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Assinatura de Gilberto Freyre
Opúsculos  



PALAVRAS ÀS PROFESSÔRAS RURAIS DO NORDESTE


Minha palestra de hoje será um pouco o que em Sociologia científica se denomina, com algum desdém, "sermão sociológico". Isto porque, a considerações sôbre "o que é" - sôbre a realidade sociológica como ela é - acrescentarei algumas sugestões em tôrno do que "deve ser", isto é, de modificações, a meu ver desejáveis - a começar por modificações de atitude - dentro da atual situação social brasileira, ou em face dessa situação. Modificações a que nos autoriza, ou parece nos autorizar, a própria Sociologia científica.

A Sociologia estritamente científica, porém, é uma sociologia que procura analisar, descrever, explicar, interpretar situações; quando muito diagnosticar e prever desenvolvimentos nessas situações; indicar prováveis consequências dêste ou daquele rumo que se tome no modo de considerar-se uma situação ou um problema. Quando o sociólogo vai além dêsses limites e esboça sugestões de reforma social, é claro que não arbitrárias, mas orientadas pelo seu conhecimento científico de situações, de problemas, de condições sociais - sugestões tendentes a modificar tais situações ou a corrigir desajustamentos, - sua Sociologia deixa de ser puramente científica para tornar-se aplicada; para adquirir alguma coisa de arte, como a arte médica do clínico, em relação com a ciência - ou as ciências - em que se baseia a técnica ou a arte dos médicos, dos clínicos, dos cirurgiões; para tornar-se o que alguns denominam engenharia social, tal como a Sociologia praticada por homens como o Padre Lebret, e que é, em grande parte, uma sociologia menos do que é do que do que deve ser; e deve ser, é claro, que dependendo da atitude filosófica do engenheiro social em face dos problemas humanos de convivência.

A parte sociológica do urbanismo é engenharia social como é engenharia social a planificação regional, hoje tão empregada no Ocidente, e quase sempre em correspondência com uma filosofia social - o dirigismo, o intervencionismo do Estado - que é o opôsto do laissez-faire da democracia liberal nos seus extremos. Aliás não se compreende atualmente urbanismo aparte dessa planificação regional; nem planificação regional em que não se considerem problemas de relações interregionais - isto é, de dentro da região - e interregionais, isto é, de relações de uma região com as outras.

Não se pode separar o homem das condições sociais e de cultura nem da sua época nem da sua região. O homem não é abstratamente homem mas sua condição humana toma aspectos concretos conforme a região onde êle viva, a cultura em que esteja situado e o tempo em que decorra sua existência: a sua época. Êste conjunto de situações é mais poderoso em sua influência sôbre a formação social de um indivíduo biológico ou na definição dêsse indivíduo em pessoa social que sua condição étnica - sua raça - e que sua própria constituição biopsíquica. Raça e temperamento tendem a variar de diversos modos da normalidade estabelecida, sob a pressão de diferentes influências sociais e de cultura.

Isto é certo do homem cujo espaço de residência e de atividade principal, inclusive a profissional, seja o urbano ou do homem cujo espaço de residência ou de atividade mais característica seja o rural. Si neste espaço - o rural - o contacto do homem com a natureza é maior - maior seu contacto com o sol, a lua, as estrelas, a terra, as águas, as árvores, as plantas, os animais - nem por isto deixa de ser um contacto influenciado por agências sociais e por instituições culturais em vigor no mesmo espaço e na época em que vivia o mesmo homem: pela religião, que lhe dê, desde que nasça, ou desde que nasceu, noções culturais e não espontaneamente naturais sôbre astros, águas, terra, árvores, animais; pelo folclore, que representa uma sabedoria oral, tradicional, porém igualmente cultural, vinda da inteligência e da sensibilidade dos homens, e não brotada da natureza; pela escola, que lhe dê explicações racionais a respeito da natureza - inclusive da natureza humana; e hoje, pelo cinema, pelo rádio, pela música chamada em conserva, isto é, em disco. Agentes, todos êsses, culturais que vêm afetar as atitudes do rústico e não apenas do ruralista com relação à natureza - inclusive, repita-se, a natureza humana. A natureza do próprio homem situado no meio natural: sua natureza sob a forma de ser cultural, histórico, modificador do meio natural.

