MISSÃO EM PARIS
Nota
A aproximação cultural entre o Brasil e a França muito deve ao grande esfôrço desenvolvido pelo diplomata, escritor e jornalista Jayme de Barros, durante os quatro anos em que serviu no Consulado Geral do Brasil, em Paris, dando a mais generosa assistência não só a artistas e escritores, mas, de modo geral, aos brasileiros que visitavam a França. Para homenagear Jayme de Barros, reuniram-se no Jockey Club Brasileiro, a 26 de agôsto do corrente ano, em concorrido banquete, jornalista, escritores, banqueiros, industriais, juristas, diplomatas, artistas, elementos representativos de diversas classes da sociedade brasileira, para manifestar, dêsse modo, o aprêço em que tinham o trabalho por êle realizado em Paris, a fim de tornar mais efetiva a aproximação cultural entre o Brasil e a França. Da obra realizada pelo Cônsul Jayme de Barros, quase todos os presentes a essa homenagem desejaram dar seu testemunho. Mas coube ao escritor e sociólogo, Deputado Gilberto Freyre, interpretar, em primoroso discurso, o pensamento de mais de cem convivas. Neste volume, cuja publicação se faz sob os auspícios dos amigos do homenageado, estão reunidas essa oração lapidar e a admirável resposta de Jayme de Barros. Aderiram e participaram da referida homenagem as seguintes pessoas: Cyro de Freitas Valle, Nhemias Gueiros, José Lins do Rego, Elmano Cardim, Paulo Bittencourt, Oswaldo Aranha, Acurcio Torres, João Borges Filho, Fernando de Mello Viana, José Olimpio, Austregesilo de Athayde, Humberto Nabuco dos Santos, Assis Chateaubriand, Carlos Rizzini, Joffre Amado, Jayme Adour, Genolino Amado, Filadelfo Azevedo, Augusto Saboia Lima, Henrique Fialho, Drault Ernanny, Octavio Tarquinio de Souza, Walter Moreira Salles, José Braz Pereira Gomes e Senhora, Edmundo da Luz Pinto, Nilo Bruzzi, Pamphilo de Carvalho, Claudio Medeiros Lima, Niomar Muniz Sodré, Helena Lorenzo Fernandez, Dionisio da Silveira, Jayme Landim, Francisco Campos, Afranio de Mello, Mauricio Vaistsmam, Martinho de Luna Alencar, Paulo Vial Corrêa, Luiz Saboia lima, Waldemiro Andrade, João José Povoa, Eros Volusia, Ruy Carneiro, Albelardo Romero, Alcides Carneiro, José Cintra Gordinho, Adelgicio Olyntho Neves Manta, Adhemar Vidal, Floresta de Miranda, Julio Rego, Arnon de Mello, Roberto Marinho, João Neves da Fontoura, Ricardo Marinho, Raul Bopp, Paulo Rappaport, Ricardo Seabra, Giuseppe Amado, Antonio Azevedo, Gastão Cruls, Hugo Adami, Leticia de Figueiredo, Leonora Gondim, Luiz Menezes, Barreto Leite Filho, Gilberto Freyre, Leão Hurfaman, Ana Maria Fiuza, Bueno do Prado, Roquette Pinto, Heitor Lyra, Antonieta de Souza, Mara Ferraz, Maria Amelia Oliveira, Paulo Bojunga e Senhora, Raul Pedrosa, Og de Almeida, Austregesilo Filho, Luiz Camilo de Oliveira Neto, Berenguer Cesar, Vasco Lima, Angione Costa, Dante Costa, Josué de Castro, Giacomo Palumbo, José Leal, Marcos Carneiro de Mendonça, João Augusto Fonseca, Danton Jobim, Gilberto Chateaubriand, Edmar Morel, Beatriz Lindgren, Francia Lindgren, Raymundo Magalhães Jr, Luiz Guaraná, J. Bertrand, Joaquim de Mello, José de Oliveiras Reis, Sebastião Santos, Alceu Penna, Herbert Moses, Zenaide Andréa, Lincoln Nery da Fonseca, A. Fróes da Fonseca, José Telles Barbosa, Donetello Grieco, Agripino Grieco, Dario de Almeida Magalhães, Soutelmo Severo, Mario Bittencourt Sampaio, Peregrino Junior, Violeta de Alcantra Carreira, Ladislau de Torok, Olegario Mariano, Boulitrau Fragoso, Sotero Cosme, Jorge Emilio de Souza Freitas e Renato Almeida.
