MODERNIDADE E MODERNISMO NA ARTE POLÍTICA
Aqui estou hoje, menos como sociólogo - o
sociólogo que generosamente me chamam alguns amigos e até alguns inimigos - e menos como
escritor - o escritor que pretendo ser desde a adolescência, não desejando desde
adolescente outro título, nem acadêmico nem de qualquer espécie, maior que o de
escritor - do que como um brasileiro de Pernambuco entre brasileiros de São Paulo; do que
como um dos muitos brasileiros de todo o Brasil, hoje convencidos da necessidade de ação
ou de atitude política de quantos entre nós tenham responsabilidades intelectuais: desde
o catedrático de universidade à professôra primária, desde o estudante de Direito ao
diretor de jornal da mais remota povoação do interior. Ação ou atitude política
diante dos acontecimentos exepcionais dos nossos dias.
Aqui estou a chamado dos estudantes de Direito de
São Paulo. Aos estudantes de São Paulo devo tanto quanto aos da Bahia e do Ceará, de
Alagoas e da. Paraíba, uma solidariedade que não esquecerei nunca: a que me chegou nos
piores dias da luta contra o estado-fortismo em Pernambuco, de todos os Estados do Brasil
aquêle em que êsse regime de caricatura ou essa caricatura de regime chegou às suas
maiores audácias contra os homens independentes, contra os intelectuais insubmissos,
contra os estudantes inconformados. À mensagem que recebi então dos estudantes da
Faculdade de Direito de São Paulo respondi com uma carta que misteriosamente se perdeu na
redação do jornal do Rio onde eu ainda colaborava e cujo diretor, intelectual e
paulista, estou certo de que foi alheio a êsse mistério de mal escrito romance policial.
Deixei de colaborar naquele jornal como deixei na mesma época de colaborar em La
Nación de Buenos Aires: no grande jornal argentino meus artigos, evidentemente à
revelia de seu diretor e dos seus redatores, começaram a aparecer alterados; e essas
alterações no sentido de se tornarem elogios ao "Estado Forte" do Brasil as
críticas que eu ousava fazer ao mesmo regime. Governada a policia ditatorial naqueles
dias por mãos ostensivamente arianas, não posso atribuir a mãos negras êsse mistério;
mas o certo é que o policialismo do "Estado Forte" tudo fêz, de todos os meios
se serviu, de tôdas as manhas, de tôdas as traças, de todos os abusos de poder, para
isolar do resto do país e dos amigos e correspondentes estrangeiros um simples
escritor tanto quanto possível independente. Diante dos abusos da censura policial nos
correios, deixei de escrever para revistas e jornais do Brasil e do estrangeiro. Deixei
também de responder cartas: tantas eram as que se extraviavam. Deixei de assinar revistas
essenciais aos meus estudos: tantas eram as que se perdiam, confundido, por ignorância ou
de má-fé, tudo que fôsse "sociólogico" ou "social" com
"socialismo", que para os policiais de um regime por algum tempo afeiçoado ao
nazismo só podia ser o marxista ou o bolchevista, então detestado e perseguido por
êles. Deixei de comprar livros: também êstes eram objeto de estranhos carinhos
policiais.. 0 que não deixamos, minha familia e eu, foi de resistir às provocações,
às ameaças, às intrusões em que vivemos longos meses em nossa casa de subúrbio,
cercada de dia e de noite por agentes ditatoriais, os muros da chácara pixados uma
madrugada por êles, os portões emporcalhados freqüentemente por êles, os amigos que se
atreviam a nos visitar, seguidos por êles, insultados por êles, ameaçados por êles,
agredidos por êles, inquiridos por êles, presos por êles, tudo a mando de chefes
decididos a vencer tôdas as resistências brasileiras ao estado-fortissimo. Um dêsses
amigos era estudante de Direito e se chamava Demócrito de Sousa Filho.
Quase tudo isso se passou depois do então chefe
nacional ter garantido a mim e a amigos meus, pela palavra de um dos seus secretários de
confiança - já que um lamentável desastre de automóvel quase lhe tirara a fala -- que
eu seria respeitado de modo absoluto em Pernambuco, onde minha prisão, em junho de 1942,
se dera à sua revelia e contra o seu gôsto. É verdade que o mesmo secretário deixara
transparecer o terno desejo do seu chefe de ver-me residindo confortável e quietamente no
Rio como se fora do Rio já não se sentisse senhor absoluto do Brasil. E estou hoje
convencido - e digo-o aqui aos paulistas como quem presta um depoimento de possível
interêsse histórico e concorre com êsse depoimento para a própria reabilitação, se
esta é possível, do sr. Getúlio Vargas - de que o aparente chefe absoluto do chamado
"Estado Forte" no Brasil já não era em 1942 senão um resto frio de chefe, um
simples e lastimável pedaço de chefe, quando muito um semi-chefe: a outra metade de
poder irresponsável exerciam-na já indivíduos inteiramente sem escrúpulos, empenhados
em alastrar pela traição, pela intriga, pela intimidação, pela mistificação, peia
adulação amolecedora e deprimente, as zonas de impotência política do ditador
avelhantado e cansado, consumido pelo próprio abuso físico do poder. Esta a justiça
que, estou certo, se fará um dia a um ditador vítima êle próprio da ditadura, tantas
vêzes semelhante ao feitiço que cai sôbre o feiticeiro. De modo que não fomos apenas
nós, homens da resistência aos abusos do estado-fortismo, as vítimas dêsse sistema de
devastação da saúde, da mocidade, da cultura, da economia, da inteligêneia dos
brasileiros.
Nós fomos as menores vítimas. As vítimas
principais foram os próprios devastadores, corrompidos por aquilo que Lord Acton chamou a
corrupção que vern do exercício do poder absoluto: uma corrupção que marca ou
assinala de tal modo suas vítimas que de longe elas, são reconhecidas; de longe sua
presença é adivinhada. E parecendo estar ainda vivas são na verdade mortos insepultos.
Tudo que no Brasil é ainda sobrevivência do estado-fortismo é indivíduo ou coisa
moralmente morta que pode empestar o ar das cidades e infectar o dos campos. É arcaísmo
que fora dos museus repugna ao senso mais elementar de modernidade que possua um homem.
Entre os brasileiros de São Paulo e os
brasileiros de Pernambuco sempre foram muitas as afinidades. Martius quando aqui estêve
no comêco do século passado destacou o fato de se encontrar entre paulistas e
pernambucanos o maior número de brasileiros instruídos. Mas não vem dessa inconstante
superioridade de instrução dos paulistas e dos pernambucanos sôbre os demais
brasileiros - pois todos reconhecemos a supremacia em saber acadêmico mais de uma vez
assumida no Brasil pelos baianos, pelos mineiros ou pelos maranhenses - a principal
afinidade da gente da velha província do Sul com a da antiga província do Norte. Vem
antes daquele ânimo ou gôsto de iniciar, de descobrir, de renovar, de antecipar, que
sendo um vivo característico dos paulistas, também se encontra entre os pernambucanos.
Que fêz dos homens de São Paulo e dos homens de Pernambuco os primeiros brasileiros a
substituirem os portugueses no esforço de colonização do Brasil, como notou uma vez o
historiador Abreu e Lima. No esfôrço de transformação da colonização do Brasil em
auto-colonização, como diríamos hoje.
Paul Adam reparou nos paulistas que conheceu em
1913 um excessivo desprêzo por tudo que fôsse passado, atraso, "en retard" e
um amor talvez exagerado por tudo que fôsse "avancé. Surpreendeu assim o arguto
francês na gente desta parte do Brasil o pendor modernista que não tem sido senão o
excesso de uma virtude: o gôsto, o ânimo, o espírito paulista de modernidade. Pendor e
ânimo que se encontram também, embora menos intensos, entre os pernambucanos.
No Brasil, quase tudo que é manifestação de
modernidade ou explosão de modernismo em política, em literatura, em indústria, em
pintura, até em religião e em ética, tem partido de São Paulo ou do Recife. Ou de
paulistas ou pernambucanos. Nos dias de Nassau, o Recife foi um centro tão escandaloso
não só de modernidade como de modernismo que os burgueses da Holanda não conseguiram
acomodar-se a tanta inovação perigosa. Um dia Nassau quase surrealistamente anunciou aos
recifenses que ia fazer um boi voar. E no fim de oito anos de arrojos experimentais do
conde - um europeu do Norte enamorado do trópico - desembaraçam-se aquêles burgueses
rotineiros de um dos maiores voluptuosos do modernismo na arte política e na arte da
administração que já floresceram na América. Desde então parece ter ficado no
pernambucano o gôsto de modernidade às vêzes extremado em furor modernista.
