PALAVRAS ÀS PROFESSÔRAS RURAIS DO NORDESTE
Minha palestra de hoje será um pouco o que em Sociologia
científica se denomina, com algum desdém, "sermão sociológico". Isto porque,
a considerações sôbre "o que é" - sôbre a realidade sociológica como
ela é - acrescentarei algumas sugestões em tôrno do que "deve ser", isto
é, de modificações, a meu ver desejáveis - a começar por modificações de
atitude - dentro da atual situação social brasileira, ou em face dessa situação.
Modificações a que nos autoriza, ou parece nos autorizar, a própria Sociologia
científica.
A Sociologia estritamente científica, porém, é uma
sociologia que procura analisar, descrever, explicar, interpretar situações; quando
muito diagnosticar e prever desenvolvimentos nessas situações; indicar prováveis
consequências dêste ou daquele rumo que se tome no modo de considerar-se uma situação
ou um problema. Quando o sociólogo vai além dêsses limites e esboça sugestões de
reforma social, é claro que não arbitrárias, mas orientadas pelo seu conhecimento
científico de situações, de problemas, de condições sociais - sugestões
tendentes a modificar tais situações ou a corrigir desajustamentos, - sua Sociologia
deixa de ser puramente científica para tornar-se aplicada; para adquirir alguma coisa de
arte, como a arte médica do clínico, em relação com a ciência - ou as ciências
- em que se baseia a técnica ou a arte dos médicos, dos clínicos, dos cirurgiões;
para tornar-se o que alguns denominam engenharia social, tal como a Sociologia praticada
por homens como o Padre Lebret, e que é, em grande parte, uma sociologia menos do que é
do que do que deve ser; e deve ser, é claro, que dependendo da atitude
filosófica do engenheiro social em face dos problemas humanos de convivência.
A parte sociológica do urbanismo é engenharia social como é
engenharia social a planificação regional, hoje tão empregada no Ocidente, e quase
sempre em correspondência com uma filosofia social - o dirigismo, o intervencionismo
do Estado - que é o opôsto do laissez-faire da democracia liberal nos seus
extremos. Aliás não se compreende atualmente urbanismo aparte dessa planificação
regional; nem planificação regional em que não se considerem problemas de relações
interregionais - isto é, de dentro da região - e interregionais, isto é, de
relações de uma região com as outras.
Não se pode separar o homem das condições sociais e de
cultura nem da sua época nem da sua região. O homem não é abstratamente homem mas sua
condição humana toma aspectos concretos conforme a região onde êle viva, a cultura em
que esteja situado e o tempo em que decorra sua existência: a sua época. Êste conjunto
de situações é mais poderoso em sua influência sôbre a formação social de um
indivíduo biológico ou na definição dêsse indivíduo em pessoa social que sua
condição étnica - sua raça - e que sua própria constituição biopsíquica.
Raça e temperamento tendem a variar de diversos modos da normalidade estabelecida, sob a
pressão de diferentes influências sociais e de cultura.
Isto é certo do homem cujo espaço de residência e de
atividade principal, inclusive a profissional, seja o urbano ou do homem cujo espaço de
residência ou de atividade mais característica seja o rural. Si neste espaço - o
rural - o contacto do homem com a natureza é maior - maior seu contacto com o
sol, a lua, as estrelas, a terra, as águas, as árvores, as plantas, os animais -
nem por isto deixa de ser um contacto influenciado por agências sociais e por
instituições culturais em vigor no mesmo espaço e na época em que vivia o mesmo homem:
pela religião, que lhe dê, desde que nasça, ou desde que nasceu, noções culturais e
não espontaneamente naturais sôbre astros, águas, terra, árvores, animais; pelo
folclore, que representa uma sabedoria oral, tradicional, porém igualmente cultural,
vinda da inteligência e da sensibilidade dos homens, e não brotada da natureza; pela
escola, que lhe dê explicações racionais a respeito da natureza - inclusive da
natureza humana; e hoje, pelo cinema, pelo rádio, pela música chamada em conserva, isto
é, em disco. Agentes, todos êsses, culturais que vêm afetar as atitudes do rústico e
não apenas do ruralista com relação à natureza - inclusive, repita-se, a natureza
humana. A natureza do próprio homem situado no meio natural: sua natureza sob a forma de
ser cultural, histórico, modificador do meio natural.
