Política e de Ciência das Finanças a adaptar à situação nacional as Teorias, então novas e revolucionárias, do inglês Keynes, manifesta-se no trato de assunto econômico e de matéria financeira, o humanista científico de sempre : equilibrado, sóbrio, em guarda contra os excessos dos clássicos e contra os exageros dos neófilos. "Não somos partidários da destruição do passado para apresentar coisa nova e nunca vista nem nos encontramos ligados ao passado tão estritamente ao ponto de desconhecermos as mutações por que vamos passando ", escreve êle.
Não procura esconder o fato de seguir de perto J. M. Keynes, então desconhecido no Brasil. Mas revela conhecimentos ainda mais raros que o do, então recentíssimo, A Teatrise on Money: o de A Discourse of Coin and Coinage, de R. Vaughan, publicado em Londres em 1975 e por êle conhecido através de obra que talvez fôsse, então, o único brasileiro de saber especializado em economia e finanças que conhecesse e possuísse: Old and Scarce Tracts on Money de J. R. Me Cullock, (Londres 1933). Devo dizer que, desta vez, quem mais o auxiliou na tradução de obras escritas em língua inglêsa foi o meu irmão Ulysses, tão versado em assuntos práticos de finanças, pela sua ligação, durante anos, com importante banco de Nova York – banco que, aliás, portou-se com êle com aquela suprema incorreção que tornava então certos plutocratas ianques merecedores das mais severas críticas da parte dos socialistas – como na língua inglêsa, dada a sua qualidade de bacharel por Universidade dos Estados Unidos.
Trabalho mais rigorosamente técnico que o de 1917 sôbre assunto afim, nem por isto Alfredo Freyre se revela nêle um economista fechado no seu economismo ou um financista atento apenas aos aspectos financeiros dos problemas de moeda. Daí estar entre as suas conclusões a de que " o fator humano é da máxima importância no aparelho regulador do mercado monetário ". Sem acreditar na possibilidade de um estabelecimento de direção supranacional dos vários sistemas monetários, que começasse por funcionar através do Banco de Ajustes Internacionais sugerido por Keynes, inclinava-se, entretanto, a admitir como possível uma cooperação de Nações ou Estados que, sob a hegemonia, só espécie de equilíbrio na balança econômica " semelhante ao equilíbrio na balança de poder político. Isto escrevia Alfredo Freyre em 1934.
Orientação que se reafirma no seu trabalho Algumas considerações sôbre Sociedade Econômica: conferência proferida no salão de conferências da Faculdade de Direito do Recife no dia 13 de outubro de 1937 e publicada na Revista Acadêmica da mesma Faculdade (Anos XLIV,XLV e XLVI, 1936,1937,1938). Aí há trechos que podem ser considerados de Sociologia da Economia, como aquêle em que sustenta que "o processo econômico nacional é também social e apresenta forçosamente os mesmos problemas que repontam em todo o intercurso social". Isto embora considerasse a Sociologia – a Sociologia Geral – como " ainda em formação "; e destacasse o fato de vir o estudo do intercurso econômico como intercurso social precedendo o estudo das relações " em outros campos sociológicos" . Pelo que considerava a " teoria econômica uma espécie de guarda avançada a Sociologia ", isto é, da Sociologia Geral. Não que a Economia fôsse mais do que um ramo da Ciência Social. Apenas o seu desenvolvimento vinha sendo " mais rápido que o do tronco que é a Teoria da Sociedade". Acrescentando : " Tem portanto prestado a esta ( a teoria da Sociedade) maiores serviços do que tem dela recebido. A grandeza científica dos mestres clássicos manifesta-se na firmeza com que atacaram os problemas sociológicos de teoria econômica. Nas suas doutrinas, desenvolveram-se algumas das bases sôbre os quais veio a assentar mais tarde a Ciência Social". Para êle a "mais importante e mais sòlidamente firmada contribuição dos clássicos à Ciência Social " estava na "lei dos preços", à qual se ligava o "princípio