1710 foi um movimento modernista, senão de
sentido republicano, de tendência violentamente anti-lusitana. 1817 foi outro. 1824,
ainda outro. A "revolta praieira" também: anti-lusista e ao mesmo tempo
antifeudalista. 0 pernambucano Abreu e Lima - tão cheio do espirito de aventura que se
fêz soldado de Bolívar - foi um modernista em suas idéias e atitudes. Ao morrer no
Recife em 1856 teve que ser sepultado no Cemitério dos Inglêses: a Igreja Católica,
pelo seu bispo em Pernambuco, considerou-o hereje. A chamada "Escola do Recife"
foi modernismo do mais puro. 0 germanismo no direito, na literatura, na filosofia -
modernismo do mais cru. A "poesia cientifica" de Martins Júnior, modernismo do
mais louco com. aparência de lógico. 0 abolicionismo de Joaquim. Nabuco, não: êste foi
uma das manifestações mais saudáveis de modernidade em arte política que já houve
entre nós. Tanto que não se extremou sequer em republicanismo: o modernismo político em
que tantos paulistas e pernambucanos do fim do século passado se exageraram, com o
positivismo como um quase-cubismo que deixou na própria bandeira nacional sua marca.
Dos paulistas seria. supérfluo recordar que
sempre estiveram a frente, no Brasil, de movimentos de antecipação, de inquietação, de
sofreguidão pelo novo, pelo diferente, pelo moderno. Nos mais remotos dias da colônia,
já eram tidos pelos mais terríveis rebeldes desta parte da América. Ainda no século
dezoito, um padre paulista quis voar. Outro padre paulista, Diogo Antônio Feijó, foi
quase escandalosamente modernista em suas idéias de católico e de padre. 0
republicanismo foi em São Paulo que primeiro se sistematizou como modernismo político.
Em 1922, o modernismo brasileiro nas artes e nas letras seria um movimento principalmente
paulista.
Paulistas e pernambucanos se confundem em vir
sendo no Brasil os brasileiros de espírito mais constantemente moderno e às vêzes mais
exageradamente modernista. Mais de uma vez têm sido corrigidos em excessos de aventura
intelectual ou política, industrial ou estética, pelo espirito de conservação, de
prudência, de rotina, de tradição, de equilíbrio, de doçura na conciliação de
extremos, dos baianos e dos mineiros. Êstes são os maiores mestres de arte política em
nosso país justamente por ser a arte política, entre tôdas as artes, aquela que mais se
aprimora pela doçura na conciliação dos extremos: doçura tão do temperamento dos
baianos quanto da índole dos mineiros. Êles, baianos e mineiros, são os maiores e os
mais antigos mestres dessa arte no Brasil; nós, paulistas e pernambucanos, somos com os
homens do Rio Grande do Sul e de outras áreas, eternos aprendizes dessa arte. E por
sermos eternos aprendizes, nosso pendor é maior do que o dos mestres para as aventuras de
inovação, de experimentação, de renovação e até de revolução, sem as quais não
se compreende modernismo nem mesmo modernidade.
Admiramos os mestres; mas isto não quer dizer
que nos conformemos em que a arte política deva ser exercida apenas, ou quase
exclusivamente, por êles. Deve ser exercida também por aprendizes ou discípulos de modo
a serem os mestres influenciados pelos aprendizes, os excessivamente prudentes pelos
excessivamente inovadores, os exageradamente tradicionalistas pelos exageradamente
experimentalistas, mesmo quando êstes sejam mais modernistas do que modernos em seu
espírito ou em sua ténica de inovação ou experimentação. Feito isto, teremos
caminhado para a mais saudável das compensações: aquela que se obtém pela
interpenetração de antagonismos ou pela reciprocidade de influências, sempre tão útil
na parte política. É a lição dos inglêses, maiores mestres nessa arte do que os
próprios baianos ou os próprios mineiros. Donde se poder concluir que feliz é o povo
que, como o brasileiro, tem baianos e mineiros por mestres e paulistas e pernambucanos por
aprendizes de arte política.
De São Paulo, por ter sido e por ser ainda a
província brasileira por excelêneia da aventura, das Bandeiras, da inovação, da
experimentação, da renovação, e, por conseguinte, do modernismo nas artes, inclusive
na política - zona em que êsse modernismo já chegou em teoria até a essa espécie de
autonomismo desvairado ou de estadualismo enlouquecido que é o separatismo; de
São Paulo não se diga, numa generalização rígida, que só tem dado à política
brasileira aprendizes, uns de gênio, outros sem gênio. Pois brasileiro nenhum pode
esquecer ser esta a província materna dos Gusmões, dos Andradas e dos Prados, vários
dos quais têm sido em política antes mestres que aprendizes; dois dos quais foram talvez
os mais altos e completos homens públicos que a América portuguesa já produziu:
Alexandre de Gusmão e José Bonifácio.
Não precisei procurar seus nomes para com êles
fortalecer uma tese porque não são nomes que alguém precise de procurar quando fale de
arte política no Brasil: foram êles os maiores mestres que a difícil arte teve entre
nós e são ainda os mais visíveis porque verdadeiramente monumentais. Note-se,
entretanto, em ambos, o seguinte: nenhum dos dois foi mestre rígido que pela soberania do
gênio ou pela majestade do saber renunciasse, depois de consagrado ou velho, o direito ou
a alegria de continuar aprendiz, experimentador, homem de aventuras intelectuais, (José
Bonifácio, homem também de aventuras sentimentais, homem moderno embora nenhum dos dois
estritamente modernista.
Pois o modernismo implica em considerar-se
perfeito um momento que é ou foi moderno; em parar um homem ou um grupo na adoração
dêsse momento considerado todo ou quase todo insuperável; em sistematizar-se e até
cientifizar-se essa adoração como fêz ingênuarnente Martins Júnior com a poesia que
chamou cientifica. São Paulo teve entre seus homens públicos um modernista típico que
foi o sábio Pereira Barreto, corrigido e retificado com tanto brilho em alguns dos seus
excessos por Eduardo Prado, o anti-modernista extremo. E quem fala em São Paulo e em
modernismo, em geral, tem de referir-se mais demoradamente ao "modernismo" na
literatura e nas belas-artes que aqui se tornou escandalosa e revolucionàriamente em
tôrno de Mário de Andrade, de Anita Malfatti, de Guilherme de Almeida, de Tarsila e de
Oswald de Andrade: movimento considerável de renovação das letras e das artes que,
entretanto, envelheceu depressa pelo fato de se ter contraído e sistematizado numa quase
seita de adoração do que fôra apenas um momento ou um instante - instante didático,
libertador, revolucionário, violentamente anti-acadêmico - na vida do brasileiro criado
com muita gramática ou com excessivo respeito pelas academias.
Tôda adoração dessa espécie se torna, quando
passa de um instante, a própria negação daquele critério de modernidade, presente e
vivo na obra inteira de José Bonifácio e de todos que, sendo modernos, não são nunca
modernistas de seita. Adoração de que vigorosamente se desembaraçou Mário de Andrade
no fim da vida e de que cedo se libertaram Tarsila, Di Cavalcanti e o admirável mestre de
modernidade que é Oswald de Andrade, com o seu incessante ardor experimental e a sua
também incessante vigilância, não só crítica como auto-crítica. Essa vigilância
não permitiu que êle sistematizasse eu modo de escrever num modo de escrever
sectàriamente anti-gramatical e calculadamente modernista. Desde 1922 que Oswald de
Andrade escreve de um modo novo mas não fanàticamente novo: sem aquêles sinais
maçônicos que só os iniciados compreendem e admiram noutros "modernistas"
hoje arcaicos. Sem abusos de " gostosura", de sentenças começando com
"me", de diminutivos exageradamente açucarados. 0 mesmo estou certo que teria
acontecido a Antônio de Alcântara Machado se êle tivesse amadurecido, como amadureceu
Oswald de Andrade, no escritor moderno, e não simplesmente modernista, que prometia ser.
E não nos esqueçamos de Ronald de Carvalho, de Manuel Bandeira, de Carlos Drumond de
Andrade, de Sérgio Buarque, de Prudente de Morais Neto, de Tristão de Ataide, de Menotti
del Pichia, de Cassiano Ricardo, de Rodrigo M. F. de Andrade, de Afonso Arinos de Melo
Franco, de Emílio Moura, de Tasso da Silveira, de Flávio de Carvalho, de Aníbal
Machado, para só citar êsses. Para êsses, ou para alguns dêsses, o modernismo, apenas
na aparência é que foi um simples jogo de inteligêneia. Na verdade foi uma áspera mas
fecunda aventura, não apenas da inteligência ou da sensibilidade, mas da personalidade
inteira. Aventura necessária para o desenvolvimento de tantos inquietos em modernos: os
modernos saudáveis que são ainda hoje. Ninguém, entretanto, mais incessantemente
moderno no Brasil dos últimos trinta anos que o ex-modernista, o ex-antropofagista e
creio que o ex-marxista de seita, Oswald de Andrade, que proclamou êle próprio, numa das
melhores páginas do seu Ponta de Lança - a pagina 122 - ter sido dos que salvaram
o sentido do "modernismo" com a "antropofagia", isto é, com um
movimento post-modernista de superação do modernismo já meio oficial de Mário de
Andrade; ter sido dos que caminharam sempre, e decididamente, "para o futuro".
