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Assinatura de Gilberto Freyre
Opúsculos  



ULYSSES


Conferência proferida por GILBERTO FREYRE na Faculdade de Direito de Alagôas, em 17 de março de 1944.

De quem sinão de Ulysses - esse Ulysses que tendo se chamado Pernambucano por tradição de família foi na sua vocação, nas suas ideias, na sua profissão, nas suas preocupações de homem público, um brasileiro sensivel às dores e necessidades do Brasil inteiro e até um daqueles cidadãos da América e do mundo de que falava Oliveira Lima e não apenas um apaixonado de sua provincia; de quem sinão dele, que já não morreu simplesmente um homem mas uma escola, uma instituição, um movimento, eu poderia falar hoje com mais gosto e mais oportunidade aos estudantes de Alagôas? Desde que Ulysses morreu de repente a 5 de dezembro do anos passado no Rio de Janeiro, quando despreocupadamente se vestia para ir passar a tarde na Tijuca, com os pias, que penso em dizer alto todo o bem que devemos a ele, todos os que no Brasil nos preocupamos com problemas sociais; tudo que ele representa como exemplo para os brasileiros das gerações mais moças; tudo que sua vida curta mas heroica nos deixou digno de ser lembrado e até revivido pelos que nos sentimos com o dever de lhe continuar o esforço e lhe guardar a memória.

Agradeço a Alagôas a oportunidade que hoje me dá de falar de um amigo a quem amei como a um irmão e que a todos nós, estudantes, brasileiros, alagôanos, pernambucanos, professores, escritores, cearenses, cariocas, baianos, operários, doentes, funcionários públicos, cônegos, babalorixás, médicos, nervosos, párias de usinas, brancos, negros, adultos, adolescentes, amou quasi como a irmãos a alguns tanto como a irmãos; que a todos nós procurou sempre compreender e às vezes curar, auxiliar, redimir. É justo que agora que ele é morto procuremos estudar com o mesmo amôr compreensivo a vida àspera que ele viveu mais para os outros do que para si, embora seus modos nunca se tornassem os dos apóstolos ou altruistas convencionais; e ele tivesse sido até o fim de sua vida o individuo simples, brincalhão, despreocupado de parecer superior aos demais, que foi na sua adolescência de aluno do Ayres Gama do Recife e na sua mocidade de estudante de medicina no Rio.

Lembro-me de Ulysses aluno de Ayres Gama. Parece que o estou vendo adolescente: um adolescente alto, anguloso, louro como um inglês, o rosto sombreado pelo boné com as letras douradas do colégio. Vinha então muito à nossa casa estudar latim com o seu tio e meu Pai; e minha Mãe era a confidente desse colegial desde os quinze anos cheio de namoradas.

Lembro-me de Ulysses estudante de medicina no Rio: vinha todos os fins de ano passar as férias com a família em Pernambuco num sitio de mangueiras e sapotiseiros da estrada dos Aflitos onde o Pai de Ulysses, meu tio Juca, o dr. José Antônio Gonçalves de Mélo, se instalara ao deixar o posto, então importante, de Chefe de Policia - Chefe de Policia do governo do Conselheiro Gonçalves Ferreira - continuando como funcionário federal da Fazenda o homem sisudo e um pouco de monarquia que se conserva hoje, aos setenta e cinco anos. Mais de uma vez vi Ulysses acompanhar às missas ou aos desembarques o Pai de sobrecasaca Principe Alberto e cartola preta que no terraço da casa e de chinelos era, entretanto, um encanto de Pai e de tio, simples e afetuoso, brasileiro e bom, tratando ele próprio dos passarinhos e das gaiolas e contando-nos como ninguem histórias do Trancoso.

Por sua vez o "carioca", como nós chamavamos então a Ulysses, nos contava a todos, grandes e pequenos da família, histórias maravilhosas não de Trancoso, mas da cidade de suas aventuras de estudantes: cidade que engenheiros e médicos, seguindo o exemplo de Pereira Passos, de Oswaldo Cruz e de Paulo Frontim - figuras que "O MALHO" tornara conhecidas dos provincianos - continuavam a transformar numa capital moderna, sem quiosque de portuguezes e sem casas de biqueira que aos olhos de todos os brasileiros pareciam então horrorosas velharias, arcaismos vergonhoso. Nós todos, irmãos e primos-irmãos mais moços de Ulysses, encontravamos nele e no seu todo metropolitano de estudante civilizado pelo Rio, alguma coisa de superior a nós que admirar; e os ainda meninos sentiamo-nos meio liliputianos diante desse primo meio Guliver, para nós já quasi novo Oswaldo Cruz, que sabiamos elogiado por seus mestres mais ilustres, dos quais os nomes que mais ouviamos eram os de Juliano Moreira e Figueira, Austregesilo e Aloisio de Castro.