De modo que nem mesmo o rústico dentre os ruralistas escapa de todo, - nem mesmo em redutos ou ilhas sociológicas, de pequenos grupos humanos quase isolados das maiorias culturais que os rodeiam e dos conjuntos culturais que fluem no tempo, afetando nas comunidades, embora desigualmente, tanto os grupos urbanos como os rurais; nem o rústico - dizia eu - escapa à cultura, ao tempo, à época em que vive. Ou de que vive em maior ou menor dependência.

Estamos hoje, por exemplo, muito no Ocidente e, em grande parte, no Oriente, num tempo ou numa época que se caracteriza, como salientam os sociólogos modernos, pelo domínio da técnica: técnica baseada em ciência experimental. Os processos industriais é do que dependem: de técnicas desenvolvidas de ciência assim experimentais. A moderna arquitetura não pode ser separada da técnica e da ciência, para resolver em casas de residência e edifícios públicos problemas de saneamento, ventilação, aeração, luz, refrigeração, calefação. O ensino moderno é em grande parte científico. O vestuário vem sendo alterado pela ciência. O móvel, também. Também a horticultura, a floricultura, a lavoura, o cuidado com os animais. Os próprios sistemas de recreação de crianças e adultos. E é interessante notarmos, a êste propósito, que várias das simplificações de móvel, vestuário, alimentação consagradas pela ciência são no Brasil valores ou estilos de origem rural. A camisa por fora das calças, a sandália, a rêde, as comidas de milho, as de mandioca, a coalhada.

Sabemos todos que a química, ainda mais que a eletricidade, vai hoje até às donas de casas, para ensinar-lhes novas técnicas de cozinha e de conservar alimentos, como se as cozinhas fossem um pouco laboratórios; e chegam até ao lavrador rústico. Mesmo ao analfabeto ou ao quase analfabeto, vai a química moderna sob a forma de conhecimentos de sólo que lhe são transmitidos oral ou experimentalmente; sob a forma de inseticidades; sob a forma de substância de combate a pragas; sob a forma de adubos comerciais. Temos aí o engenho industrial urbano, a ciência acadêmica das cidades, a serviço das gentes rurais e das suas lavouras e criações.

De um sociólogo norteamericano, que foi um dos primeiros a se especializarem no estudo da vida rural, o Professor Gillette, é o reparo de que vivemos numa época de especialização. Vivemos numa época não só de técnica e de ciência - como salientam todos - mas numa época de especialização. Especialização intensa nos meios urbanos, ela já se estende aos meios rurais, embora o ruralista continue, neste particular, um ser enciclopédico em comparação com o urbanita típico, que, fora da sua especialidade, está quase perdido no labirinto urbano. Enquanto o ruralista é ainda obrigado por sua própria situação em meio menos especializado em funções, a juntar à atividade agrária, por exemplo, outras funções - a função de médico, por exemplo; a de veterinário; a de mecânico; às vezes a de mestre-escola; em alguns até a de substituto de padre que ouça os rústicos sinão em confissão, em desabafos ou queixas confidenciais.

Daí a educação do ruralita dever atender a dois pontos: o fato de que nele a instrução técnica e científica deve começar a aplicar-se a assuntos especìficamente rurais e ao fato de que todo o sentido dessa instrução - todo o sentido dessa educação - deve corresponder a exigências de conhecimentos gerais maiores que os exigidos por meio urbano. Donde não só o agrônomo ou o zootécnico, como o professor ou a professôra rural, o padre rural, o médico rural, o farmacêutico rural, deverem juntar à sua especialidade conhecimentos gerais, quase inúteis num especialista urbano, mas necessários e até essenciais a um técnico ou especialista cuja atividade tiver de exercer-se em meio rural. Daí, também, a necessidade de todos êsses especialistas que se destinem a espaços rurais serem iniciados no conhecimento de uma sociologia da vida rural que desperte neles a atenção para problemas especìficamente rurais de relações entre pessoas umas com as outras e entre grupos uns com os outros; inclusive para o que nesses problemas é psicológico ao mesmo tempo que social. Êste conhecimento é particularmente necessário ao professor ou à professôra rural. Tanto quanto o padre êles tem de lidar com almas.