Ainda caminha. E poderia ter sido mais exato e
ter dito que concorreu para salvar o sentido moderno do "modernismo" brasileiro.
Oswald de Andrade foi, na verdade, dos que salvararn o sentido moderno do modernismo no
Brasil; dos que cedo se dispuseram a salvar o movimento iniciado em São Paulo em 1922 de
permanecer apenas seita modernista; dos que cedo se empenharam em salvá-lo de permanecer
apenas literário ou estético; dos que cedo procuraram não só pela palavra como pela
ação acrescentar-lhe sentido social e, dentro do sentido social, sentido político. E
êsse sentido político, o democrático.
Por tudo isso êle é como ninguém dentre os
sobreviventes do modernismo paulista de 22 um moderno ao lado do qual nenhum
post-modernista sente êsse não sei quê de desconfortável que nos comunica a presença
de um indivíduo intransigente ou ostensivo no seu modernismo de mocidade ou de seita, no
seu modernismo já superado por outros modernismos de que êle, entretanto, modernista
parado, não toma sequer conhecimento, conservando todos os cacoetes, todos os modismos,
todos os característicos de sua seita antiga e escrevendo pelos sinais maçônicos dessa
seita. Oswald de Andrade conserva do "modernismo" de 1922 o que havia de
revolucionàriamente e permanentemente rnoderno no movimento, do mesmo modo que um grupo
de homens, hoje já de meia-idade e alguns até de idade avançada, chamados
"tenentes", conserva na política brasileira o sentido revolucionàriamente e
permanentemente moderno do tenentismo de 22, de 24, de 30, seu sentido ético e político
de ação renovadora. É o que se salva dos ismos quando os ismos encontram
Oswalds de Andrade e Juracis Magalhães que os salvem: seu sentido de modernidade que é
também um sentido de continuidade criadora.
Através dessas aproximações ao assunto creio
ter, em parte, sugerido o necessário sôbre a distinção a têrmos em vista entre
modernidade e modernismo. 0 problema me parece que é psicológica e sociològicamente o
mesmo em qualquer arte. 0 mesmo, psicológica e sociològicamente, na arte política que
nas artes plásticas, por exemplo. Em tôdas as artes os modernistas passam e os modernos
ficam. Donde me ter aventurado uma vez a comparar um conhecido sistema de arte política
com um conhecido sistema de arte plástica, para ilustração do que seja modernismo em
oposição a modernidade em qualquer arte. Nessa comparação é que insistirei hoje,
dentro, aliás, do critério sociológico de análise das artes plásticas como
manifestação da mesma cultura que produz a arte política ou a arte industrial ou a arte
da bruxaria, já adotado, em curioso trabalho, por um dos mais notáveis críticos
paulistas dos nossos dias: Professor Sérgio Milliet, no seu ensaio Marginalidade da
pintura moderna. Marginais as artes plásticas porque, para o Professor Sérgio
Milliet, as artes plásticas e a música avançando, nas épocas de transição como a
nossa, mais que a economia ou a política, "na ânsia" de encontrarem "a
expressão certa do mundo novo", ultrapassariam "o estágio do público, mesmo
da elite", perderiam pé, destoariam da "cultura em formação". E ficariam
em estado de marginalidade: rejeitada pela civilização superada e incompreendidas pela
civilização nova ou em formação. Enquanto a arte política -- depreende-se, creio eu,
das palavras do critico paulista - não seria assim, não conheceria êsse conflito, não
experimentaria êsse drama, pois, segundo, o Professor Sérgio Milliet, "políticos,
economistas, administradores, mesmo os mais avançados, vivem de conluios e de
concessões".
Será certo que as artes plásticas e a música
se afastem tanto, pela sua intransigência, da arte política, da arte industrial e da
arte de administração? Será que estas artes podem ser caracterizadas pelo excesso de
concessões em que vivem os políticos, os economistas, os administradores? Ou não
sofrerão tôdas as artes - a música, as artes plásticas, a arte política, a
industrial, a de administração (tôdas elas, para o sociólogo, manifestações de
cultura diversas apenas na qualidade, e, por conseguinte, sujeitas, nas épocas de
transição, às mesmas aventuras de marginalidade) os efeitos do mesmo processo de
modernização? Modernização nos seus primeiros avanços quase sempre exagerada em
modernismo; depois aquietada, porém não estagnada, em sã e criadora modernidade,
obtida, parece que invariàvelmente, à custa de concessões ou conluios entre o novo e o
velho, entre o ímpeto revolucionário e a inércia invencível ou a tradição
irredutível, seja esta a que se encontra na política ou na economia, nas artes
plásticas ou na música, na dança ou na própria arte da modista. Pois não nos
esqueçamos de que há uma parenta pobre das artes, mais ilustres muito amada dos ricos e
chamada "moda"; e como lembra um ensaísta dos nossos dias, Júlio
Payrá, é a moda que particularmente se antecipa em anunciar o que as outras artes
exprimem menos visivelmente ou menos escandalosamente: o fim de uma época, de uma
civilização.
Creio que é antes isto do que a intransigência
absoluta de umas artes e a transigência excessiva de outras que se passa mais ou menos
com tôdas as artes em face do processo de modernização. Nas fases de transição de
cultura, esse processo parece alcançar a umas artes mais rápida ou violentamente do que
a outras, sem deixar, porém, de afetar, a tôdas, de tornar a quase tôdas instáveis, de
a tôdas alterar em suas formas que, entretanto, nunca se estabilizam em formas
inteiramente novas: terminam sempre retendo ou guardando alguma coisa das antigas, por
algum tempo consideradas pelos fanáticos do modernismo renovador, abomináveis, nefandas,
intragáveis, intoleráveis. Um dêsses fanáticos foi comparado, e muito bem comparado, a
Savanarola.
É claro que nem de longe pretendo dar hoje ao
assunto o desenvolvimento que êle merece; nem serei eu o mais competente para fazê-lo. 0
que trago aos meus amigos de São Paulo é uma simples "nota prévia" que talvez
venha a desenvolver um dia em ensaio ou estudo. Pois o paralelismo de
desenvolvimento entre as artes ou as várias manifestações ou exteriorizações
artísticas ou quase-artísticas de cultura, sendo assunto, já enfrentado magnìficamente
por um mestre da altura do Professor Sorokin, tem ainda aspectos virgens a ser explorados
ou considerados. E um dêles talvez seja êsse da arte política ser menos diversa do que
parece, em seu processo de modernização - sempre contrariado pelo de regressão ou de
conservação - da arte da dança ou da arte da pintura ou da arte da arquitetura. Aliás
Havelock Ellis consideraria tôdas essas artes manifestações de uma só: a dança da
vida. E o certo é que em tôdas elas deparamos com períodos de modernismo que são
também períodos de fanatismo. Ou de revolucionarismo "heróico", puro,
ortodoxo.
O cubismo foi decerto, nas artes plásticas, um
dêsses períodos de fanatismo ou de revolucionarismo "heróico" que na arte
política é ainda atravessado pelo marxismo-comunista. Pois êste tendo deixado de ser
"heróico" na Rússia, ou para os russos, continua a sê-lo para aqueles que,
fora da Rússia, ainda a supõem em fase heróica de intransigência marxista, de
ortodoxia revolucionária, de purismo fanático.
Parece que na arte política tais períodos de
fanatismo tendem a prolongar-se mais do que nas artes plásticas, sem que deixe de haver
semelhança nos seus modos de formação, nos seus métodos de desenvolvimento e nos seus
efeitos de ação. Os historiadores do cubismo destacam o fato de revelar êle pontos de
contacto com a arte sem figura humana de Islam, atribuindo alguns essa afinidade à
circunstância de terern sido dois dos seus principais criadores, Picasso e Gris,
"filhos da Espanha" que alguém já chamou "inquisitorial e moura".
Mas não se esquecem de recordar que o movimento foi étnica e culturalmente heterogêneo
nas suas origens, embora principalmente espanhol (elemento representado por Picasso),
francês (elemento representado por Braque) e eslavo (elemento representado por
Apollinaire). Ora, quase o mesmo se tem dito do marxismo: também êle revela pontos de
contacto com uma cultura antiga: a hebréia; com um sistema severamente religioso: o dos
profetas do Velho Testamento. Ao mesmo tempo agiram sôbre sua formação e sôbre seu
primeiro desenvolvimento elementos nacionais diversos: o alemão, o francês, o inglês, o
eslavo. Entretanto, um e outro foram, ou continuam a ser, revoluções internacionais:
duas das maiores revoluções internacionais de todos os tempos.