da divisão do trabalho". Repugnavam-lhe os excessos da explicação individualista do intercurso social. Mas, a seu ver, é no indivíduo que temos que buscar " as tendências componentes da estrutura social". Isto sem que as decisões que o indivíduo comumente considera próprias deixem de ser produzidas, principalmente, por efeito da sua "educação " e pela prática generalizada de " aproveitar-se da experiência dos velhos ". Mais : ‘ o homem não pode deixar de ser considerado criatura, em grande parte, do seu período e do seu meio – do seu país, da sua classe, da sua profissão . Muito do que parecendo puramente individual nêle é "uma forma particular de uma norma típica de vida". Caracterização sociológica que sem desprezar a presença do indivíduo na estrutura social reduz essa presença a forma particular de um estilo geral de convivência. Além do que, deve-se atribuir ‘ grande importância ao fator tempo" no desenvolvimento daquelas instituições que regulam as relações entre formas particulares de ser o homem indivíduo social e as normas típicas de vida que lhe condicionam o modo de ser social, em geral, e do econômico, em particular, Alfredo Freyre foi, no ensino da Economia Política na Faculdade de Direito, mesmo quando ainda docente – antes de 1934 – um precursor de sociólogo da Economia, que muito se serviu, para dar essa amplitude ao seu papel de professor de Economia e de Finanças, dos livros de Sociologia, de Antropologia e de Economia de um filho que, tendo sido discípulo, na Universidade de Colúmbia, de Giddings e de Boas e seguido as aulas se Economia Política, do, para Alfredo Freyre, admirável Seligman, continuaria, em muita coisa, discípulo do Pai; seu colaborador, noutras; e em algumas, atualizador dos seus conhecimentos de homem de inteligência sempre jovem e sempre pronto a adquirir novos conhecimentos. Lembro-me de que, tendo ido à Europa, já velho, sua atitude em face tanto dos monumentos como das atualidades que ali se ofereceram aos seus olhos indagadores, foi quase a de um adolescente sôfrego de ver, de observar, de aprender; e nunca a de um blasé que já se julgasse de tudo informado pelos livros.
Agora um pouco de Alfredo Freyre, visto através das suas cartas e do seu estilo epistolar, que era antes telegráfico que pròpriamente epistolar. Escrevia aos filhos, aos netos, aos amigos, cartas rápidas porém interessantes e quase sempre tocadas de algum humour. êste comentário, por exemplo, à situação brasileira logo após a chamada " Revolução de 30 ", que, aliás, muito lhe custara (sem ser êle político, apenas por ódio pessoal ao filho da parte de uns tantos " salvadores da Pátria ", então aparecidos, alguns dos quais, uma vez triunfantes, vieram tornar-se célebres pelas suas desonestidades, Alfredo Freyre tivera a sua casa, na Madalena, saqueada e incendiada): " A situação do Estado e do País continua simplesmente horrível e não vejo perspectivas de melhorar. Eu não sei Sociologia mas nunca vi, ouvi ou li tanta bestidade como agora. Nem mesmo nos exames vestibulares de cuja banca examinadora tanto feito parte." A propósito : " Estou a espera da grande reforma do ensino. Quando chegaremos a ter noção a mais ligeira do ridículo ? Depois duma aluvião de exames por decreto uma reforma compendiando o que há de mais moderno no ensino!" Na mesma carta, esta nota pessoal de quem, já avô dos filhos de Gasparina, Gilberto e Roberto, era agora, pela primeira vez avô de neto, filho de filho homem; e que ia conservar o nome dos Freyres: " Ulysses é pai. UM rapagão forte, grande e pesado. Chama-se Antônio José - resultado duma promessa. Eu disse a Ulysses que êsses dois nomes eram um do bisavô paterno José – Bacharel em Direito e o outro, Antônio, do tio bisavô (Freyre) que foi Padre. Incientemente ficam os dois nome dos antepassados". O que era muito do seu agrado: sendo muito moderno numas coisas era noutras muito apegado às tradições. Inclusive às de família.