Lembre-se sempre o agrônomo ou o zootécnico ou o professor ou o padre ou o médico ou o advogado ou o farmacêutico ou o dentista que vai exercer ainda jovem suas atividades em meios rurais, que vai lidar com seres humanos diferentes em várias das suas atitudes e dos seus modos de ver, de pensar, de sentir, dos urbanitas desdenhosos, até, de certos estilos urbanos de vida e de cultura. De modo que qualquer dêsses especialistas jovens que, depois de instruido durante anos em instituição urbana, vá para meio rural animado do propósito de aplicar novas técnicas ou novos processos científicos à agricultura ou à pecuária ou a veterinária ou à medicina ou ao ensino, deve lembrar-se de que, em qualquer dessas atividades, não vai lidar apenas com terras, solos, plantas, animais, doenças, escolares, mas com seres humanos condicionados pela sua situação rural. Dêles deve o adventício aproximar-se lembrando-se de que são seres humanos regionalmente condicionados: condicionados por tradições, crenças, superstições, mitos, que devem ser considerados com o máximo de atenção psicológica.

Pois não nos esqueçamos de que em aparentes superstições da gente rural podem estar refugiados conhecimentos de valor para o cientista, o técnico, o homem culto, sôbre plantas, animais, valores regionais. Si há superstições evidentes que devem ser habilmente combatidas em gente rústica e habilmente substituídas por conhecimentos científicos, outras crenças rústicas devem ser consideradas expressões de sabedoria popular ou folclórica, às vezes valiosas como sugestões para o próprio cientista que siga o conselho de Camões: o de não desdenhar-se a sabedoria dos velhos. E os velhos rurais guardando, como guardam, muita superstição despresível, guardam também muita sabedoria aproveitável. Os velhos, as mulheres, os analfabetos rurais, todos guardam conhecimentos folclóricos sôbre aspectos regionais, de natureza e de vida, que, quando gerais, antigos e persistentes, nunca devem ser sistemàticamente despresados mas cuidadosamente examinados por agrônomos, zootécnicos, veterinários, médicos, professôres rurais, farmacêuticos, sacerdotes que cheguem a um meio rural, com a sua ciência em flor adquirida em academias ou escolas apenas urbanas.

Como líderes em potencial de comunidades rurais, professôres, padres, agrônomos, veterinários, médicos, farmacêuticos rurais e até certo ponto, magistrados e advogados - em geral, transeuntes nos meios rurais, ainda mais que as professôras e os padres - em vez de se comportarem nessas comunidades como exilados de olhos voltados nostàlgicamente para meios urbanos, devem integrar-se o mais possível nelas. Dada a atual disparidade entre meios urbanos e meios rurais no Brasil, tais atividades guardam ainda, quando exercidas em meios rústicos, alguma coisa de ação ou esfôrço missionário. E a atividade dêsses missionários deve ser a de profunda identificação e simpatia com os meios rurais, com sua gente, seus problemas, suas angústias, com as artes domésticas, populares, folclóricas peculiares a êsses meios, como a da renda em Caruarú, por exemplo, a da cerâmica em Taquaretinga, a de trabalhos de palha em Águas Belas, a de bonecas de pano em vários povoados do Nordeste, e também de identificação uns com os outros - agrônomos com padres, veterinários com professôres, médicos com zootécnicos, farmacêuticos com advogados - pois nenhum dêsses trabalhos em meio rural alcançará êxito, sinão sob a forma de esforços que de técnicos se alarguem em campanhas sociais: esforços de cooperação sociològicamente orientados e para os quais deve concorrer tôda a gente mais culta.