E é interessante, do ponto de vista
sociológico, assinalarmos coincidências entre os dois movimentos, isto é, entre suas
formas, seus métodos, seus processos de agressão à ordem estabelecida quer nas artes
plásticas, quer na plástica social, esta, até certo ponto, obra de arte política. São
métodos diversos tanto dos do expressionismo como dos do anarquismo, duas outras
coincidências que toleram e até pedem estudo sociológico. Ambos - cubismo e marxismo -
surgiram violentos em sua agressão à ordem estabelecida e aos valores dominantes. 0
cubismo querendo tudo nas artes plásticas reduzido a formas geométricas simples, a
formas apenas associadas entre si por um processo mental, a volumes puros, a linha justas,
a exemplos como que didáticos de uma nova gramática da pintura, da escultura, da
arquitetura. 0 marxismo, também: seu primeiro ímpeto foi substituir uma gramática de
arte política por outra violenta e inteiramente nova. Cubismo e marxismo apresentaram-se
como "científicos", como matemáticos", como "anti-românticos",
quando na verdade seus criadores ou sistematizadores foram como Apollinaire ou como Marx,
como Picasso e como o próprio Engels, homens antes românticos que matemáticos, antes
poéticos que científicos em sua formação, em seu temperamento, em suas concepções da
vida e dos outros homens. 0 estudo de Marx como poeta está feito magistralmente por um
dos maiores críticos do nosso tempo, Edmund Wilson, num ensaio, Finland Station, que
recomendo à melhor atenção dos estudantes paulistas; o estudo de Picasso como outro
grande poeta do nosso tempo está igualmente feito, em páginas sugestivas, por Joan Merli
- "Picasso es um filósofo pero también es un lírico" - e por outro espanhol,
Ramón Gomez de la Serna, para quem dentro de Picasso há quatro homens lutando e
estimulando-se: "o mudejar, o mourisco, o universal romano, o espanhol". Êsses
conflitos de culturas, mais do que de homens, dentro de um indivíduo só, tendem sempre a
produzir antes poetas do que lógicos, antes profetas que cientistas puros. Marx, segundo
outro dos seus intérpretes mais Iùcidamente críticos, o Professor Lewis Mumford,
procurou esconder sua "visão apocalíptica de profeta judeu" sob a aparência
de pesquisa severamente erudita dos fatos; e denominou seu esquema antes filosófico, que
cientifico, de sociologia ou de economia política, de "ciência", para
"esconder até de si próprio suas profundas solicitações emocionais e sua atitude
essencialmente religiosa diante do destino humano". Duas qualidades que dariam
àquele esquema semi-científico "o poder de atrair o apoio dos deprimidos e dos
desesperados dentre os homens da massa".
Não terá Picasso sido semelhante a Marx neste
ponto? Não terá sido um homem para quem o cubismo foi, por um lado, uma herança de
cultura islâmica - reatada, atualizada e exagerada por êle no seu aspecto
experimentalmente estético - e por outro lado, um meio de conter-se, e ao seu
espanholismo, ao seu fanatismo, ao seu intensismo ibérico, ao seu anarquismo peninsular
dentro de cubos disciplinadores, aos quais acabou, entretanto, corrompendo com sua fôrça
poética, como um adolescente que corrompesse sua governanta alemã com a fôrça do sexo?
Cubos dos quais acabou libertando-se para novas aventuras de personalidade lírica. E
tanto em Marx, comunista "científico", como em Picasso, cubista
anti-sentimental, encontramos exemplos de revolucionários que se esquivariam a permanecer
fanáticamente dentro dos seus próprios sistemas modernistas. É que um e outro eram
grandes demais para serem modernistas. Transbordaram do modernismo. Permanecem modernos.
Continuam modernos. Enquanto os sistemas modernistas para cuja criação concorreram mais
com seu gênio poético do que com sua inconstante meticulosidade científica são, cada
dia mais, sistemas superados, ultrapassados, excedidos por outros sistemas, embora de modo
nenhum destruídos ou aniquilados, nem o cubismo por quanto anti-cubismo se tem levantado
furiosamente contra êle, nem o marxismo por quanto anti-marxismo se tem inventado para
reduzi-lo a pó.
Do sistema sociológico e, ao mesmo tempo,
econômico e político, ligado ao nome de Marx e de Engels, parte considerável se acha
incorporada, ou em processo de incorporação, às ciências sociais e à engenharia
social ou à arte política. Nessas ciências e nessa arte, ninguém hoje pode dizer-se
moderno, nem pensar ou agir modernamente, sem ter passado não digo como um adepto -
embora não haja mal nenhum na fase de experiência, prática ou iniciação marxista por
que passe um adolescente mais sôfrego ou inquieto dos nossos dias - mas como um estudante
do marxismo. Pelo estudo do marxismo é que melhor se chega àquela conclusão de Mumford
de que nesse sistema o fundamentalmente errado está na rigidez de suas categorias. Uma
rigidez de categorias que lembra, seja dito de passagem, o esquemático da concepção
cubista da natureza. São categorias segundo as quais, como observa Mumford, as
"relações materiais" seriam sempre a causa, e não uma das bases, de tôdas as
relações humanas, fazendo-se confusão constante de "causa" com
"base" e exclusão sistemática - exclusão a que não nos autoriza o estudo
sociológico das sociedades e das culturas, - da base ideal, ou não-material, daquelas
mesmas relações. Pois o que se sabe hoje é que em qualquer sociedade ou cultura humana
os aspectos políticos, artísticos, religiosos de sua vida ou organização nem precedem
os técnicos ou os econômicos nem tampouco decorrem passivamente dêles. São, como dizem
os sociólogos mais modernos, "orgânicamente relacionados".
Outro ponto em que o marxismo foi tão
simplistamente modernista em arte política quanto o cubismo nas artes plásticas foi em
esperar que, abolida nas slociedades ou, pelo menos, reduzida, a hierarquia que se exprime
em classes - espécie de equivalente, na plástica social, da perspectiva na pintura - e
aclamado o proletariado "classe única" - "classe única" bem
alimentada, bem vestida, bem abrigada - cessariam todos os motivos de luta entre os
homens, como se das novas condições de vida não surgissem novos motivos de
insatisfação, de inquietação, de luta. Pelo que críticos como o já citado Professor
Munford acusam o marxismo de ter caído na mística vitoriana de "happy end".
A verdade é que os desenvolvimentos sociais
excitados ou estimulados pelo largo emprêgo da eletricidade nas sociedades mais
adiantadas só tem feito, como salienta outro crítico atual do marxismo, o Professor
Lancelot Hogben, diminuir, nas sociedades que fazem maior uso de eletricidade, a
tendência para a proletarização da classe média. Tendência entrevista por Marx como
geral e irresistivel. 0 Professor Hogben vem demonstrando, em estudos objetivos e
inteligentes, que não: o emprêgo cada dia maior da eletricidade vem exigindo número
cada dia maior de peritos, de técnicos, de especialistas nas sociedades britânicas e,
por conseguinte, reduzindo, entre elas, a tendência para a proletarização - no sentido
de pauperização - da classe média. Esta é que vem se expandido numa espécie de classe
única com várias sub-classes.
Nos Estados Unidos é também o que se tem
verificado: e ali de forma ainda mais acentuada. É o que mostra Alfred Bingham no seu Insurgent
America: outro trabalho sociológico que sendo de orientação pós-marxista não é,
de modo algum, anti-marxista. Recomendo-o também aos estudantes de São Paulo que
porventura ainda ndo o conheçam. Como lhes recomendo os estudos do Professor Myrdal
sôbre a Suécia e o admirável ensaio em que um pensador britânico, o Professor John
Macmurray, sobrepõe ao marxismo sistemático ou sectário o que denomina "democracia
constrativa" ou "democracia positiva" diversa da negativa, que seria a
liberal ou liberalona.
A democracia "construtiva" ou
"positiva" do Professor Macmurray baseia-se no reconhecimento do fato de que os
problemas humanos são hoje principal ou primàriamente econômicos: um fato pôsto
violentamente em relêvo pela revolução marxista em sociologia, em econômia e em
política. Daí ser impossível uma democracia econômica, sem que se faça obra de
planificação social, tècnicamente centralizada mas politicamente descentralizada: com o
máximo de participação, nesse esfôrço, do homem comum através do seu município ou
da sua comuna. Na revivescência da democracia local ou municipal que, felizmente, é hoje
uma das preocupações mais vivas entre os brasileiros empenhados na renovação da nossa
vida política e na organização democrática das relações entre os grupos rurais e os
urbanos da nossa população, estaria o meio mais simples de se fazer coincidir a
democracia política com a econômica, a rural com a urbana. Pois nada nos autoriza a
acreditar com Marx que a vida rural seja o que êle considerou, num excesso de modernismo
ou de cubismo político, uma "vida idiota" que deva ser sistemàticamente
substituída pela generalização da estrutura urbana ou metropolitana a tôdas as
áreas de atividade humana. Nesse afã de subjugar de todo ao complexo urbano a natureza -
que teria reduzidas suas curvas rurais às retas, aos ângulos, aos cubos urbanos - o
modernismo marxista como que se antecipou ao cubismo picassista, também empenhado no que
um critico alemão, Wilhelm Hansenstein, chamou muito germânicamente de
"desnaturalização da natureza pela forma". Desnaturalização atingida, no
cubismo, por uma nova ordem dada à representação plástica das coisas e do corpo
humano, quase reduzidos a pretextos para criações geométricas. Por isto André Salmon
chamou ao cubismo de "pintura equação" do mesmo modo que se poderia chamar ao
marxismo de "política-equação". Pretendendo servir-se só do cubo, do
paralelepípedo, das formas piramidais e da esfera, o cubismo foi, nas artes plásticas,
um equivalente do marxismo. Pois êste na arte política ou na engenharia social, procurou
ser absolutamente, fanàticamente, rìgidamente linear, esquemático, cúbico.