FIEL DISCÍPULO DE RIO BRANCO
Discurso Pronunciado por Gilberto Freyre
Os amigos de Jayme de Barros aqui reunidos são tão diversos pela profissão e pela terra de origem, pela idade e pelas idéias, que falar por êles é quase falar pelo Brasil. Aqui estão ministros, ex-ministros e futuros ministros. Representantes da cultura nacional. Representantes das nossas melhores tradições conservadoras, que são as do Itamaraty, aqui brilhantemente encarnadas em Cyro de Freitas Vale, e representantes das tradições mais agressivamente liberais – agressivas no bom sentido inglês – do Brasil, encarnadas no ilustre Paulo Bittencourt. E nem assim estaria completa a representação: aqui estão homens nascidos em outras terras que são amigos de Jayme de Barros como são amigos do Brasil.
É que em Jayme de Barros o cônsul não é apenas cônsul, nem o escritor é apenas escritor. O cônsul e o escritor são sòmente dois aspectos da personalidade do homem ao mesmo tempo público e particular, que não só representa como encarna o Brasil com a mais larga das simpatias e a mais constantes das cordialidades brasileiras: uma simpatia e uma cordialidade que não se limitam a sorrir para o compatriota ou o próximo necessita de socorro ou apenas de convivência amiga, mas juntam ao sorriso a palavra, o gesto e o ato cordial, e, às vêzes, mais do que cordial, afetuoso ou generoso.
João do Rio dizia do brasileiro do seu tempo que quando bom era quase sempre mais do que bom. E êste talvez seja o excesso de Jayme de Barros, numa época e numa atividade como a diplomática ou o serviço público, em que há homens menos do que bons, embora raros cheguem a ser maus. Apenas êsses ordinàriamente menos do que bons não querem ter o incômodo de ser constantemente bons nem correr o risco de ser mais do que bons. Limitam-se então à mais sêca, à mais árida, à mais estéril das correções, que é a correção burocrática.
Êste não foi, entretanto, o exemplo que nos deixou aquêle que, como cônsul, só fêz preparar-se para ser o maior dos ministros de Estado que teve a República no Brasil; e em que nem a condição de Ministro da República nem o título de Barão do Império destruíram a alma generosa, sempre moça e até boêmia do estudante chamado Juca Paranhos: justamente a expressão de sua personalidade que lhe permitiu acamaradar-se mais livre e cordialmente em Paris com intelectuais, jornalistas, artistas e não apenas freqüentar salões de condessas velhas e duquesas arcaicas e conviver com diplomatas bem pensantes, bem barbeados e bem trajados.
Sabemos todos quanto foi útil ao Brasil o fato de Rio Branco, cônsul em Liverpool – mas sempre em contato com Paris – ter feito amizades fora dos meios estritamente burocráticos ou diplomáticos ou elegantes. Essas amizades lhe permitiram dar ao seu e nosso país um renome, uma repercussão, uma fama que um cônsul ou ministro ou embaixador convencional não teria conseguido nunca para a nação quase desconhecidos dos estudos de geografia, nossa república exòticamente tropical.