Erra o agrônomo empenhado na introdução de técnicas científicas num meio rural delas necessitado que não buscar a cooperação psicológica e social do padre, da professôra, do boticário, dos velhos, das mulheres, e até a do trovador ou cantador popular que houver na região. Nada de tecnicismo hirto e fechado: como o agrônomo ou o veterinário em meio rural, o professor ou a professôra deve ser um líder de reconstrução social; e não apenas um técnico. Deve ser um animador de valores, possibilidades, aspirações locais e não um simples técnico isolado do meio e cheio da preocupação de ser promovido para atividade urbana. Deve ser um intermediário ou mediador entre valores urbanos e valores rurais e não um sectário só dos valores urbanos ou apenas dos valores rurais. Deve juntar sua voz à do professor, à do padre, à do médico, no esfôrço da justa valorização do que é rural na civilização brasileira e na merecida exaltação daqueles indivíduos que têm dedicado o melhor da sua vida e da sua inteligência à agricultura, à pedagogia, e à medicina rurais; e à pecuária, à agronomia, à veterinária.

Como já tem observado mais de um sociólogo, se o ruralita nasce e cresce cercado de sugestões, livros, revistas em que só são glorificados os valores urbanos e injustamente despresados os rurais, como esperar-se que, sendo inteligente, êle queira continuar a ser ruralita em vez de vir para as cidades tornar-se industrial, advogado, professor de faculdade, comerciante? Acertou a Universidade Rural de Pernambuco quando conferiu pela primeira vez sua láurea máxima a um homem que vem dedicando a vida, o saber e o talento à valorização de terras pernambucanas: o agrônomo Moacyr de Brito. E acertada andaria também, a meu ver, se decidisse publicar, em cooperação com a Secretaria de Educação do Estado, numa série de folhetos, escritos em linguagem simples, acessível até a crianças, e com ilustrações adequadas, as biografias de grandes ruralitas da região: homens como o Manuel Cavalcanti da "cana Cavalcanti", como Carlos Lyra, de Serra Grande, como Paulo Salgado, do Cabo, como Inácio de Barros Barreto, como Costa Azevedo, como o felizmente ainda vivo Antônio Alves Araújo, que, pernambucano já de mais de 80 anos, continúa a orientar a Sociedade de Agricultura de Pernambuco. Não ha ruralita adulto ou criança que não se deixe influir no seu ânimo pela valorização justa que se fizer de homens que outra coisa não têm querido ser na vida sinão ruralitas; e que, como ruralitas, têm prestado ao Brasil serviços ainda mais valiosos que os de alguns dos mais glorificados urbanistas. Os ruralitas precisam de encontrar o seu Caxias; e de fazer dêle um herói nacional igual ao grande Duque.

Sabe-se que no Estado de Iowa, nos Estados Unidos, fez-se há anos interressante experimento em escola rural, antes e depois do ensino nas mesmas escolas, de Agricultura e de Economia Doméstica Rural, cujo fim era precisamente o de concorrer o ensino para a integração das crianças e adolescentes no seu meio - o rural - e para a valorização dos elementos dêsse meio. Antes dêsse ensino, dos 164 alunos de várias escolas, 157 responderam à pergunta "O que deseja fazer na vida?" que desejavam abandonar o campo, a lavoura, a vida rural; das 174 meninas, alunas das mesmas escolas, 163 responderam no mesmo sentido. Depois de três anos de ensino daquelas matérias com sentido ecológico, isto é, ligando-se a imaginação, a sensibilidade, a inteligência de meninos e meninas ao meio nativo, rural, 162 de 174 meninos e 161 de 178 meninas responderam à pergunta, dizendo-se desejosos não de abandonar os meios rurais, mas de permanecer neles.