Tinha muito carinho pela imagem da Mãe, Maria Raymunda – sinhàzinha autêntica dos velhos dias, Rocha Wanderley do Engenho Mangueira, de Água Preta, onde o então chamado Alfredinho passou parte da meninice; e um culto especial pela memória do Pai, como êle, Alfredo; e que se fizera quase por si por ter, muito menino, perdido o pai, o Juiz, Bacharel pela Faculdade de Direito do Recife, José Alves da Silva Freyre, assassinado à porteira do Engenho Palmeira, de sua família, por ter desassombradamente feito justiça a uns pobres contrariando ricos então poderosos. Tradição, essa de juiz corajosamente justo, que Alfredo Freyre conservaria de modo, repita-se, quase quixotesco – quixotesco no sentido ético de quixotismo pois em face da realidade social não lhe faltava objetividade – como da vez em que absolveu Estácio Coimbra, ex-governador do Estado, contra quem os novos senhores de Pernambuco se empenhavam em responsabilizar por desvio de dinheiros públicos que Coimbra utilizara na defesa da legalidade contra insurretos que, com o apoio militar do Govêrno Federal, haviam se apoderado ilegalmente do Estado, forçando-o a passar o govêrno ao então Presidente do Senado Estadual, Coimbra era, naqueles dias, um homem público que fôra abandonado até por amigos, dentre os mais favorecidos por êle quando no poder. O juiz Alfredo Freyre nada temeu para fazer-lhe justeza, tendo, com isto, se imposto ao respeito do nôvo governador do Estado, que era o general Dantas Barreto, homem reto e de bem.
A 20 de janeiro de 1932 êle escrevia ao filho distante : " Que o 32 apesar de sua aspereza nos seja um pouco mais benigno" . Acrescentava: " O Vieira Ferreira ( Juiz Federal ), que é realmente um homem culto – cultura geral e jurídica, deixando à grande distância o poseur Cunha Melo – envia-lhe lembranças. é um bom velhote".
Em 1933 escrevia-me êle estar ainda indeciso sôbre o assunto em que se fixaria para as suas dissertações de candidato à cátedra de Economia e Finanças da Faculdade de Direito do Recife – problema sôbre o qual vínhamos trocando idéias, êle estando então no Recife, eu em viagem, desde 1930, pela Europa e pelos Estados Unidos; e atento a novas perspectivas em Economia e em Finanças que a nova situação mundial viesse abrindo aos cultores europeus e americanos das várias ciências sociais e jurídicas. Em 33 encontrava-me no Rio. Concluira meu livro Casa-Grande & Senzala que aparecia no Natal daquêle ano. Já Alfredo Freyre estava em dia com Keynes e com os outros economistas inglêses, dentre os mais novos. Conversei com Gilberto Amado – meu companheiro, naquele ano, no Rio, de muitas excursões noturnas, aparentemente só boêmias, mas, na verdade de muita troca de idéias em tôrno de temas, por vêzes platônicos, de Sociologia, de Filosofia, de Política Internacional, sôbre assunto para a dissertação do Meu Pai ( que êle, Amado, conhecia dos seus dias de jovem no Recife, e a quem estimava deveras ). Já não me lembro que assunto Gilberto Amado sugeriu. Encontro numa carta de Alfredo Freyre estas palavras: " é muito interessante o assunto sugerido por Gilberto Amado. é, porém, muito difícil e trabalhoso. Vou ver se nestes dias escolherei outro assunto e escrever-te-ei a respeito... Nada tenho ainda fixo".
Vários dos meus amigos, adotaram-nos, êle e Minha Mãe, com um carinho especial. Um dêles Gastão Cruls, para quem enviaram um corrupião raro, muito desejado pelo autor de Amazônia Misteriosa . Fato de que me dava notícia em carta de 16 de dezembro de 1935, informando-lhe de que estavam enviando mangas a outros dos meus mais fraternais amigos do Rio: Rodrigo Mello Franco de Andrade, Manuel Bandeira e Prudente de Moraes neto. Regozijou-se com o resultado – com o sucesso das mangas – frutas que não sei se diga que eram as da sua predileção, tão entusiasta era êle também de abacaxis, de jacas, de abacates, como também, quando entre amigos, de bons uísques e de bons charutos. O cachimbo, fumava-o sòzinho, deitado na sua rêde e lendo os autores latinos de seu agrado.