Le Fauconnier, em experiências de pintura
cubista do corpo humano, acabou descobrindo um novo ritmo de composição baseado em
esquema cúbico-trigonométrico. 0 mesmo conseguiu Braque. Donde o cubismo ter se tornado
o "fanatismo sectário" a que se referem Hansenstein e outros críticos.
Hansenstein, porém, vai mais longe em sua análise quase sociológica do fato e comenta
que com êsse fanatismo "estreitou-se o horizonte" para os pintores que se
tornaram fanàticamente cubistas. Mas nunca - adianta êle -"movimento artístico
nenhum deixou de ser isso", querendo referir-se a movimentos artísticos
revolucionários ou reformadores. E tendo sido o cubismo "uma reação dialética aos
neo-impressionistas", como o marxismo fôra uma reação dialética aos
hegelianistas, não encontrou outro meio de afirmação senão a violência. Ambos foram
movimentos fanáticos e sectários violentíssimos. Mas sem êsse fanatismo, sem êsse
sectarismo, sem essa violência, sua revolução teria se limitado a tempestades em copos
d'água parlamentares ou em vasilhas de lavar pincéis. Pela violência modernista,
marxistas e cubistas abriram caminhos para a modernidade em que começamos a viver hoje,
tanto nas artes plásticas como na engenharia social ou na arte política. Sem o cubismo,
talvez ainda estivéssemos na fase de arranba-céus em estilo gótico ou em estilo
mourisco, como os da fase paleotécnica de Nova York; ou na pintura puramente anedótica,
costumista, literária, sentimental ou naturalista do século XIX. Sem o marxismo o talvez
continuássemos a pretender resolver os problemas de engenharia social com a democracia
liberal ou com o parlamentarismo do século XIX; os problemas da miséria, com a
filantropia apenas sentimental.
Com a continuação da violência, porém, e do
fanatismo, do sectarismo, do modernismo revolucionário, remédios e médicos teriam
destruído o doente antes de Ihe curar as feridas. Nas artes plásticas, como na arte
política - aquelas revolucionadas pelo cubismo, esta pelo marxismo - às violências
renovadoras sucederam-se acordos, transigências, acomodações, concessões,
entendimentos entre o violentamente novo e o imperecível, o permanente, o eterno em
tôdas as artes. Derain, por exemplo, não tardou a afastar-se do cubismo, que o salvara
do academicismo decrépito, para aproximar-se do relativo naturalismo ou classicismo em
que conseguiu fazer obra já de sabor moderno mas sem nenhum ranço modernista. Em arte
política, já haviam começado a fazer o mesmo, políticos de formação marxista.
Políticos que vêm conseguindo, desde os fins do século XIX, conciliar métodos e
princípios de sua formação didáticamente marxista com a técnica post-marxista. Uma
combinação de passos de dança livre com movimentos de exercício de ginástica
aprendida em colégio. E através dessa conciliação, abandonaram êles a rigidez ou a
disciplina modernista e tornaram-se criadoramente modernos, uns sob o nome de
"fabianos" ou "trabalhistas", outros sob a denominação de
"socialistas reformistas", alguns até sob a de "socialistas
cristãos" ou "solidaristas"; ou mesmo de neo-marxistas. Os continuadores
dêsses homens transigentes é que são hoje, não apenas modernos, mas moderníssimos, na
arte política de contemporização, enquanto os que se conservam intransigentemente
marxistas ou fanáticamente anti-marxistas são "modernistas" ou
"anti-modernistas" superados já por várias gerações de pós-modernistas.
Escreve William Orpen em The Outline of Art,
referindo-se principalmente aos cubistas, que seria um êrro afirmar-se que, em pintura,
as experiências dos extremistas foram experiências sem valor. Técnicamente êles
abriram o caminho para um novo realismo: o realismo moderno que é todo diverso do
pré-cubista.
E nesse novo realismo, o sisudo crítico de arte
britânico pensa que a "estrutura firme" e o "desenho rígido" dos
cubistas se combina com uma verdade e uma beleza de côr que se derivam de inimigos por
êles duramente combatidos: os impressionistas ou os neo-impressionistas. 0 que, sendo
exato, como parece ser, indica que, ao contrário da suposição do ilustre crítico
paulista de pintura, sr. Sérgio Milliet, a modernidade nas artes plásticas, como a
modernidade na arte política, se mantém ou se desenvolve, através de transigências,
contemporizações, acordos, concessões, entendimentos entre vários ou sucessivos
modernismos e o que é indestrutível na tradição clássica.
0 que Orpen diz dos cubistas, em relação com a
pintura moderna, pode-se talvez dizer dos marxistas, em relação com a política moderna.
Êles nos enriqueceram a arte política e a arte da administração com "a estrutura
firme" e o "desenho rígido" do seu sistema, sôbre o qual se desenvolveu a
moderna técnica de planificação. Ora, sem a técnica de planificação não se concebe
mais engenharia social. Mas não é só: como cubistas políticos, os marxistas puseram
para sempre em relevo a antes dêles quase esquecida democracia econômica, sem a qual
não se concebe mais organização democrática. Ainda mais: êles tornaram
dramàticamente claro o fato -- como destaca mais de um sociólogo moderno - de que os
métodos e princípios capitalistas em vez de leis da natureza, são produtos de arte ou
de cultura humana, podendo ser; assim, substituídos por outros métodos ou princípios
que correspondam melhor que aquêles à natureza humana, em vários de seus aspectos
condicionada, embora de modo algum rigidamente determinada, pelas condições técnicas ou
econômicas de vida.
Superado o marxismo pelas teorias e experiências
de democracia post-marxista, ultrapassado por elas, excedido por elas, essa superação
não nos deve fazer esquecer o fato de que sem a teoria e a experiência marxistas não
haveria a atual democracia social: nem a cooperativista nem a experimentalmente socialista
nem a planificista. São tôdas tipos post-marxistas de democracia que, em países como a
Grã-Bretanha, a Suécia, a Nova Zelândia, a Austrália, a Dinamarca, o Uruguai, os
Estados Unidos, já se apresentam com resultados capazes de nos fazer acreditar no inteiro
êxito de avanços verdadeiramente revolucionários no sentido de uma nova e complexa
organização das relações entre os homens. Por muito tempo, entretanto, essa nova
organização conservará traços marxistas visíveis ou pronunciados, embora unidos a
outros traços - inclusive os cristãos - em combinações que Marx não previu. Nem
previu nem desejou. Combinações impostas, umas pelos desenvolvimentos sociais de novas
condições técnicas que o grande e arguto judeu - tão grande que não caberia hoje em
nenhum partido marxista, tão arguto que provavelmente não seria hoje nem leninista nem
trostkista - não chegou a entrever ou a considerar, como o largo emprêgo da eletricidade
nas indústrias e na vida das comunidades modernas; outras, conseguidas pela arte de
conciliação de antagonismos ou de extremismos em que são mestres, ainda mais que os
pintores capazes de combinar cubismo com impressionismo, os políticos capazes de combinar
materialismo econômico - que, aliás, não deve nunca ser confundido com o materialismo
vulgar - com idealismo cristão, parlamentarismo britânico com tecnicismo vebleniano.
E é o que se vem verificando nos últimos
decênios e continua a se verificar nos nossos dias, inclusive, como é do conhecimento de
todos, dentro da própria Rússia: a superação dos modernismos políticos do século
passado e dos começos do atual. A superação do modernismo revolucionário pela
modernidade criadora.
Entre os modernismos superados, aquêle que
venho, considerando o equivalente político do cubismo e que, pela sua ação
violentamente revolucionária das teorias e dos métodos capitalistas de ocupação e
representação do espaço social, foi, ao meu ver, o maior de todos: o marxismo.