De modo que nem mesmo o rústico dentre os ruralistas escapa
de todo, - nem mesmo em redutos ou ilhas sociológicas, de pequenos grupos humanos quase
isolados das maiorias culturais que os rodeiam e dos conjuntos culturais que fluem no
tempo, afetando nas comunidades, embora desigualmente, tanto os grupos urbanos como os
rurais; nem o rústico - dizia eu - escapa à cultura, ao tempo, à época em
que vive. Ou de que vive em maior ou menor dependência.
Estamos hoje, por exemplo, muito no Ocidente e, em grande
parte, no Oriente, num tempo ou numa época que se caracteriza, como salientam os
sociólogos modernos, pelo domínio da técnica: técnica baseada em ciência
experimental. Os processos industriais é do que dependem: de técnicas desenvolvidas de
ciência assim experimentais. A moderna arquitetura não pode ser separada da técnica e
da ciência, para resolver em casas de residência e edifícios públicos problemas de
saneamento, ventilação, aeração, luz, refrigeração, calefação. O ensino moderno é
em grande parte científico. O vestuário vem sendo alterado pela ciência. O móvel,
também. Também a horticultura, a floricultura, a lavoura, o cuidado com os animais. Os
próprios sistemas de recreação de crianças e adultos. E é interessante notarmos, a
êste propósito, que várias das simplificações de móvel, vestuário, alimentação
consagradas pela ciência são no Brasil valores ou estilos de origem rural. A camisa por
fora das calças, a sandália, a rêde, as comidas de milho, as de mandioca, a coalhada.
Sabemos todos que a química, ainda mais que a eletricidade,
vai hoje até às donas de casas, para ensinar-lhes novas técnicas de cozinha e de
conservar alimentos, como se as cozinhas fossem um pouco laboratórios; e chegam até ao
lavrador rústico. Mesmo ao analfabeto ou ao quase analfabeto, vai a química moderna sob
a forma de conhecimentos de sólo que lhe são transmitidos oral ou experimentalmente; sob
a forma de inseticidades; sob a forma de substância de combate a pragas; sob a forma de
adubos comerciais. Temos aí o engenho industrial urbano, a ciência acadêmica das
cidades, a serviço das gentes rurais e das suas lavouras e criações.
De um sociólogo norteamericano, que foi um dos primeiros a se
especializarem no estudo da vida rural, o Professor Gillette, é o reparo de que vivemos
numa época de especialização. Vivemos numa época não só de técnica e de ciência
- como salientam todos - mas numa época de especialização. Especialização
intensa nos meios urbanos, ela já se estende aos meios rurais, embora o ruralista
continue, neste particular, um ser enciclopédico em comparação com o urbanita típico,
que, fora da sua especialidade, está quase perdido no labirinto urbano. Enquanto o
ruralista é ainda obrigado por sua própria situação em meio menos especializado em
funções, a juntar à atividade agrária, por exemplo, outras funções - a função
de médico, por exemplo; a de veterinário; a de mecânico; às vezes a de mestre-escola;
em alguns até a de substituto de padre que ouça os rústicos sinão em confissão, em
desabafos ou queixas confidenciais.
Daí a educação do ruralita dever atender a dois pontos: o
fato de que nele a instrução técnica e científica deve começar a aplicar-se a
assuntos especìficamente rurais e ao fato de que todo o sentido dessa instrução -
todo o sentido dessa educação - deve corresponder a exigências de conhecimentos
gerais maiores que os exigidos por meio urbano. Donde não só o agrônomo ou o
zootécnico, como o professor ou a professôra rural, o padre rural, o médico rural, o
farmacêutico rural, deverem juntar à sua especialidade conhecimentos gerais, quase
inúteis num especialista urbano, mas necessários e até essenciais a um técnico ou
especialista cuja atividade tiver de exercer-se em meio rural. Daí, também, a
necessidade de todos êsses especialistas que se destinem a espaços rurais serem
iniciados no conhecimento de uma sociologia da vida rural que desperte neles a atenção
para problemas especìficamente rurais de relações entre pessoas umas com as outras e
entre grupos uns com os outros; inclusive para o que nesses problemas é psicológico ao
mesmo tempo que social. Êste conhecimento é particularmente necessário ao professor ou
à professôra rural. Tanto quanto o padre êles tem de lidar com almas.