Ouvi uma vez William Butler Yeats, o grande poeta irlandês, dizer que a maturidade daqueles que admiramos quando menino nunca nos satisfaz. Precisamente por os termos conhecido quando mais cheios de altas promessas tornamo-nos, depois deles maduros e nós mais refletidos seus críticos mais exigentes e até seus negadores mais enfáticos. Ele Yeats, por exemplo, sempre exigira de George Russell o impossível; e isto por ter conhecido Russell desde novo; desde as primeiras e grandes promessas do esquivo mas extraordinário intelectual conhecido na literatura inglêsa desde século por A. E.

Conheci Ulysses Pernambucano desde as suas primeiras promessas de ginasial e de estudante de Medicina, eu ainda aluno insignificante de primeiras letras; e, entretanto, posso hoje dizer com toda a exatidão que nunca ele deixou de apresentar-se aos meus olhos com alguma coisa de superior ou de extraordinário, como se sua maturidade correspondesse às melhores promessas de sua adolescência e de sua mocidade.

É certo que ele não chegou a tornar-se para o Brasil e para o mundo dos nossos dias um novo Oswaldo Cruz - o novo Oswaldo Cruz que anteviamos nele, seus irmão e primos ainda meninos. Mas é certo tambem que a sua maturidade decorreu num Brasil sem Rodrigues Alves nem Barões de Rio Branco - palavras que vos asseguro pronunciar aqui sem malicia nem rancor contra ninguem: só com tristeza.

Pois um Brasil que deixa morrer aos cinquenta anos um Ulysses Pernambucano de algum grande serviço nacional de saúde, de educação, de ciência ou de higiene é um Brasil de que os brasileiros de amanhã terão de dizer com algum amargor e muita severidade que não lhe faltaram só estadistas mas simples homens de governo com bom senso, com espirito público, com o gosto das colaborações ilustres, com as virtudes singelas e prosaicas porém uteis que douram a mediocridade contente de um Rodrigues Alves de uma luz imortal. O Brasil de Rodrigues Alves tendo se imortalisado pelos homens de talento e até de g6enio que o sensato paulista vindo da Monarquia chamou para os grandes postos de direção ou comando será sempre um exemplo de que mediocridade nenhuma deve temer a colaboração dos grandes homens, de tal modo acaba ela própria iluminada por eles. Enquanto quasi todos os criadores de perús desaparecem depressa da memória dos homens, mesmo quando criadores de perús gordos e até gigantes.

Foi o que faltou a Ulysses Pernambucano para ter sido o novo Oswaldo Cruz que prometeu ser quando estudante: o Rodrigues Alves que confiasse na sua mocidade e honrasse, prestigiasse e puzesse a serviço do Brasil, de norte a sul, e do futuro da América, aquela maturidade de psiquiatra social e de educador, de psicólogo e de administrador, cheia de energia que não tiveram inteiro aproveitamento.

Mesmo sem ter tido inteiro aproveitamento, a vida de Ulysses Pernambucano foi não só a mais inquieta como a mais transbordante de iniciativas de interesse social que já viveu no Brasil um homem de sua especialidade. Pois até Ulysses ninguém, nem mesmo Nina Rodrigues, foi entre nós mais o psiquiatra largamente social e menos o médico só de clinica particular de nervroparas ricos e de hospitais de doenças nervosas e mentais - médico que ele poderia, aliás, ter sido com muito maior vantagem profissional e muito maior lucro pessoal do que espalhando-se, como se espalhou desde novo, pelas zonas dificeis de organisação ou reforma de ensino - ensino normal, secundário e de crianças anormais: de estudo das chamadas seitas africanas em Pernambuco e de regulamentação e controle cientifico e higiênico, mas de modo nenhum policial, do seu funcionamento; de reforma de serviços de assistência social; de modernisação e de ampliação, no melhor sentido social, dos métodos de tratamento dos doentes nervosos e mentais capazes de trabalho e vida em comum, para os quais fundou em Barreiros uma colônia que logo se tornou modêlo; de criação em Pernambuco de um serviço de orientação profissional expandido depois em instituto de psicologia que tambem coloca Pernambuco em situação de pioneiro, no Brasil, em iniciativas e organisações dessa ordem com o resultado de se ter feito no Recife, há quinze anos, muita coisa que só agora o Rio está tentando fazer no Brasil inteiro: revisão de "tests", europeus e norte-americanos, para sua adaptação às condições brasileiras e regionais; levantando do vocabulário infantil: higiêne mental nas escola; educação cientifica da criança anormal; controle científico das atividade das chamadas seitas africanas, até ele e depois dele, sujeitas ao regimem de perseguição policial adotado com relação a essas sobrevivências de cultura negra entre nós por bachareis e jesuitas do Império e da República, esquecidos do exemplo de tolerância inteligente dos capitães-gererais e dos missionários do Brasil colonial. A Ulysses se antecipara Nina Rodrigues em denunciar o erro, o mal, a precariedade da pretendida solução policial do problema das sobrevivências religiosas africanas em nossa paisagem cultural; mas foi Ulysses quem demonstrou prática e de cisivamente a superioridade da solução cientifica sobre a policial.