" Pelas cartas de Gastão, de Rodrigo e telegrama do Prudente, vejo que as mangas fizeram grande barulho ", escrevia-me a 8 de janeiro de 1936. Outros amigos meus do Rio não tardariam a ser incorporados por êle às suas amizades : José Olympio, de modo especialmente afetuoso, Octávio Tarquínio, Paulo Inglês de Souza, Silva Mello. Dos meus amigos do Recife, tornaram-se seus amigos, José Lins do Rêgo, Antiógenes Chaves, Edgar Ribeiro de Brito, Luís Jardim, Artur de Sá e Cícero Dias – êste em 1936 já de residência fixada em Paris, desde que, na capital de Pernambuco, a polícia de então movia contra êle (do mesmo modo que contra mim) mesquinha perseguição . êsses amigos meus, desde velhos dias, êle e Minha Mãe acolhiam em casa com o maior afeto: o mesmo afeto com que acolheria, já viúvo e morando em nossa casa de Apipucos, Lula Cardoso Ayres e Paulo Maciel, para só recordar êsses; e sem que devam ser esquecidos seus jovens discípulos (não remunerados : só por amizade) de Latim, Vandick Nóbrega, Lauro Oliveira, Mário Lins, Heitor Pinto de Moura. Ainda êle moço, também seu sobrinho Ulysses Pernambucano de Melo fôra seu aluno de Latim.
José Lins chamava à Minha Mãe de " Velhinha Minha Mãe"; e era igualmente filial com Alfredo Freyre. Tinham os dois – Minha Mãe e Meu Pai reservas, contra outros dos meus amigos : algumas delas, reservas injustas, creio eu.
Também uns tantos dos amigos do velho Freyre, adotei-os eu, a despeito da diferença da idade: Odilon Nestor, por exemplo. A verdade é que sempre tive amigos, uns bem mais velhos, outros bem mais moços do que eu, dos quais fui íntimo e até confidente: além de Odilon Nestor, Luís Cedro, Júlio Bello, Carlos Lyra Filho, Manoel Caetano de Albuquerque e Mello, Pedro Paranhos Ferreira. êste, creio eu, o maior de todos.
Com relação ao Meu Pai repito que atravessei, adolescente, um período de retraimento dêle em que quase não me abria com êle nem êle comigo : sua severidade para com os filhos meninos talvez explique o fato. Mas à medida que fui amadurecendo, desenvolveu-se entre nós – na verdade entre êle e os dois filhos, pois o meu irmão Ulysses foi inseparável do conjunto afetivo que viemos a formar - uma amizade talvez pouco comum entre Pai e filhos. Amizade que, da sua parte, estendia-se as filhas, aos genros e às noras e que, sob a forma de ternura, viria a apurar-se com relação aos netos .
Relendo seus velhos escritos, quer os publicados, quer os inéditos, - alguns tão interessantes – vêm-me a idéia de que o melhor da sua inteligência, do seu hummour, da sua personalidade, êle o exprimiu nas suas conversas; nas suas ás vêzes alegres conversas com moças bonitas, das quais tão depressa se fazia querido, lendo-lhes as mãos, segundo estudos sérios que tinham de quiromância e até de astrologia – estudos que o divertiam; nos jogos de pôquer de que participava com os amigo, desde os dias do velho Clube Internacional, à Rua da Aurora; nas suas lições, quer de humanista, quer de jurista quase sociólogo; nas suas conferências à base de notas : a que proferiu certa vez no Colégio Americano Gilreath, por exemplo, acêrca do que se devia entender por educação . O discurso pròpriamente dito não era o seu forte. Faltava-lhe eloquência. O que sabia era expor: ser claro, preciso, didático. Às vêzes tornava-se demasiadamente didático : crítica que mais de uma vez lhe fizemos os filhos, Ulysses e eu.
Extraordinário era o carinho com que na minha ausência tratava dos meus – ou antes, dos nossos, pois vários haviam sido dêle – livros. Alguns tinham sido, na verdade do seu Pai e até do seu avô . êle os passara a mim, para que os conservasse, junto com certas pratas portuguêsas e certos móveis, - alguns de Spieler – que vinham dos seus pais; com alguns, de Minha Mãe e até dos seus avós; e vários dos quais foram saqueados em 1930, dando-lhe o fato, a êle e à Minha Mãe, um desgôsto profundo . Pois já disse que um dos traços do seu caráter era o apêgo à tradição; e embora se fizesse de sêco, como um inglês, na aparência – de resto, seu aspecto físico, de Wanderley vermelho era o de um inglês, tendo Carlos Lacerda, a primeira vez que o viu em Apipucos, pensado tratar-se de um dos inglêses meus amigos – era, no íntimo, e, outra vez como um inglês, um sentimental.