Lembre-se sempre o agrônomo ou o zootécnico ou o professor
ou o padre ou o médico ou o advogado ou o farmacêutico ou o dentista que vai exercer
ainda jovem suas atividades em meios rurais, que vai lidar com seres humanos diferentes em
várias das suas atitudes e dos seus modos de ver, de pensar, de sentir, dos urbanitas
desdenhosos, até, de certos estilos urbanos de vida e de cultura. De modo que qualquer
dêsses especialistas jovens que, depois de instruido durante anos em instituição
urbana, vá para meio rural animado do propósito de aplicar novas técnicas ou novos
processos científicos à agricultura ou à pecuária ou a veterinária ou à medicina ou
ao ensino, deve lembrar-se de que, em qualquer dessas atividades, não vai lidar apenas
com terras, solos, plantas, animais, doenças, escolares, mas com seres humanos
condicionados pela sua situação rural. Dêles deve o adventício aproximar-se
lembrando-se de que são seres humanos regionalmente condicionados: condicionados por
tradições, crenças, superstições, mitos, que devem ser considerados com o máximo de
atenção psicológica.
Pois não nos esqueçamos de que em aparentes superstições
da gente rural podem estar refugiados conhecimentos de valor para o cientista, o técnico,
o homem culto, sôbre plantas, animais, valores regionais. Si há superstições evidentes
que devem ser habilmente combatidas em gente rústica e habilmente substituídas por
conhecimentos científicos, outras crenças rústicas devem ser consideradas expressões
de sabedoria popular ou folclórica, às vezes valiosas como sugestões para o próprio
cientista que siga o conselho de Camões: o de não desdenhar-se a sabedoria dos velhos. E
os velhos rurais guardando, como guardam, muita superstição despresível, guardam
também muita sabedoria aproveitável. Os velhos, as mulheres, os analfabetos rurais,
todos guardam conhecimentos folclóricos sôbre aspectos regionais, de natureza e de vida,
que, quando gerais, antigos e persistentes, nunca devem ser sistemàticamente despresados
mas cuidadosamente examinados por agrônomos, zootécnicos, veterinários, médicos,
professôres rurais, farmacêuticos, sacerdotes que cheguem a um meio rural, com a sua
ciência em flor adquirida em academias ou escolas apenas urbanas.
Como líderes em potencial de comunidades rurais,
professôres, padres, agrônomos, veterinários, médicos, farmacêuticos rurais e até
certo ponto, magistrados e advogados - em geral, transeuntes nos meios rurais, ainda
mais que as professôras e os padres - em vez de se comportarem nessas comunidades
como exilados de olhos voltados nostàlgicamente para meios urbanos, devem integrar-se o
mais possível nelas. Dada a atual disparidade entre meios urbanos e meios rurais no
Brasil, tais atividades guardam ainda, quando exercidas em meios rústicos, alguma coisa
de ação ou esfôrço missionário. E a atividade dêsses missionários deve ser a de
profunda identificação e simpatia com os meios rurais, com sua gente, seus problemas,
suas angústias, com as artes domésticas, populares, folclóricas peculiares a êsses
meios, como a da renda em Caruarú, por exemplo, a da cerâmica em Taquaretinga, a de
trabalhos de palha em Águas Belas, a de bonecas de pano em vários povoados do Nordeste,
e também de identificação uns com os outros - agrônomos com padres, veterinários
com professôres, médicos com zootécnicos, farmacêuticos com advogados - pois
nenhum dêsses trabalhos em meio rural alcançará êxito, sinão sob a forma de esforços
que de técnicos se alarguem em campanhas sociais: esforços de cooperação
sociològicamente orientados e para os quais deve concorrer tôda a gente mais culta.