Superação - acentue-se bem - e não destruição. Superação. Conciliação de
critérios: principalmente do critério de tradição com o de experimentação. Tal tem
sido essa conciliação que desde a vitória do Partido Trabalhista na Grã-Bretanha já
nos podemos considerar, em assuntos de engenharia social, no inicio de uma dessas fases de
modernidade criadora que quase sempre se sucedem aos períodos simplistamente radicais e
violentamente revolucionários.
Alguns característicos da fase post-marxista de
teoria e metodologia democrática em arte política e em engenharia social já podem ser
reconhecidos. Um dêles - a "acumulação sistemática de fatos sociais" em que
a Sra. Helen Merrell Lynd vê, com inteira razão, em livro recente, um dos
desenvolvimentos mais significativos na política de transição britânica do liberalismo
econômico para o socialismo democrático de hoje - é de especial interêsse para os que
se preocupam com o estudo sociológico dos problemas a serem enfrentados e, se possível,
resolvidos, pela arte política e pela engenharia social dos nossos dias, depois de
situados e esclarecidos pela sociologia e pelas demais ciências do homem. Pois sem êsse
estudo - e sem outros estudos de caráter científico dos mesmos problemas - não se faz
obra sólida de organização ou reorganização em sociedades complexas como as modernas,
rebeldes a quanto cubismo político, sociológico ou econômico parta do princípio de que
sua doutrina linear ou absoluta já é a síntese das sínteses e dispensa novos esforços
de análise: a não ser os destinados a confirmações agradáveis do que está escrito em
livros como que sagrados, obras de grandes profetas ou de grandes revolucionários
necessários mas insuficientes: indestrutíveis mas ultrapassados.
Há dez anos, falando aos estudantes de São
Paulo, foi êste o meu tema. Procurei então alertar a inteligência da gente mais nova
desta parte do Brasil contra a suficiência doutrinaria dos simplistas de qualquer
espécie. Continua a ser esta uma das minhas maiores preocupações.
Fique bem claro, entretanto, que não se trata de
opor à arte política a ciência política ou à engenharia social a ciência social como
se nessa oposição estivesse outra solução messiânica para os problemas da nossa
época. Sou dos que de modo nenhum acreditam em política científica; dos que de modo
nenhum desejam a substituição do político, que deve ser principalmente um artista ou um
engenheiro social, pelo cientista. Êsse cientificismo foi um dos característicos do
marxismo nos seus dias mais enfáticos na Europa, hoje revividos na América do Sul pelos
representantes retardados de uma doutrina já superada em tantos pontos por outras
doutrinas. Consideram-se êles os donos de uma "ciência certa" ou da
"única ciência verdadeira" com a qual fácil Ihes seria concertar todo o mundo
e seu Pai.
Fora dos marxistas retardatários creio poder
afirmar-se que não existe hoje, entre políticos, mística cientificista: aquela mística
cientificista que, no Brasil, teve, nos últimos anos do século passado, tão grandes
entusiastas: o já lembrado Pereira Barreto aqui em São Paulo, por exemplo; em
Pernambuco, o também já recordado Martins Júnior, modernista de fim de século que foi
um verdadeiro lírico na sua crença na "política científica" ao mesmo tempo
que na "poesia científica". Fracassou estrondosamente em ambas, para ser
recordado hoje pelas boas páginas que escreveu sôbre história do direito e pelos bons
exemplos que nos deixou de altivez e de honestidade. Mas não é de admirar. Na própria
Europa e nos Estados Unidos, houve quem supusesse que depois de Comte ou de Darwin, de
Spencer ou de Marx, tudo se resolveria em política e em ciêneia social através da
aplicação aos problemas humanos de conceitos ou métodos de ciência mecanista. Através
do quantitativismo, denunciado vigorosamente por Ritchie e hoje repelido pela melhor
ciência social.
Do que parecem estar convencidas as
inteligências mais lúcidas que se preocupam com os problemas de organização ou
reorganização social é de que tais problemas exigem soluções sociais - soluções
sociais quanto possível cientìficamente sociais; mas através de meios políticos que
não são, nem podem ser, principalmente científicos, mas principalmente artísticos.
Pois o dia do político, que é essencialmente um artista, não passou e talvez não passe
nunca. Nem o cubismo matou o artista nas artes plásticas substituindo-o pelo geômetra
nem o positivismo ou o marxismo destruiu na política a figura do artista político,
substituindo-o pelo técnico ou pelo cientista da administração. Como artista, o
político é hoje uma figura tão viva, tão necessária, tão moderna, como nos melhores
dias da Grécia ou da polis. Como cientista, é que êle foi um modernista
necessário mas superado. Necessário para trazer à arte política o contacto com a
ciência, admitido, como está hoje, que sem êsse contacto a arte política pode
degenerar em bruxaria sociológica. 0 ideal é que o político, o artista político, seja
hoje um homem de formação não apenas jurídica ou legalista, mas principalmente
cientifica ou técnica - como é o caso de Stafford Cripps, quimico, o de Henry Wallace,
agrônomo, o de Bevin, operário, o de Benes, sociólogo - mas sem que sua formação
científica ou técnica seja sua única recomendação para o serviço público e para a
atividade política. Sua principal recomendação para a atividade política deve ser sua
capacidade para exercê-la como artista. Ou como político. Pois política é arte, é
dança, é ritmo e quem fôr incapaz de arte, de dança, de ritmo pode passar pela
política como um grande modernista revolucionário - violento, duro, hirto; nunca com o
vigor e, ao mesmo tempo, a graça de um moderno de todos os tempos que pratique a
sabedoria da contemporização sem sacrificar o essencial das harmonizações ao
simplesmente formal.
Saudação a Gilberto Freyre
Vicente Marotta Rangel ( 1º Orador do
"Centro Acadêmico XI de Agôsto")
Quando, ao aceno mágico do vosso nome, houve por
bem o Centro Acadêgmico "XI de Agosto" convocar o desvêlo, a cultura e
a inteligência de São Paulo, dúvidas jamais desmereceram da nobre repercussão do
convite. Que, de feito, os acadêmicos de Direito de há muito se vêm fazendo conhecer
como os paladinos das boas causas; e que a vossa presença teria o efeito singular de
suscitar na alma paulistana a grata perspectiva de abrasar-se na flama das preocupações
sadias pelo destino de nossa civilização ameaçada.
A prova, é manifesta. 0 povo, de São Paulo aqui
acorreu, prof. Gilberto Freyre, em representação sugestiva e prestigiosa. Vêde-o nesta
sala, a maior da cidade, que se tornou pequena para contê-lo! Vêde-o, reivindicando o
dever de escutar-vos e o direito de aplaudir-vos !
Viestes falar em modernismo, em modernidade, em
arte, em política - palavras que parecem seduzir pelo encanto druídico do mistério, que
as envolve; não o fôssem pela sugestão expressiva que convosco adquirem, sê-lo-iam
pela ressonância especial que ganham nesta sala, cujas paredes já as ouviram com
estrépito e ardor e cujo teto parece ter-se arqueado como, para poder conter o ardor e o
desempeno daqueles moços que há quase cinco lustros, sob inspiração do futurismo
nascente, idealizaram a Semana de Arte Moderna - de que tomou em Pernambuco curso
semelhante o movimento que então encetáveis, promovendo a realização do Congresso
Regional do Recife, em prol de um novo regionalismo, de um novo brasileirismo, de um novo
humanismo. Movimentos que se não tiveram a mesma orientação e a mesma identidade de
princípios, como vós o acentuastes, porque vos preocupava, e ao grupo que em vosso
derredor se agremiou, o regionalismo, o tradicionalismo, o particular, o concreto, a
prevenção natural contra os apriorismos fáceis e as generalizações simplistas, o afã
de beber na fonte do pretérito as lições imperecíveis - tiveram, contudo, o mesmo
sentido de "reação de caráter meio primitivista e meio romântico, contra os
abafos do classicismo acadêmico", e, principalmente, animando-os, o espirito
louvável de independência, de destemor, de zêlo pelos problemas nacionais, cujo
conhecimento direto e integral é quase sempre penoso aos que embotam a sensibilidade sob
as sugestões da rotina, e com o difícil comodismo dos que se refestelam na curul
maciamente burguesa da existência. Dir-se-ia, destarte, que a vossa presença no Teatro
Municipal de São Paulo, quando vos propondes a discorrer sôbre Modernismo e Modernidade,
faz sugerir a comemoração de um ciclo de renovação de nossa cultura, dinâmico e
tempestuoso, ciclo que já deve ter transcendido o paralelismo dos movimentos iniciais e,
dêsse modo, ter-se completado e articulado, como energias que se recompõem e se
restabelecem para impulsionar, quem sabe, convulsões de maior porte, como águas que se
confundem e tumultuam no mesmo rio, e rios que se adunam e se interdependem na mesma
pátria, fervilhando, estrugindo, acachoando.