Conheço um pouco a obra admirável realizada por Jayme de Barros em Paris e sou um dos muitos que guardam de sua hospitalidade de cônsul e de brasileiro a melhor das recordações. Viajando desde adolescente tenho conhecido muitos cônsules, vários ministros e não poucos embaixadores do Brasil na Europa, na América e até na África, nunca um cônsul me pareceu mais cônsul do Brasil do que Jayme de Barros em Paris. Nunca uma casa de cônsul do Brasil me pareceu mais docemente hospitaleira que a dêsse fluminense adoçado pelo açúcar de Campos e completado na sua suavidade sem afetação pela espôsa sempre saudosa das palmeiras de sua terra, embora conhecedora, em Paris, de tôdas os bons programas de música e de teatro, de tôdas as boas exposições de pintura e de escultura e pronta a iniciar as brasileiras de províncias e mesmo do Rio nas atividades parisienses de arte e de cultura.
Porque o casal Jayme de Barros tem sabido sempre ser amigo de artes e de artistas. Dos artistas estrangeiros e dos da terra que vão ao estrangeiro. Dos mestres dos principiantes. Dos clássicos e dos experimentais.
Jayme e Marina de Barros têm procurado sempre tornar conhecidos na Europa a música, a dança, a pintura, a cultura, o pensamento brasileiros. Nisto o cônsul de hoje – que sendo escritor não inveja escritores – segue fielmente o exemplo do antigo cônsul em Liverpool, que sendo historiador êle próprio, sempre procurou prestigiar escritores, sábios, artistas, e a quem nunca faltou o sentido exato da importância da irradiação dos valores nacionais de cultura através do esfôrço de nossos representantes diplomáticos; através não só das nossas publicações oficiais ou oficiosas como das estrangeiras e livres. Nem êste sentido faltou a Rio Branco, nem o da importância, para o Brasil, daqueles valores estrangeiros de cultura, de algum modo ligado à nossa vida ou ao nosso passado: preocupação também de Jayme de Barros, neste ponto discípulo tanto de Rio Branco como do extraordinário jornalistas alongado às vêzes numa espécie de superministro de um ministério que não existe no Brasil e deveria existir – o de Informações e de Cultura – que é, com todos os desmandos de suas virtudes, Assis Chateaubriand.
De Rio Branco, Barão, se sabe que durante anos andou quase como um maníaco à procura de um retrato de certo Dom Diogo, que fôra capitão-general no Brasil e vice-rei na Índia. Pediu a amigos que o ajudassem. Que procurassem com êle o retrato de Dom Diogo.
E buscou por tôda parte como quem buscasse um tesouro o retrato do antigo capitão, para afinal encontrar a preciosidade na Índia: preciosidade não para êle mas para o Brasil.
A homens de preocupações estritamente burocráticas deve ter escandalizado aquêle esfôrço, para êles inútil e até ridículo, de busca ou de procura de um retrato por um homem com tantos papéis a assinar. Um diplomata, um cônsul, um representante do Brasil à procura de um retrato, preocupado com um retrato antigo, incomodando amigos e estranhos por causa de um retrato velho. Hoje sabemos que Rio Branco nunca foi maior do que ao buscar por tôda parte um retrato de Dom Diogo como quem buscasse um pedaço do Brasil perdido em terra estranha. E o professor Gilberto Amado, com a lucidez admirável de sempre, já fêz o elogio do esfôrço do Barão, independente do próprio valor do retrato de Dom Diogo: "o que vale é a importância específica do ato de procurar", escreveu o autor da Chave de Salomão.
Jayme de Barros como representante do Brasil é o que principalmente tem feito: procurado por tôda parte retratos de Dom Diogo. Retratado de Dom Diogo que devem voltar ao Brasil. Retratos de Dom Diogo que devam ser conhecidos pelos brasileiros. Retratos de Dom Diogo pintados no Brasil e por todos os mestres brasileiros da arte do retrato que devam ser conhecidos por estrangeiros, pois a arte do retrato não é só a dos pintores antigos mas também a dos modernos; também a dos biógrafos, a dos romancistas, a dos historiadores, a dos críticos, a dos ensaístas, a dos poetas. Que todos pintam Dons Diogos. Quase tudo que é nobre, que é alto, que é significativo na cultura de um povo, é mais ou menos retrato de mulher ou de homem ou de povo inteiro. Retrato ou auto-retrato de Dom Diogo.