Cabe à professôra, ao médico, ao magistrado e ao padre rurais juntarem seu esforço ao do agrônomo no sentido da valorização do que, sendo rural na vida, no passado, na cultura brasileira, vem concorrendo para dar estabilidade, prestígio, originalidade ao Brasil como país jovem que começa a afirmar-se com país criador e não apenas imitador de cultura; como terra de vegetais úteis à medicina e à indústria que podem tornar-se valores caracterìsticamente brasileiros. Como terra em que já se têm feito experimentos em agricultura e pecuária, em horticultura e jardinagem, de importância para outros países tropicais.

Que se propague a origem rural do maior inventor brasileiro - Santos Dumont; a origem rural de grandes homens de Estado como Prudente de Morais que chegou a ser apelidado de "biriba" pela malícia carioca; a meninice rural dos Joaquim Nabuco, dos Sílvio Romero, dos João Alfredo, dos Frei Vital, dos Epitácio Pessoa, dos Manuel Borba; a inspiração rural ou agreste de grande parte da música de Vila-Lobos.

E que, valorizando-se o que é rural na cultura brasileira, não por ser êste elemento superior aos demais mas por vir sendo esquecido ou despresado sob a excessiva glorificação dos elementos urbanos de importação, valorize-se ao mesmo tempo o que nesta mesma cultura é elemento ético e de possibilidades intelectuais e estéticas, em geral melhor conservado pela gente rural do que pela gente urbana. Elementos que vêm sendo entre nós despresados de maneira alarmante pela crescente exaltação que da imprensa e dos rádios urbanos vêm-se comunicando às populações rurais do que é apenas, por contágio dos meios urbanos com o que há de mais superficialmente "civilizado" nos meios cosmopolitas, sucesso físico, desportivo, material no pior sentido de "materialismo". A tal ponto que se tornou escandaloso aos olhos de observadores europeus o fato de, quando do seu primeiro regresso dos Estados Unidos, onde fôra consagrado grande cientista físico por mestres autorizados, o brasileiro César Lattes ter sido recebido no aeroporto não por uma multidão igual às que recebem jogadores de futebol vindos mais ou menos vitoriosos de jogos internacionais, artistas de rádio, artistas de cinema, atletas - nem ninguém ousava esperar tanto - mas por pouquíssimos brasileiros, ao lado de representantes diplomáticos de várias nações estrangeiras. Comentando êste fato melancòlicamente significativo, diz, em livro recente um sociólogo mineiro, o Professor Sigefredo M. Soares, que dessa recepção a um jovem brasileiro consagrado no estrangeiro e por gente idônea, cientista de fato, "achavam-se ausentes... os representantes dos Poderes Públicos Nacionais, das instituições científicas do País e até mesmo os representantes das agremiações estudantis", que outróra recebiam com tantas homenagens em São Paulo, no Rio, na Bahia, no Recife, os Nabuco, os Rui, os Rio Branco, os Oswaldo Cruz, quando de regresso triunfantes e consagrados, de terras estrangeiras.

É também melancólico para o Brasil atual ter falecido há poucos anos quase na obscuridade um homem, um sábio, um cientista com Vital Brasil que desenvolveu técnicas mercê das quais muitas vidas têm sido salvas não só no Brasil rural como em áreas rurais da América Latina inteira; e que deveria ser glorificado pelos brasileiros conscientes do que as populações e o trabalho rurais representam para sua civilização, como um dos seus benfeitores máximos. É certo também que um homem de gênio da grandeza de Vila-Lobos, - em cuja música o que há de rural, de telúrico, de autênticamente brasileiro, tornou-se valor de repercussão internacional - chega hoje a qualquer cidade brasileira muito menos despercebido e muito menos homenageado, que qualquer cantor de rádio ou que qualquer campeão de futebol, de estação ou clube urbano ou metropolitano do Rio ou de São Paulo. Ou mesmo do Recife.