Erra o agrônomo empenhado na introdução de técnicas
científicas num meio rural delas necessitado que não buscar a cooperação psicológica
e social do padre, da professôra, do boticário, dos velhos, das mulheres, e até a do
trovador ou cantador popular que houver na região. Nada de tecnicismo hirto e fechado:
como o agrônomo ou o veterinário em meio rural, o professor ou a professôra deve ser um
líder de reconstrução social; e não apenas um técnico. Deve ser um animador de
valores, possibilidades, aspirações locais e não um simples técnico isolado do meio e
cheio da preocupação de ser promovido para atividade urbana. Deve ser um intermediário
ou mediador entre valores urbanos e valores rurais e não um sectário só dos valores
urbanos ou apenas dos valores rurais. Deve juntar sua voz à do professor, à do padre, à
do médico, no esfôrço da justa valorização do que é rural na civilização
brasileira e na merecida exaltação daqueles indivíduos que têm dedicado o melhor da
sua vida e da sua inteligência à agricultura, à pedagogia, e à medicina rurais; e à
pecuária, à agronomia, à veterinária.
Como já tem observado mais de um sociólogo, se o ruralita
nasce e cresce cercado de sugestões, livros, revistas em que só são glorificados os
valores urbanos e injustamente despresados os rurais, como esperar-se que, sendo
inteligente, êle queira continuar a ser ruralita em vez de vir para as cidades tornar-se
industrial, advogado, professor de faculdade, comerciante? Acertou a Universidade Rural de
Pernambuco quando conferiu pela primeira vez sua láurea máxima a um homem que vem
dedicando a vida, o saber e o talento à valorização de terras pernambucanas: o
agrônomo Moacyr de Brito. E acertada andaria também, a meu ver, se decidisse publicar,
em cooperação com a Secretaria de Educação do Estado, numa série de folhetos,
escritos em linguagem simples, acessível até a crianças, e com ilustrações adequadas,
as biografias de grandes ruralitas da região: homens como o Manuel Cavalcanti da
"cana Cavalcanti", como Carlos Lyra, de Serra Grande, como Paulo Salgado, do
Cabo, como Inácio de Barros Barreto, como Costa Azevedo, como o felizmente ainda vivo
Antônio Alves Araújo, que, pernambucano já de mais de 80 anos, continúa a orientar a
Sociedade de Agricultura de Pernambuco. Não ha ruralita adulto ou criança que não se
deixe influir no seu ânimo pela valorização justa que se fizer de homens que outra
coisa não têm querido ser na vida sinão ruralitas; e que, como ruralitas, têm prestado
ao Brasil serviços ainda mais valiosos que os de alguns dos mais glorificados urbanistas.
Os ruralitas precisam de encontrar o seu Caxias; e de fazer dêle um herói nacional igual
ao grande Duque.
Sabe-se que no Estado de Iowa, nos Estados Unidos, fez-se há
anos interressante experimento em escola rural, antes e depois do ensino nas mesmas
escolas, de Agricultura e de Economia Doméstica Rural, cujo fim era precisamente o de
concorrer o ensino para a integração das crianças e adolescentes no seu meio - o
rural - e para a valorização dos elementos dêsse meio. Antes dêsse ensino, dos
164 alunos de várias escolas, 157 responderam à pergunta "O que deseja fazer na
vida?" que desejavam abandonar o campo, a lavoura, a vida rural; das 174 meninas,
alunas das mesmas escolas, 163 responderam no mesmo sentido. Depois de três anos de
ensino daquelas matérias com sentido ecológico, isto é, ligando-se a imaginação, a
sensibilidade, a inteligência de meninos e meninas ao meio nativo, rural, 162 de 174
meninos e 161 de 178 meninas responderam à pergunta, dizendo-se desejosos não de
abandonar os meios rurais, mas de permanecer neles.