Quem fôr indiferente aos retratos dos Dons Diogos e não souber ter a paciência ou a pachorra de procurá-los e a coragem e o gôsto de revelá-los ao público, mas apenas a capacidade de assinar papéis, de redigir ofícios, de oferecer as próprias fotografias com dedicatórias mais ou menos banais a estrangeiros mais ou menos displicentes, não está sendo, como cônsul ou servidor público, fiel ao exemplo do segundo Rio Branco. Jayme de Barros volta de Paris cercado de retratos de Dons Diogos que êle procurou e achou, tendo deixado Paris cheio de outros tentos retratos de Dons Diogos levados do Brasil à Europa para que a Europa saiba que no Brasil também se pinta, também se escreve, também se compõe música, também se pensa, também se faz arquitetura, ao mesmo tempo que se planta café, se produz tecido, se faz açúcar, se cria gado de corte.
Cumpriu você esplêndidamente, caro Jayme, sua missão de representante da República brasileira na francesa. Merece as melhores homenagens dos brasileiros do mesmo modo que mereceu as homenagens dos melhores franceses.
PRESENÇA DO BRASIL ALËM DO ATLÂNTICO
Discurso de Agradecimento de Jayme de Barros
Meus amigos:
Rever a terra natal, após tão longa ausência, é renascer.
No mar, longe ainda, começa-se a reconhecer, numa misteriosa antecipação, o céu e as águas, a adivinhar as praias, a pressentir a presença do Brasil.
Mudam as tintas, altera-se a luz, abrasa-se o firmamento. São outras as nuvens. Os crepúsculos não agonizam mais nas tardes lentas, dissolvidos nas suaves côres derramadas pelo pálido sol europeu. Rápidos e violentos, descem na linha horizonte e afogam o dia nas escuras águas, de onde nasce, vermelha como um novo sol, a lua, sol dos dementes, dos sonhadores e dos poetas.
Além, na clara espuma, a praia da Iracema, as frondes das carnaúbas, os coqueiros do Recife, os canaviais de Pernambuco, as humildes igrejinhas brancas, as orgulhosas montanhas, os montes Guararapes e também Palmares. Depois, a terra que se ofereceu primeiro aos olhos ávidos dos descobridores.
Navegamos com as pequenas e intrépídas caravelas, tripuladas por aquêles bravos marujos portuguêses que dos mares arrancaram mundos, "e mais mundo houvera, lá chegara".
E numa esperança desmedida, que ultrapassa o tempo e vence o espaço, o Brasil ressurge aos nossos olhos, transformado numa prodigiosa nação. Vemo-lo, inculto e bárbaro, como a primeira vez que apareceu, e caminhamos com sua história: é a luta pela conquista da terra, a submissão do índio, a marcha para o interior, as batalhas contra os invasores, a exploração das riquezas, o avanço precipitado das bandeiras que alargaram e delimitaram as fronteiras, os braços negros fecundando o solo, o cortejo triunfal dos homens que fizeram a nossa grandeza.
Essa sensação telúrica e humana da pátria, êsse reencontro com as fôrças cósmicas que imantam o nosso solo, o contato com a terra, o céu e as águas que nos viram nascer, êsse cheiro das matas longínquas, êsse mistério das florestas invioladas, essa presença do Brasil, em alto mar, no sortilégio da noite enluarada, vale como uma ressurreição.
Quatro anos, andei perdido em estranhas terras, entre estranhas gentes. Fôrças não tive para servi-lo como merecera. Um sentimento de revolta dominou-me, ao vê-lo desconhecido, incapaz de vencer a ignorância universal. Passado o período da curiosidade científica de alguns viajantes notáveis, caiu sôbre nós o silêncio, apenas rompido por turistas apressados, à procura de peculiaridades exóticas e de pormenores extravagantes, sendo raros os escritores que tentaram um esfôrço maior para compreender e interpretar o Brasil.