O esforço de valorização de tais homens autênticamente grandes e de suas criações, autênticamente brasileiras em seus motivos, em suas raízes, em seus efeitos mais profundos, terá que ser um esfôrço ligado ao que é mais genuinamente brasileiro na cultura brasileira; ao que é mais raíz nessa cultura. Êsse elemento raíz é, em grande parte, telúrico, rural, ligado à terra, alimentado pelas constâncias rurais da nossa vida; elemento constante e não transitório, que devemos fortalecer ou avigorar sob formas urbanas; elemento de valor permanente e não reflexo de modas ou caprichos metropolitanos em metrópoles em que, como nas brasileiras de hoje, o desenvolvimento das instituições de cultura intelectual, artística, ética não vem correspondendo ao desenvolvimento simplesmente material ou técnico que lhes dá aparências de altas civilizações.

Para sermos nós mesmos, os brasileiros, como cultura, como civilização, como conjunto de valores em que os elementos intelectuais, artísticos, éticos não se tornem insignificâncias ao lado dos técnicos, materiais, mecânicos - vários dêles simplesmente importados do estrangeiro - temos que procurar valorizar o que é entre nós esforço vindo da terra, da gente telúrica, do trabalho cotidiano em circunstâncias peculiares ao Brasil - trabalho, em grande parte, rural - das grandes inteligências e das grandes sensibilidades que têm sabido interpretar essa terra e essa gente ou procuram resolver problemas peculiares ao Brasil dentro das condições brasileiras de espírito e de ambiente; dentro da diversidade regional brasileira; e não arbitràriamente; ou favorecendo-se uma região contra as demais; protegendo-se uma atividade - no momento a indústria urbana - contra as outras.

Referi-me no início desta palestra a relações intraregionais e interregionais. As intraregionais refere-se principalmente à melhor articulação dentro de uma região ou área total de sub-regiões agrárias com sub-regiões industriais, de sub-regiões urbanas com sub-regiões industriais. As interregionais referem-se à melhor articulação de regiões uma com as outras como dentro do continente americano, que é um conjunto ou complexo supraregional ou uma área total - como é também, para o Brasil, a área que venho denominando lusotropical - regiões de uns países com as regiões de outros. Pois as relações interregionais podem importar em relações internacionais.

Nós, do Nordeste do Brasil, região ou sub-região em grande parte rural - rural e pobre - somos há dezenas de anos uma sub-região desvalorizada no conjunto nacional brasileiro e prejudicada, por essa nossa situação de desprestígio dentro do conjunto nacional, em possibilidades de relações interregionais, que trouxessem às sub-regiões nordestinas atividades industriais financiadas por capital e orientadas por técnica angloamericanas, em particular, ou estrangeiros, em geral, que poderiam ser grandemente úteis à economia e à vida rurais do mesmo Nordeste. Dou um exemplo concreto: tivesse o Nordeste sabido agir com mais lucidez, mais eficiência e melhor conjugação de esforços estaduais, e estaríamos hoje na região, com o custo de energia elétrica da Paulo Afonso reduzido de 50% para todos os consumidores ligados ao sistema da mesma Paulo Afonso e, além disso, desoprimida a cidade do Recife da enorme sobrecarga de população pobre, miserável e improdutiva vinda de diferentes áreas rurais do Nordeste. Como? Se aqui tivesse se instalado, como pretendeu instalar-se, um consumidor de grande porte como a bem reputada companhia angloamericana Reynolds, que quiz estabelecer-se nesta parte do Brasil com indústria de alumínio, com a produção anual de cerca de 90.000 toneladas.

Segundo a palavra autorizada do General Carlos Berenhauser Junior, um dos dirigentes da Cia. Hidroelétrica do São Francisco, não solicitou a Reynolds nenhum favor do Govêrno Brasileiro: apenas pleitou tratamento equitativo. E a instalação da indústria integrada de alumínio em espaço rural brasileiro, hoje desprestigiado econômica e socialmente, importaria, segundo o mesmo técnico brasileiro, em grande e imediato benefício para o Nordeste. Por que não se realizou tal instalação? Porque organizou-se em São Paulo um grupo brasileiro que se considera capaz - talvez com excesso de otimismo - do mesmo empreendimento, num São Paulo já cheio, aliás, de indústrias e onde é notoria a escassez de energia elétrica para novas indústrias.