Cabe à professôra, ao médico, ao magistrado e ao padre
rurais juntarem seu esforço ao do agrônomo no sentido da valorização do que, sendo
rural na vida, no passado, na cultura brasileira, vem concorrendo para dar estabilidade,
prestígio, originalidade ao Brasil como país jovem que começa a afirmar-se com país
criador e não apenas imitador de cultura; como terra de vegetais úteis à medicina e à
indústria que podem tornar-se valores caracterìsticamente brasileiros. Como terra em que
já se têm feito experimentos em agricultura e pecuária, em horticultura e jardinagem,
de importância para outros países tropicais.
Que se propague a origem rural do maior inventor brasileiro
- Santos Dumont; a origem rural de grandes homens de Estado como Prudente de Morais
que chegou a ser apelidado de "biriba" pela malícia carioca; a meninice rural
dos Joaquim Nabuco, dos Sílvio Romero, dos João Alfredo, dos Frei Vital, dos Epitácio
Pessoa, dos Manuel Borba; a inspiração rural ou agreste de grande parte da música de
Vila-Lobos.
E que, valorizando-se o que é rural na cultura brasileira,
não por ser êste elemento superior aos demais mas por vir sendo esquecido ou despresado
sob a excessiva glorificação dos elementos urbanos de importação, valorize-se ao mesmo
tempo o que nesta mesma cultura é elemento ético e de possibilidades intelectuais e
estéticas, em geral melhor conservado pela gente rural do que pela gente urbana.
Elementos que vêm sendo entre nós despresados de maneira alarmante pela crescente
exaltação que da imprensa e dos rádios urbanos vêm-se comunicando às populações
rurais do que é apenas, por contágio dos meios urbanos com o que há de mais
superficialmente "civilizado" nos meios cosmopolitas, sucesso físico,
desportivo, material no pior sentido de "materialismo". A tal ponto que se
tornou escandaloso aos olhos de observadores europeus o fato de, quando do seu primeiro
regresso dos Estados Unidos, onde fôra consagrado grande cientista físico por mestres
autorizados, o brasileiro César Lattes ter sido recebido no aeroporto não por uma
multidão igual às que recebem jogadores de futebol vindos mais ou menos vitoriosos de
jogos internacionais, artistas de rádio, artistas de cinema, atletas - nem ninguém
ousava esperar tanto - mas por pouquíssimos brasileiros, ao lado de representantes
diplomáticos de várias nações estrangeiras. Comentando êste fato melancòlicamente
significativo, diz, em livro recente um sociólogo mineiro, o Professor Sigefredo M.
Soares, que dessa recepção a um jovem brasileiro consagrado no estrangeiro e por gente
idônea, cientista de fato, "achavam-se ausentes... os representantes dos Poderes
Públicos Nacionais, das instituições científicas do País e até mesmo os
representantes das agremiações estudantis", que outróra recebiam com tantas
homenagens em São Paulo, no Rio, na Bahia, no Recife, os Nabuco, os Rui, os Rio Branco,
os Oswaldo Cruz, quando de regresso triunfantes e consagrados, de terras estrangeiras.
É também melancólico para o Brasil atual ter falecido há
poucos anos quase na obscuridade um homem, um sábio, um cientista com Vital Brasil que
desenvolveu técnicas mercê das quais muitas vidas têm sido salvas não só no Brasil
rural como em áreas rurais da América Latina inteira; e que deveria ser glorificado
pelos brasileiros conscientes do que as populações e o trabalho rurais representam para
sua civilização, como um dos seus benfeitores máximos. É certo também que um homem de
gênio da grandeza de Vila-Lobos, - em cuja música o que há de rural, de telúrico, de
autênticamente brasileiro, tornou-se valor de repercussão internacional - chega
hoje a qualquer cidade brasileira muito menos despercebido e muito menos homenageado, que
qualquer cantor de rádio ou que qualquer campeão de futebol, de estação ou clube
urbano ou metropolitano do Rio ou de São Paulo. Ou mesmo do Recife.