Perdemos, de nosso lado, nesse domínio, o senso e a coragem das iniciativas. Enquanto os nossos antepassados fizeram História, contentamo-nos, quase todos, em comentá-las. Os ócios burocráticos, quando melhor se consomem, longe das futilidades mundanas, dos prazeres fáceis, da má literatura, consomem-se nas bibliotecas e nos arquivos. História fêz José Bonifácio. História fizeram Tiradentes e Pedro I. História fizeram os dois Rio Branco, Penedo e Nabuco, Caxias e Osório, Benjamin Constant e Quintino Bocayuva, Deodoro e Floriano. História fizeram Ruy e Patrocínio.
A política e a diplomacia são, por definição, fôrças construtivas na vida dos povos. Não as praticam, mas apenas dela se beneficiam, os que se inscrevem na legião inativa, os conscritos da falange sedentária dos comentadores, dos espectadores displicentes da História. Uma Nação que pára, voltada para o passado, é uma nação morta.
O Brasil não parou. Aqui mesmo, em derredor desta mesa, estão alguns construtores de sua História, em nossos dias. Nobre cavalheiro, de elegante porte e intrépida figura, Oswaldo Aranha, como Pedro I, entrou na História a cavalo, e a galope. Homem de idéias e de grandes paixões, humano e viril, aos quarenta anos já embranquecera a cabeça a serviço do Brasil. Vi-o em ação no Itamaraty, zeloso de nossas tradições, mas o olhar voltado par os ásperos problemas de nossa época conturbada, na crispação de dias de angústia e de luta.
História fêz êle ao mobilizar a América, dentro da nossa chancelaria, para firmar novas declarações de princípios na política continental, levando-a à guerra contra as fôrças totalitárias que ameaçavam reduzir o mundo à escravidão.
História faz Gilberto Freyre, mestre incomparável de minha geração, ao procurar descobrir com os próprios olhos, numa espantosa revisão de tôda a sociologia brasileira, os fundamentos, as raízes de nossa formação. Sua obra, estudo da terra e do homem, acompanha o desenvolvimento de uma cultura e de uma civilização únicas na América, ao interpretar e esclarecer o nosso passado, restabelecendo a dignidade das raças que construíram e sustentaram o Brasil – índios, negros, lusitanos, a que se juntaram povos de outros sangues – sua obra é uma estrada aberta para o futuro.
História faz Roquette Pinto, chefe, com Rondon, de bandeiras científicas do século XX, sôbre cuja obra trabalhamos todos nós e que, com o integrador do índio em nossa civilização, conquistou, em vida, o pedestal de sua estátua.
História faz, na Côrte Internacional de Justiça, Filadelfo Azevedo, mestre querido de minha mocidade.
História faz Francisco Campos, para cuja poderosa inteligência o Brasil não tem segredos.
História faz Assis Chateaubriand, fundando no Brasil um Museu de Arte, que já é dos melhores do mundo, realizando a Campanha Nacional da Aviação e a da Redenção da Criança.
História faz Cyro de Freitas Vale, exemplo de todos nós que trabalhamos no Itamaraty, na dedicação ao serviço, na nobreza do caráter e na coragem das atitudes.
História fazem ainda os economistas, os homens das altas finanças, diplomatas, políticos, sociólogos, juristas, artistas, escritores, jornalistas – e muitos dêles aqui estão – José Lins do Rego, Paulo Bittencourt, Elmano Cardim, Peregrino Junior, Austrigésilo de Athayde, Raymundo Magalhães Junior – que consagram o seu esfôrço de todos os dias a dar um sentido á nossa vida e a justificar o espaço que ocupamos no mundo.
E êsse esfôrço se torna cada vez mais necessário e imperioso. Não me cansarei de repetir que ainda somos o grande desconhecido. Por tôda parte nos ignoram, naquilo que existe de essencial e profundo na nossa vida, e, não raro, quando nos descobrem, pior para nós. Ainda hoje se poderia repetir aquela cêna do descobrimento, fixada por José do Patrocínio Filho, em uma de suas revistas teatrais. Na praia deserta, um índio divisa, ao longe, as primeiras naus descobridoras. Corre para o interior de sua taba e exclama: " Bonito, nos descobriram !..."