Nunca a vida inquieta que Ulysses viveu desde os seus primeiros dias de médico, quando ao lado dos tambem recem-formados Arsenio Tavares, Fernando Simões Barbosa, Olivio Alvares e Edgar Altino e tendo por inimigos comendadores então poderosos, levantou-se não contra o espirito bom de tradição cristã e lusitana das santas casa mas contra o mau espirito de rotina e de inercia, de estagnação e de intolerancia da Santa Casa de Misericordia do Recife de então, batendo-se com todo o vigor de moço pela reforma do hospital de Alienados da Tamarineira, nunca a vida de Ulysses Pernambucano deixou de ser tambem a de um estudioso amigo dos livros profundos, das pesquizas objectivas e dos serões tranquilos. Era então outro Ulysses, diverso do homem de ação sempre na ofensiva. Só não era todo receptividade porque o critico não deixava o leitos abandonar-se à leitura passivamente. Lia ativa e criticamente. O estudioso critico que sempre se conservou explica o professor extraordinário que foi Ulysses - um dos maiores professores que o Brasil tem tido em qualquer especialidade; explica o orientador admiravel de pesquisa cientifica, sempre atual nos seus conhecimentos. O homem de ação nunca matou em Ulysses Pernambucano o homem de estudos, o critico menos dos outros do que de si próprio, o professor, o técnico, o cientista, o pesquisador.

E o cientista não foi nele o especialista estreito da ciência: aquele que fóra das verdades do laboratório só vê ficções. Ulysses estimulou e até cultivou valores de inteligência, de cultura e de sensibilidade que o laboratório sózinho não desenvolveu em ninguem. Admirava as paisagens tropicais e as mulheres bonitas, as velhas igrejas, os velhos moveis, os pintores clássicos, os poetas antigos; e tambem a arte dos artistas e escritores jovens, revolucionários e experimentais. Era humanista e não apenas um cientista do mesmo modo que era um cientista e não apenas um técnico da medicina ou da psiquiatria. Ao humanista não eram estranhas, como supõem alguns que o conheceram superficialmente, as preocupações religiosas: sua sensibilidade, o mistério cristão tocou-a em mais de um ponto e mais de uma vez.

Não que o medo da morte, com a qual desde 1936 andou sempre, e mais do que o poéta célebre, de "rendez-vous" marcado, esperando cavalheirescamente pela dama misteriosa, tivesse feito dele um devoto retardatário de terço de São Francisco ou simplesmente de missas aos domingos em Santo Antônio. Ninguem demorou perto da morte com mais tranquila coragem do que Ulysses Pernambucano durante a crise que resultou de sua prisão estupida em 1935. Em 1936 estive junto dele em algumas de suas noites mais terriveis de doente desenganado por todos os médicos: mesmo pelos otimistas. Ele, porém, as atravessou sem uma covardia.

Em Ulysses a sensibilidade ao mistério cristão tomou aspeto tão diverso dos de devoção convencional ou de piedade ostensiva - dessa que às vezes recomenda advogados, engenheiros e médicos menos humanitários do que parecem, a simpatia dos negociantes ricos e dos mordomos de casas pias, e, tempo de eleição, aos sufrágios das chamadas ligas eleitorais católicas - que de sua discreta maneira de ser de Cristo pelo sentimento intimo e pela ação quotidiana e não pelos muitos pelos-sinais nos domingos ou nas procissões, apenas se surpreendem os traços característicos no seu modo de ser médico, de ser homem público, de ser fraternal com os outros homens, necessitados dele, de sua ciência, de sua compreensão, de sua simpatia, do seu fervor reformista. Não digo que essa seja a forma única ou ideal dos homens serem verdadeiramente cristãos - nem sou no assunto autoridade mesmo miuda; mas é certamente uma das maneiras de alguns serem de Cristo sem pertencerem a organisàção ou seita que conserve ortodoxa e zelosamente o cristianismo, supondo-se a predileta do Senhor por seu sistema mais rigido de dogmas e ritos, alguns aliás, muito poeticos e comovedoramente belos. O que me interessa acentuar é que Ulysses Pernambucano longe de ter sido o irreligioso que alguns supõem ter sido foi a seu modo religioso e até cristão: um religioso e mesmo cristão que sua doença de morte não inventou mas apenas subtilizou e aguçou, intensificando nele zonas de sensibilidade a um mistério que só o muito simplismo nega ou ignora.