Ao perder a espôsa, foi grande a sua dor. Eram unidíssimos. Curioso que êsse homem assim terno pudesse ser o valente à espanhola que era como da vez em que enfrentou, não dois ou três, mas nove " esbirros " do então arbitrário Agamenon Magalhães, representado por um bacharelete atrevido, seu chefe de Polícia : luta de que saiu ferido mas deixando moralmente reduzido a trapo o desde então político moribundo na política brasileira.
Compreensivo e até carinhoso com relação aos genros e às noras – embora como que preferisse os filhos, propriedade exclusiva dêle e da mulher – êle que, como pai, fôra extremamente severo com os mesmos filhos meninos, foi, como avô, dentro da definição de Lauro Mueller, um pai com muito e até com excessivo açúcar. O mais ternos dos avós – mesmo ao ensinar Latim aos netos. As silabadas dos netos não despertavam nêle as fúrias que haviam provocado nos seus ouvidos de pai-mestre severíssimo as silabadas dos pobres dos filhos, um dos quais terminava sempre quase chorando as suas horas de lições particulares de língua latina com latinista tão rigoroso. Hoje, se quase chora quando se lembra dessas aulas, não é só voltando a sentir aflição, mas tendo saudade do Pai e do Mestre : mesmo das suas repreensões em voz acre de pedagogo às vêzes zangado.
Nunca se tornou o " velho Freyre" um velho caturra. O que quer dizer que não tivesse suas ranzizices. Que não fôsse contraditório, embirrando com certas invocações, tolerando outras e se fazendo adepto entusiástico de ainda outras.
Embirrava com mulher de calças de homem. Mas tolerava bem a moda das mulheres fumarem em público. Oferecia-lhes cigarros. Acendia-os com a mais perfeita galanteria.
Era entusiasta das inovações mecânicas. Quem quisesse o ver feliz que lhe trouxesse da Europa ou dos Estados Unidos uma caneta automática de um nôvo tipo, um nôvo modêlo de isqueiro, uma " flash light" de nôvo feitio. Um médico seu amigo presenteou-o, certa vez, com uma novidade que o deslumbrou : uma caneta automática que era também " flash light".
Nenhum leigo mais entendido do que êle em relógios. Que o digam os relojoeiros profissionais do Recife: Montandon, por exemplo. Enquanto teve boa vista, relógio algum teve segrêdo ou mistério para o velho Freyre. Deliciava-se em desmanchar, peça por peça, o relógio, quer de bolso, quer de mesa, que lhe fôsse apresentado para conserto, às vêzes como desafio à sua argúcia de relojoeiro amador. E quase sempre conseguiu restituir ao coitado a saúde perdida; e fazê-lo de nôvo funcionar. Tinha em casa mesa de relojoeiro. Possuía todo o instrumental necessário a essa espécie de cirurgia. Eram horas felizes as que passava às voltas com relógios desarranjados, tantos dos quais consertou com mão de mestre.
Também se esmerava em consertar outros objetos que aparecessem quebrados em casa : desde alguma cadeira de jacarandá mais antiga da família a uma boneca de estimação de neta ou a uma bicicleta inglêsa de filho. A última encomenda que me fêz foi de uma caixa de ferramenta, que conseguir trazer-lhe da Europa, depois de muita procura por lojas ou armazéns. Pois era uma caixa, a que êle desejava, como que enciclopédia. E tais caixas não vem sendo fabricadas, a não ser raramente, em nossa época de especialismo exagerado.
Colecionava cachimbos. Deixou interessante coleção de cachimbos, de vários países e de diversos feitios. Mas a sua preferência era por cachimbos inglêses. Por cachimbos e por fumos, dos quais fazia misturas a seu gôsto. Fumava como um caipora : cachimbo, charuto, cigarro. Poucos dias antes de expirar, pediu-me – já o recordei – que o ajudasse a fumar um charuto e a sorver uns goles de uísque .
Embora tivesse horror aos gramáticos seus conterrâneos, admirava mestres como João Ribeiro – que chegou a conhecer, no Rio, sendo ambos membros do Conselho Superior de Educação – Grivet, Said Ali; e colecionava, além de cachimbos e relógios, gramáticas latinas como quem lesse romances.