O esforço de valorização de tais homens autênticamente
grandes e de suas criações, autênticamente brasileiras em seus motivos, em suas
raízes, em seus efeitos mais profundos, terá que ser um esfôrço ligado ao que é mais
genuinamente brasileiro na cultura brasileira; ao que é mais raíz nessa cultura. Êsse
elemento raíz é, em grande parte, telúrico, rural, ligado à terra, alimentado pelas
constâncias rurais da nossa vida; elemento constante e não transitório, que devemos
fortalecer ou avigorar sob formas urbanas; elemento de valor permanente e não reflexo de
modas ou caprichos metropolitanos em metrópoles em que, como nas brasileiras de hoje, o
desenvolvimento das instituições de cultura intelectual, artística, ética não vem
correspondendo ao desenvolvimento simplesmente material ou técnico que lhes dá
aparências de altas civilizações.
Para sermos nós mesmos, os brasileiros, como cultura, como
civilização, como conjunto de valores em que os elementos intelectuais, artísticos,
éticos não se tornem insignificâncias ao lado dos técnicos, materiais, mecânicos
- vários dêles simplesmente importados do estrangeiro - temos que procurar
valorizar o que é entre nós esforço vindo da terra, da gente telúrica, do trabalho
cotidiano em circunstâncias peculiares ao Brasil - trabalho, em grande parte, rural
- das grandes inteligências e das grandes sensibilidades que têm sabido interpretar
essa terra e essa gente ou procuram resolver problemas peculiares ao Brasil dentro das
condições brasileiras de espírito e de ambiente; dentro da diversidade regional
brasileira; e não arbitràriamente; ou favorecendo-se uma região contra as demais;
protegendo-se uma atividade - no momento a indústria urbana - contra as outras.
Referi-me no início desta palestra a relações
intraregionais e interregionais. As intraregionais refere-se principalmente à melhor
articulação dentro de uma região ou área total de sub-regiões agrárias com
sub-regiões industriais, de sub-regiões urbanas com sub-regiões industriais. As
interregionais referem-se à melhor articulação de regiões uma com as outras como
dentro do continente americano, que é um conjunto ou complexo supraregional ou uma área
total - como é também, para o Brasil, a área que venho denominando lusotropical
- regiões de uns países com as regiões de outros. Pois as relações
interregionais podem importar em relações internacionais.
Nós, do Nordeste do Brasil, região ou sub-região em grande
parte rural - rural e pobre - somos há dezenas de anos uma sub-região
desvalorizada no conjunto nacional brasileiro e prejudicada, por essa nossa situação de
desprestígio dentro do conjunto nacional, em possibilidades de relações interregionais,
que trouxessem às sub-regiões nordestinas atividades industriais financiadas por capital
e orientadas por técnica angloamericanas, em particular, ou estrangeiros, em geral, que
poderiam ser grandemente úteis à economia e à vida rurais do mesmo Nordeste. Dou um
exemplo concreto: tivesse o Nordeste sabido agir com mais lucidez, mais eficiência e
melhor conjugação de esforços estaduais, e estaríamos hoje na região, com o custo de
energia elétrica da Paulo Afonso reduzido de 50% para todos os consumidores ligados ao
sistema da mesma Paulo Afonso e, além disso, desoprimida a cidade do Recife da enorme
sobrecarga de população pobre, miserável e improdutiva vinda de diferentes áreas
rurais do Nordeste. Como? Se aqui tivesse se instalado, como pretendeu instalar-se, um
consumidor de grande porte como a bem reputada companhia angloamericana Reynolds, que quiz
estabelecer-se nesta parte do Brasil com indústria de alumínio, com a produção anual
de cerca de 90.000 toneladas.
Segundo a palavra autorizada do General Carlos Berenhauser
Junior, um dos dirigentes da Cia. Hidroelétrica do São Francisco, não solicitou a
Reynolds nenhum favor do Govêrno Brasileiro: apenas pleitou tratamento equitativo. E a
instalação da indústria integrada de alumínio em espaço rural brasileiro, hoje
desprestigiado econômica e socialmente, importaria, segundo o mesmo técnico brasileiro,
em grande e imediato benefício para o Nordeste. Por que não se realizou tal
instalação? Porque organizou-se em São Paulo um grupo brasileiro que se considera capaz
- talvez com excesso de otimismo - do mesmo empreendimento, num São Paulo já
cheio, aliás, de indústrias e onde é notoria a escassez de energia elétrica para novas
indústrias.