Aos moços de hoje é, pois, sumamente
prazenteiro reverenciar a mocidade dêsses impulsos, sobretudo, quando o podemos fazer na
vossa pessoa, prof. Gilberto Freyre, a quem não poderá atingir a incriminação de
André Gide aos homens de seu tempo: a de não se terem mantido fiéis à mocidade. Não
é outra senão essa a razão pela qual perdura entre vós e a juventude brasileira,
compreensão a mais ampla e entusiasta, que se evidencia nas vicissitudes que vos têm
assoberbado, e como ainda o demonstrais na naturalidade das atitudes e das fórmulas
verbais, na despretensão das lições vivas e sinceras.
Fiel à mocidade, tendes permanecido. A
erudição, as pesquisas árduas, o pó dos arquivos, a meditação afatigante e
persistente, todo o esfôrço que se adivinha na contextura de vossas obras, não vos
alhearam das preocupações com que a primavera da vida vos inquietou. Foram elas, ao
revés, o motor das vossas atividades, o segrêdo do vosso êxito. Não vos deixastes
isolar nos silêncios das tôrres de marfim, porque a vossa concepção de vida pela vida,
o vosso ativismo, o impulso criador dos que atendem à miséria dos que padecem, dos que
se torturam com as mazelas de que se afistula a nossa civilização, dos que se premunem
contra a instabilidade social, dos que se angustiam com a corrupção, a masorca, o
caudilhismo -tudo vos tem mantido em ardente contacto com a mocidade brasileira, cuja
pertinácia é a vossa, cujas lutas são as vossas, e cujas inquietações tantas vêzes
dolorosas são as vossas próprias inquietações, e cujo desassombro tantas vêzes
heróico tendes testemunhado, ao de perto, na hora tenebrosa e lutulenta, em que
imperaram, no fastígio degradante de sua irresponsabilidade, o desmando policial, a
perversão governamental, o nazismo oficioso, o crime em praça pública, os atentados
traiçoeiramente premeditados e pasmosamente impunes contra o idealismo da mocidade
indefesa - dessa mocidade que se chamou Jaime da Silva Teles em São Paulo, e se
chamou, no vosso Pernambuco, Demócrito de Sousa Filho, de quem lado a lado vos
encontrastes no momento fatal, nesses momentos cruciais de nossa civilização, que cumpre
sempre recordar para que o fogo da vigilância se mantenha eternamente aceso!
Quando é chegado o inicio das reconstruções
definitivas -abluídas as chagas da subserviência política nas águas lustrais da
redemocratização nacional - a mocidade que, é certo, não deixa de pervagar ainda
ansiosa, tentando perscrutar nos longes claridades reconfortantes, se orienta nas lições
recentes que aprendeu e cujo significado não saberá esquecer.
0 momento é o da reconstrução; a solidez da
obra, a argamassa resistente, os alicerces inabaláveis, eis os objetivos imediatos.
Inquieta-se ela, porém, com a deficiência do material com que se propõe a edificar a
nova cidade: o depauperamento das energias morais, a ausêneia, muita vez, dos programas
definidos, o vazio das substâncias doutrinárias, o legado sombrio de um govêrno de
arbitrio e desatino. Dir-se-ia que se faz mister urqentemente um movimento cívico de
ampla envergadura, que se avolumasse irresistivelmente, e ecoasse pelos nossos rincões,
levando de quebrada em quebrada a fôrça do seu impulso, conclamando a consciência moral
da nacionalidade, acicateando as anseios adormidos e recônditos, levedando a sociedade do
fermento cristão, acrisolando inteligências, forjando vontades, para que se conjurasse
de imediato esse estado mórbido em que nos encontramos, de ceticismo, de apatia, de
dissolução, quando a miséria e a fome constituem uma realidade pungente, quando a
degradação econômica do pais não reflete apenas o vulto anômalo das guerras, quando
se abate do céu à terra brasileira a penumbra de uma noite que parece avizinhar-se, e
onde se acoitam os negativistas a fim de proclamarem que a sistema invertebrado de nossa
sociedade não pode sustentar o corpo da fé democrática!
A solução, contudo, vós a tendes entremostrado
com méritos indiscutíveis. A solução também são as nossas tradições legítimas, a
seiva que delas emana alimentando o cerne da civilização brasileira; é a compreensão
do nosso povo, suas características sociológicas, étnicas, culturais, religiosas,
folclóricas, lingüísticas, as suas fraquezas e os seus méritos, as suas misérias, os
seus anseios, a sua nobreza, a sua complexidade; é a história entrevista não de relance
e à superfície, a história social e cultural que não se limita apenas a ser uma
espécie de crônica aduladora de dominadores, mas "as expressões de dominados, de
recalcados, de oprimidos", através da utilização de técnicas e métodos de
pesquisas entre sociedades primitivas. A solução é o regionalismo orgânico cujo
desenvolvimento representa a unidade orgânicamente brasileira. A solução é a terra, é
o povo, é o sertão, é o passado brasileiro. É o roteiro orográfico que inflete para
essas serranias voltadas para o sertão, que o atormentado e agreste Euclides da Cunha se
esmerou em transpor. É o estudo científico das bases da experiência pre-histórica
brasileira, da formação complexa do nosso povo, sem o que, como vós o acentuais,
"a tentativa de aplicação ao nosso caso de fórmulas exóticas baseadas na
experiência exclusivamente européia, é mais do que simplista, é ridícula". Essa
é a solução que vós abraçastes e a que tendes propiciado o desvêlo dos estudos
sociológicos, a análise ponderada e percuciente dos problemas étnicos e sociais, mercê
do que adquiristes uma autoridade indiscutível, de inestimável valia, mormente quando se
estão estruturando as vigas mestras de nossa Constituição, e de que ainda há dias,
destes testemunho expressivo, quando vos batestes pela abolição do preconceito racial e
pela franquia e incentivo da imigração portuguêsa.
Com um programa de brasileirismo, tradicionalista
e ao mesmo tempo ativista; conservador, e ao mesmo passo criador, poderemos encetar uma
jornada construtiva, objetiva e democrática, de que se banam os erros, se argúam as
incompetências e se esvurmem as opressões, jornada que seja delineada pelo senso das
nossas realidades sociais, colimando a regeneração do elemento humano, exigindo
entendimento geral, esfôrço amplo e inadiável, realizador e concreto, de tal sorte e a
tal ponto que possamos dizer o que da vossa geração dissestes: "Nós somos a
geração dos que não gritam como desesperados, porque temos perigo imediato a enfrentar
".
Professor Gilberto Freyre: A mocidade acadêmica
de São Paulo, por intermédio do Centro Acadêmico "XI de Agôsto", tem
a elevada honra de, neste momento, saudar-vos como expressão lídima da cultura devotada
e do espírito indomável do nosso povo, que bem reflete essa idéia de domínio, de
distinção verdadeiramente heráldica, que vislumbrastes nos velhos casarões de engenho
da região nordestina, e de que pusestes exemplo no de Megaípe-de-Baixo em Pernambuco, e
no de Itapuá na Paraíba, idéia que se transfunde na argamassa e óleo de baleia das
casas-fortes, no conjunto dos torreões, na harmonia das arcarias e dos balcões, no
encanto que a simetria das suas linhas proporciona, qualidade que o vosso retiro de S.
Antônio de Apipucos reteve e aprimorou - distinção heráldica e idéia de domínio que
em vós transparece com nitidez e realce, e ante as quais nos curvamos reverentes, na
expectativa indissimulável da vossa palavra, jóvem, autorizada e incisiva.
Saudação do escritor Oswald de Andrade
Sabiamos que Gilberto Freyre estava sitiado em
Apipucos, que a sua defesa diária e pessoal coincidia com a própria defesa da liberdade
no Brasil. Mas ignorávamos que ao mesmo tempo seu cérebro de mestre incansável da
pesquisa social elaborava uma filosofia mais que oportuna e necessária dentro da crise do
presente. E que completando a sua grande estréia, no Parlamento, êle daria a São Paulo
uma amostra dos resultados obtidos nesse árduo caminho - o de traçar uma estrada em meio
da confusão, o de indicar um roteiro em meio do caos e da intriga. Mais ainda nos importa
isso, quando os dois documentos que produziu consolidam também uma atitude política, a
atitude que uniu os brasileiros livres e fêz derramar o seu sangue nesse "curto
prazo de quinze anos". Gilberto Freyre tornou-se assim, o líder da Resistência
nacional. E como essa resistência teve os seus baluartes nas Faculdades de Direito, hoje
aqui êle se encontra com os estudantes na vitória como em Recife se encontrou com os
estudantes na batalha.
E se encontra também com os intelectuais de São
Paulo, que paralelamente vêm com êle lutando por um Brasil autêntico e novo, desde 22.
Nessa época, agimos como semáforos, anunciando o levante de Copacabana, a revolução de
24, a Coluna Prestes e afinal o tumulto dos tempos novos.