Prevaleceu o critério de que as sub-regiões pobres de um País deviam estar sempre a mercê de planos e projetos que tenham por séde uma das sub-regiões ricas, - no caso do Brasil, a paulista - embora plano de difícil e lenta realização por grupo econômico nacional, com certeza bem intencionado mas sem recursos nem experiência para o empreendimento. Deve-se, aliás, salientar o fato de que, de ordinário, de tais grupos fazem parte não apenas paulistas de fortuna, mas brasileiros empreendedores e ricos de outros Estados: inclusive do próprio Nordeste brasileiro. Homens dos quais seus compatriotas do Nordeste têm o direito de esperar que concorram de modo mais efetivo, com sua inteligência e seus capitais, para a valorização de trecho tão abandonado do Brasil como é o nosso; ou lembrado apenas pelo Govêrno da União para às vezes despropositados a usineiros relapsos.

O que a alguns de nós parece antinacional é manter-se êsse tipo arbitrário de relações entre as sub-regiões brasileiras, em vez de prevalecer, para atender o Govêrno da União a situações excepcionais (como é o caso do Nordeste do Brasil, retardadíssimo em sua economia com relação ao Sul industrial), o critério ou o sentido da conveniência de bem equilibradas relações interregionais. O benefício feito a uma sub-região pobre de país, desigualmente desenvolvido, é claro que resulta favorável ao conjunto nacional. Não se trata de caridade mas de recuperação de proveito para o País inteiro.

Fatos como o das dificuldades ao estabelecimento, em zona rural do Nordeste, da indústria de alumínio, com matéria prima em grande parte nordestina e com trabalhadores nordestinos, embora com técnica e capital angloamericano dos melhores, parece indicar o perigo, para um país de desenvolvimento econômico violentamente desigual, como é o Brasil - desigual de sub-região para sub-região - de um imperialismo interno, de grupos internos, cujos excessos só seriam contidos, no interêsse de todo brasileiro, se êsses interêsses fossem considerados dentro de vasto plano interregional de economia.

É problema que deixo, juntamente com outros, para ser meditado pelas professôras rurais de Pernambuco que hoje concluem um curso proveitoso e necessário - feliz iniciativa do Secretário Aderbal Jurema - e pelos demais brasileiros, interessados no estudo e na solução de problemas rurais que acabam de me honrar com sua inteligente atenção. Atenção que muito agradeço. E encantado com a simpatia que aqui encontrei, no ambiente de uma escola bem dirigida e da parte não só de quantos hoje terminam um curso ainda pioneiro, como dos seus professôres e orientadores - um deles o agrônomo sempre entusiasta da sua ciência, que é o Professor Jair Meireles - que concluo esta simples palestra.

Agradecido às generosas referências da oradora do grupo de concluintes do II Curso de Treinamento Rural, não devo deixar de aludir ao fato de que o nome do patrono desta Escola, desaparecido ainda tão jovem, me traz à lembrança um dos alunos mais brilhantes de Antropologia Social e de Sociologia que tive de 1935 a 1937 na então Universidade do Distrito Federal: a que seria poucos anos depois absorvida pela atual Universidade do Brasil e não a que hoje ostenta aquêle nome, Murílo Braga foi na verdade uma das inteligências mais cheias de possibilidades que conheci naquela época, hoje histórica, pois marca a tentativa mais séria que já houve no Brasil no sentido de criar-se no nosso País um autêntico e avançado sistema universitário: iniciativa do Professor Anísio Teixeira. Aquelas possibilidades vinham se realizando quando a morte cortou, em começo, uma carreira, desde o início triumfal, de renovador do ensino no Brasil: a carreira de Murilo Braga. Que o exemplo da sua atividade não seja esquecido.



Fonte: FREYRE, Gilberto. Palavras às professoras rurais do Nordeste. Recife: Secretaria de Educação e Cultura do Estado, 1957. 17p.

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