Prevaleceu o critério de que as sub-regiões pobres de um
País deviam estar sempre a mercê de planos e projetos que tenham por séde uma das
sub-regiões ricas, - no caso do Brasil, a paulista - embora plano de difícil e
lenta realização por grupo econômico nacional, com certeza bem intencionado mas sem
recursos nem experiência para o empreendimento. Deve-se, aliás, salientar o fato de que,
de ordinário, de tais grupos fazem parte não apenas paulistas de fortuna, mas
brasileiros empreendedores e ricos de outros Estados: inclusive do próprio Nordeste
brasileiro. Homens dos quais seus compatriotas do Nordeste têm o direito de esperar que
concorram de modo mais efetivo, com sua inteligência e seus capitais, para a
valorização de trecho tão abandonado do Brasil como é o nosso; ou lembrado apenas pelo
Govêrno da União para às vezes despropositados a usineiros relapsos.
O que a alguns de nós parece antinacional é manter-se êsse
tipo arbitrário de relações entre as sub-regiões brasileiras, em vez de prevalecer,
para atender o Govêrno da União a situações excepcionais (como é o caso do Nordeste
do Brasil, retardadíssimo em sua economia com relação ao Sul industrial), o critério
ou o sentido da conveniência de bem equilibradas relações interregionais. O benefício
feito a uma sub-região pobre de país, desigualmente desenvolvido, é claro que resulta
favorável ao conjunto nacional. Não se trata de caridade mas de recuperação de
proveito para o País inteiro.
Fatos como o das dificuldades ao estabelecimento, em zona
rural do Nordeste, da indústria de alumínio, com matéria prima em grande parte
nordestina e com trabalhadores nordestinos, embora com técnica e capital angloamericano
dos melhores, parece indicar o perigo, para um país de desenvolvimento econômico
violentamente desigual, como é o Brasil - desigual de sub-região para sub-região
- de um imperialismo interno, de grupos internos, cujos excessos só seriam contidos,
no interêsse de todo brasileiro, se êsses interêsses fossem considerados dentro de
vasto plano interregional de economia.
É problema que deixo, juntamente com outros, para ser
meditado pelas professôras rurais de Pernambuco que hoje concluem um curso proveitoso e
necessário - feliz iniciativa do Secretário Aderbal Jurema - e pelos demais
brasileiros, interessados no estudo e na solução de problemas rurais que acabam de me
honrar com sua inteligente atenção. Atenção que muito agradeço. E encantado com a
simpatia que aqui encontrei, no ambiente de uma escola bem dirigida e da parte não só de
quantos hoje terminam um curso ainda pioneiro, como dos seus professôres e orientadores
- um deles o agrônomo sempre entusiasta da sua ciência, que é o Professor Jair
Meireles - que concluo esta simples palestra.
Agradecido às generosas referências da oradora do grupo de
concluintes do II Curso de Treinamento Rural, não devo deixar de aludir ao fato de que o
nome do patrono desta Escola, desaparecido ainda tão jovem, me traz à lembrança um dos
alunos mais brilhantes de Antropologia Social e de Sociologia que tive de 1935 a 1937 na
então Universidade do Distrito Federal: a que seria poucos anos depois absorvida pela
atual Universidade do Brasil e não a que hoje ostenta aquêle nome, Murílo Braga foi na
verdade uma das inteligências mais cheias de possibilidades que conheci naquela época,
hoje histórica, pois marca a tentativa mais séria que já houve no Brasil no sentido de
criar-se no nosso País um autêntico e avançado sistema universitário: iniciativa do
Professor Anísio Teixeira. Aquelas possibilidades vinham se realizando quando a morte
cortou, em começo, uma carreira, desde o início triumfal, de renovador do ensino no
Brasil: a carreira de Murilo Braga. Que o exemplo da sua atividade não seja esquecido.
Fonte: FREYRE, Gilberto. Palavras às professoras rurais do Nordeste. Recife: Secretaria de Educação e Cultura do Estado, 1957. 17p.
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