Não admitia que em sua presença se estropiasse a língua portuguêsa. Estava sempre a corrigir nos filhos e nos netos erros de pronúncia, vulgarismo, anglicismo. Na defesa da pureza da língua materna chegava a ser caturra. Seus clássicos prediletos era Camões, Frei Luís de Souza, Bernades, Castilho e Herculano. Dentre os brasileiros, Vieira. Mas se deixar de saborear o seu Oliveira Martins, o seu Ramalho Ortigão e o seu Eça, a quem perdoava os galicismos por amor ao que, no autor de Os Maias, era graça literária, ironia viva, coragem de crítica social. Também lia com particular gôsto o Santo Tirso; e dentre os brasileiros, Rachael de Queiroz e José Lins do Rêgo foram os escritores novos preferidos por êle, na sua velhice de entusiasta de certas novidades e de inimigo de outras.
Alfredo Freyre fêz-se notar, durante sua longa vida – uma vida de bom, de autêntico brasileiro de província – tanto pelo saber de humanista como pelas suas virtudes de cidadão. êsse homem que encontrava um especial prazer em, reclinado muito de seu, na sua rede do Ceará, reler no original clássicos latinos, em recitar dêles e de clássicos portuguêses páginas inteiras, em ensinar aos netos as letras latinas como se lhes ensinasse as letras de uma língua viva, dizendo-lhes à própria mesa do almôço como se dizia em latim pão, peixe, água e não apenas amizade paz saúde eram também um cidadão do Recife, do Brasil e do mundo, notável pelo interêsse com que participava, com a sua por vêzes áspera altivez, dos acontecimentos do seu tempo.
Sempre empenhado na defesa de grandes causas humanas, era com desassombro que criticava abusos de poderosos e levantava-se contra violências dos opressores dos fracos. Descendente de gente espanhola – daí, repita-se, a ênfase com que exigia que lhe escrevessem o Freyre do nome de família com Y – foi homem, por vêzes, de espanholadas. Deu com os pés em cargos e vantagens . Nunca se aquietou em burgues acomodatício nem em filisteu interesseiro.
Sempre se afirmou independente nas idéias e nas atitudes. Juiz foi, na magistratura, continuador do avô, bacharel formado ainda em Olinda, outro donquixote: aquêle que foi assassinado em 1835 em Vitória de Santo Antão pelas sentenças com que desgostara poderosos da época. Fôra um homem, - repita-se dêsse avô do velho Freyre – que fizera justiça em pról dos humildes e contra os ricaços acostumados a ser cortejados por bacharéis de outra espécie, que não a dêle.
Muitos os discípulos que Alfredo Freyre deixou. O discípulo, para o velho Freyre, não era apenas um jovem a quem transmitisse saber mas um indivíduo cuja a formação de caráter devesse ser tão importante para o mestre quanto a formação da inteligência. Repugnavam-lhe nos homens a pusilanimidade, a hipocrisia, a deslealdade. Tinha nojo, mas nojo físico, do desleal. Desprezava-o, mesmo que fôsse aparentado dêle. Ninguém lhe faltasse com um compromisso. Ninguém o procurasse iludir com palavras negadas pelos atos. Chegava a ser cru na repulsa aos desleais e no repudio aos falsos.
Tal o exemplo que deixou aos filhos, aos discípulos, aos amigos mais jovens, para quem, de certa altura em diante, passara a ser " o velho Freyre " sem que nêle a velhice se endurecesse jamais em caturrice. Foi sempre um velho de verde velhice. Bem humorado, alegre, trocista. A não ser que precisasse de repelir uma afronta ou repudiar uma deslealdade. Repito que chegava, nessas repulsas a ser cru. Duro. Impiedoso. Foi exemplo, não sei se bom, que deixou muito nítido, aos filhos, aos descendentes, e aos discípulos, o dessa dureza com os desleais . Tolerava os ignorantes. Condescendia com os simplórios. Era paciente até com os mal-educados. Mas não sabia ser se não cru com os desleais e altivo com os poderosos do dia. é possível que. dos seus contemporâneos, alguns o tenham considerado excessivo na altivez e a classificassem de " hipertrofia de sensibilidade". Mas êsse excesso, se houve em Alfredo Freyre só a êle prejudicou.
Fonte: FREYRE, Gilberto. Meu pai. Recife: s. n., 1964. 29p.
|