O patriótico orgulho com que olhamos êste admirável país, a ternura com que o amamos, sofrem, lá fora, além das águas atlânticas, vencidos outros mares, ultrapassadas outras montanhas, cruéis decepções. Já nem se fale mais na irremediável confusão geográfica. A História, a literatura, o nosso desenvolvimento econômico são desconhecidos. Os nomes dos nossos grandes homens aparecem trancados em livros, dicionários, jornais e revistas. Mas a culpa é nossa. Ao comentar o depoimento de Austregésilo de Athayde de que François Mauriac nunca ouvira falar em Ruy Barbosa, indaguei e respondi: " Pior para êle ? Não. Pior para nós". Pior para nós se na Europa ainda hoje se ignora que participamos das duas grandes guerras, e que, na última, depois de vermos afundado, à vista das nossas praias, um têrço da nossa frota mercante, mandamos à Itália um Corpo Expedicionário, muitos de cujos soldados dormem o último sono num cemitério perto de Florença, onde vi, numa noite enluarada, içada aos ventos a bandeira do Brasil.
Pior para nós se ignoram tudo isto. Nem assim deixaremos de cavar de novo a nossa trincheira, se necessário, para defender a nossa honra e vingar os nossos mortos.
O que se deve reclamar e permitir é esfôrço maior para o Brasil, no estrangeiro, uma expressão, fisionomia própria, a imagem animada do que realmente somos.
Gilberto Amado, privilegiado homem de pensamento, que também é dos que melhor fazem História, descobriu, certa vez, em Paris, com patriótico desencanto, que o grande sucesso era, então, ser peruano: " Je suis péruvien."
Depois, veio, no apogeu do tango, a fase do argentino, e, agora, no do samba, a do brasileiro, com algumas reservas de curare...
Já é tempo de mostrarmos o que melhor representa e define a nossa civilização. Bastaria, para tanto, um pouco mais de liberdade de ação, espírito de iniciativa e senso das responsabilidades. Na História, na literatura, na pintura, na música, ocupamos lugar destacado na América.
Mas, nessa propaganda da cultura e da inteligência, não deveria nunca interferir a política. A diplomacia precisa ser feita pelos diplomatas. Stendhal já dizia que "envolver a política na arte é dar tiros de revólver num concêrto". Infelizmente, muita gente anda armada e não gosta de concêrtos.
Quem indagará, hoje, senão por mera curiosidade biográfica, quais as idéias políticas de Cellini, de Donatello, de Miguel Ângelo, de Botticelli de Beethoven? Quem, diante da "Anunciação", da "Adoração dos Magos", do "São João Batista", de Da Vinci, pensará que êle engalanou Florença para receber Francisco I, vencedor de sua pátria, indo depois morrer, como seu hóspede, na França, no Castelo de Amboise?
Um artista é apenas um artista. E basta. O que conta é a sua arte.
Em vão me esforço desta homenagem. Por erguer-me à vossa altura, para merecê-la.
E só agora compreendo, meus amigos, diante desta festa, o claro sentido daquela sentença evangélica: " Amai aos vossos inimigos". Aos poucos que conquistardes, amai-os como a ninguém. Se tiverem sêde, daí-lhes água. Se fome, pão. Se enfermos, curai-os. Se se afogam, jogai-lhes um salvavidas....
Amai aos vossos inimigos como a ninguém. São êles que escolhem, elegem, impõem os vossos amigos. São êles o vosso estímulo, o vosso contraste, o guia dos caminhos que deveremos evitar, o nosso Anjo da Guarda, o nosso Arcanjo Protetor.
De minha parte, diante do vosso gesto, apenas vos digo: vale a pena viver, quando se tem amigos assim.
Fonte: FREYRE, Gilberto. Missão em Paris. Rio de Janeiro: Cruzeiro, 1951. 32p.
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