Resultado dessa evolução crivada de
revoluções é a Constituição que êle com tanta sabedoria situou, mostrando como os
descompensados e os novos-ricos preferem o rococó de confeitaria às varandas acolhedoras
da tradição e à higiene dos respiradouros modernos. Nela não quiseram que entrasse o
sol do divórcio. Para que no gineceu, donzelas joguem o pif-paf de "maillot" à
espera do casamento indissolúvel. E nas suas malhas permaneça o brasileiro de fila até
ser levado à policia como comunista porque não quer comer o pão que o diabo amassou.
Em todo caso, graças à Resistência,
"legem habemus". Se não temos pão, temos lei. 0 Brasil do anão Vargas tinha
que ceder ao Brasil da Semana e ao Brasil dos Tenentes.
Ontem foi a vez de situar Gilberto a era convulsa
que se seguiu ao marxismo de combate. Eu não acredito que seja preciso abandonar Marx
para com isso concordar. A era que se anuncia é uma era de pacificação e de síntese,
onde têm que ficar para trás os esquemas e os sectarismos. É a era anunciada pelo
sistema de Teerã, onde cabem tanto o russo Litvinoff como o americano Browder e o
católico Maritain.
Ergo meu copo aos pequenos heróis de Apipucos,
os filhinhos de Gilberto e a sua grande companheira d. Madalena Freyre.
Saudação ao professor Gilberto Freyre
Heraldo Barbuy
Professor Doutor Gilberto Freyre,
Sinto-me comovido com a honra que tenho de vos
falar em nome dos intelectuais paulistas. Quando o Centro Acadêmico "XI de
Agôsto" me convidou a traduzir nesta reunião, a admiração dos intelectuais de
São Paulo pela vossa obra, não aceitei essa missão nem como orador, nem como sociólogo
- qualidades que me faltam - mas apenas como quem reconhece em vós um poderoso analista
da sociedade brasileira, intérprete duma determinada maneira de ver a história, sem
confundi-la com a crônica, mas dando-lhe ao contrário um conteúdo filosófico e
cultural, que é o único elemento que nos possa fornecer o meio de compreender os
caracteres e os estilos peculiares de uma nação.
Quanto mais procuramos definir o alcance de vossa
obra, tanto mais nos convencemos de que sem ela haveria um vácuo na história da cultura
brasileira. Êsse mérito, professor Gilberto Freyre, ninguém jamais vos poderá negar.
Por certo, vossa obra tem sofrido entre nós algumas restrições; mas essas restrições
não derivam sendo da seriedade com que vossos livros são lidos, da extensão dos
problemas que vos têm preocupado e por vêzes também da originalidade dos pontos de
vista em que vos tendes colocado. E se a nossa admiração pôde parecer menos fácil é
exatamente por ser mais ponderada e mais profunda.
Não, vos atemorizou abordar em vossos livros o
problema das raças no Brasil. Fizestes inquirições pormenorizadas e objetivas e
sobretudo o vosso mérito consiste em haver levantado o véu que se estendia sôbre fatos
de que, por falso pudor patriótico, era tàcitamente proibido falar. Refiro-me ao
problema da mestiçagem em certas regiões do Brasil e cujos efeitos sociais eram
relegados ao segundo plano por aquêles intelectuais que faziam da histôria um tema
puramente literário. Entretanto vossa obra nos apresenta os fatos sociais que estudou sob
uma perspectiva realmente cultural e histórica. E vivemos numa época em que os problemas
sociológicos e históricos adquiriram capital importância, porque o passado começou a
ser visto, não como um lastro morto e sim como algo de vivo, como um passado atualizado e
agindo no presente. E nesta visão histórica que encerra o passado no presente, era
preciso evitar o êrro da unilateralidade em que incidem aquêles que pretendem encontrar
uma causa única do desenvolvimento histórico como se a história fôsse mecanismo e não
vida. Era preciso evitar a interpretação exclusivamente econômica da história,
incluindo-lhe o conteúdo social da cultura, não como acidente e sim como elemento
substancial, decisivo da história e talvez mesmo como resultado e resumo, como síntese
da historia.
A lacuna essencial do materialismo histórico -
segundo me parece - consiste em atribuir às formas da produção econômica, o milagre de
todo o desenvolvimento histórico, inclusive do complexo dos fenômenos culturais e
espirituais, incorrendo assim no paradoxo de fazer o qualitativo derivar do quantitativo
por um golpe de mágica do mecanismo dialético. Mas em vossa obra, Professor Gilberto, as
circunstâncias econômicas, não ocupam o lugar de causas decisivas senão apenas o lugar
que Ihes compete de fenômenos históricos e correlatos a tôdas as outras circunstâncias
paralelas. Porque em verdade nunca vos foi possível suportar a prisão de fórmulas
proféticas e definitivas, nem ignorar que no processo histórico tudo se realiza como num
complexo de causas e de efeitos, que todos se subentendem e se compreendem.
Numa circunferência podemos tomar
arbitràriamente qualquer ponto como ponto de partida se quisermos ignorar que todos os
outros pontos também poderão, com a mesma facilidade, ser considerados pontos de
partida; foi assim que procederam os intérpretes unilaterais dos fatos históricos e
sobretudo os materialistas, quando, no complexo das circunstâncias, tomaram as formas da
produção econômica como ponto de partida e causa determinante dos demais fatos sociais,
ignorando que outras circunstâncias também poderiam com a mesma facilidade ser
consideradas arbitràriamente pontos de partida igualmente autênticos. É que, como bem o
demonstra vossa obra, os mesmos fatos podem ser perfeitamente explicados por doutrinas
diversas.
A estreiteza de visão nunca foi uma qualidade
vossa, professor Gilberto Freyre. E se vossa doutrina pôde ser acusada de eclética, não
é por outro motivo senão porque a realidade mesma é eclética, e o que procurastes
respeitar foi a realidade e não as teorias que procuram explicá-la. E neste sentido, o
vosso respeito pela realidade objetiva e o vosso desprêzo pelas teorias infalíveis são
qualidades verdadeiramente clássicas. Precisamente o desespêro dos escravos de fórmulas
é que os fatos sociais se recusem a fechar-se dentro de esquemas e dentro de postulados
de teorias definitivas. Mas o que constitui o desespêro dos escravos de fórmulas é
justamente o que vos dá essa liberdade espiritual que vos faz repelir, por um lado os
preconceitos dum materialismo transacto e por outro as divagações místicas do
sentimentalismo literário.
E essa liberdade é a que se reflete em vossa
movimentada existência política. Evidentemente, sois socialista no sentido próprio do
têrmo, um socialista particularmente agudo para a visão dos dramas sociais. Sois
socialista no sentido superior do têrmo, porque detestais a injustiça e porque repelis
tudo quanto na vida não seja poesia e cultura. Mas também repelis com a mesma
violência, os Estados Titânicos, os Estados Onipotentes que, governando aparentemente em
nome das massas operárias, não governam em verdade senão em nome duma pequena elite de
burocratas e funcionários. Não me refiro absolutamente a países mas ùnicamente a
fatos. A vossa luta, professor Gilberto Frevre, é a luta por um mundo mais humano e mais
justo, por um mundo em que não haja capitalismo opressor mas em que também não haja
ditadura burocrática. Porque a ditadura burocrática á a pior, a mais nefasta, a mais
nefanda, a mais insuportável de tôdas as ditaduras. A ditadura do Estado Onipotente, a
ditadura da burocracia, onde quer que se implante, converte a sociedade em rebanho, o
homem em escravo, pondo em atividade os instintos primitivos da espécie e não os
atributos espirituais do indivíduo. Entretanto, como bem disse Nietzsche, o indivíduo é
a mais acabada e a última das criações históricas.
Se lutamos contra as injustiças do mundo atual
é porque queremos dilatar a espiritualidade do homem e não reduzi-lo à condição de
peça da máquina que trabalha por conta do supercapitalismo estatal. Procuramos uma
solução anticapitalista, mas também, uma solução antiburocrática, anti-estatal, uma
solução anticoletivista. Para nós a vida é espírito e não mecanismo, é
organização e não organismo.
Professor Gilberto Freyre: No sentido em que
estão colocados os problemas atuais, e dada a vossa cultura, dado o alcance de vossa obra
já realizada, dada a vossa projeção nacional e internacional, tendes uma
responsabilidade enorme em face das gerações inteligentes do Brasil. Sois um guia de
quem muitos perguntam para onde se dirige a fim de saber para onde devem dirigir-se.
A nossa homenagem é o tributo de admiração que se presta a
um homem, cujo nome ficará profundamente gravado na história das Letras e na história
da cultura nacional. É a homenagem que se presta a um espírito inteligente, sincero e
amigo, uma afirmação de crença em valores não rotineiros, não submissos, mas
independentes, livres e superiores até à sua própria celebridade.
Fonte: FREYRE, Gilberto. Modernidade e modernismo na arte política. São Paulo, 22 jun. 1946.
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