Ele nem o negou nem o ignorou. Sua ciência não era das que negam ou ignoram o que escapa ao dominio dos laboratórios. Seus próprios doentes - os doentes de sua especialidade, isto é, os mentais - foram sempre para ele uma expressão constante do mistério que nos acompanha na vida, sem se deixar captar nem explicar de todo por ciência nenhuma; e estou agora mesmo a recordar-me do sai em que comentámos o livro célebre de Villiam James Varieties of Regious Experience.

Com James, aliás, penso que Ulysses Pernambucano se pareceu em muitos dos aspectos de sua vida personalidade de inquieto; e o psiquiatra brasileiro bem que viveu a frase que o grande psicólogo norte-americano e mestre de pragmatismo escreveu numa de suas cartas: "Life shall be (built in) doing and suffering and creating".

Pois Ulysses Pernambucano é dos que passaram pelo mundo agindo, sofrendo e criando. Não foi um professor que se limitasse a ensinar e nem um diretor que se contentasse em dirigir burocraticamente repartições ou serviços.

Quando George Bernard Shaw escreveu maliciosamente dos professores que "those who can do, do it, those who can not do teach it" ("os que sabem, fazem, e os que não sabem fazer, ensinam"), não atingiu nem de leve o Professor Ulysses Pernambucano de Melo. Ele ensinava o que sabia fazer. Nem o atingia a generalização, semelhante à de Shaw, que mais de uma vez ouvi de meu mestre na Universidade da Columbia, o grande sociologo da geração de James, Franklin Giddings: "os que podem agir, agem; os que não podem agir, estudam". Ulysses Pernambucano foi homem extraordinariamente capaz de estudos voluntários: o de latim com o tio ranzinza, por exemplo. Sentiu sempre a necessidade e experimentou o gosto e a alegria do estudo.

Tambem me lembro de vez em que comentámos ideias de Whitehead numa de nossas conversas de fim de tarde, essa no Rio: num Rio que tanto quanto o Recife estava deixando de ter para nós o encanto não digo antigo, mas essencial, pelo excessivo furor de imitação de cidades europeias e americanas da parte de prefeitos, de engenheiros, de sanitaristas, de novos ricos dessas e de outras cidades velhas do Brasil, quasi todos, técnicos ou diletantes destituidos da "força superior de direção" a que o inglês se refere. "Força superior de direção" que no Rio teria poupado certos morros, da edificação de arranha-céus e, no Recife, defendido a mais recifense das ruas - a da Aurora - dessa ponte nova e monstruosa que veio ultimamente desfigurar a boa rua à beira do Capibaribe em nome de uma "necessidade" que à semelhança da outra - a militar em tempo de guerra - desconhece leis e tradições. Eu lhe lembrei o que precisamente a esse respeito um grande médico norte-americano de origem alemã, Hans Zinsser, tinha escrito em palavras sibólicas: que estiveramos todos os modernos - e não apenas os norte-americanos - tão absorvidos pela plantação de batatas e de milho na vida de cada um de nós e na de todos, que nos esqueceramos das flores; e agora começam a nos faltar jardins no goso dos quais encontrassemos as razões de plantar batatas e milho. Não estaria a lição de equilibrio - perguntava eu então e pergunto ainda hoje - nos portuguezes, cujas antigas hortas emendavam como os jardins e cujos quiosques bem podiam ter sido modernisados ao lado dos arranha céus? Ulysses pensava que sim. E a verdade é que sua vida de credor, de renovador, de organisador foi um constante emendar de horta com jardim, sem nunca ter faltado a obra sua de creação ou de renovação, fosse casa, escola, sanatório, revista, colônia de laborterapia, congresso ciêntifico, doente curado dos nervos ou reajustado da mente, um jardim no goso do qual ele e seus colaboradores, seus alunos, seus doentes encontrassem razões para cuidarem de suas hortas (inclusive a cuidada por quasi toda a gente e por si só atividade terrivelmente incompleta: a saude pela saude). O jardim de um valor artistico, de um interesse intelectual, de um propósito moral, espiritual ou religioso de vida e de trabalho,

A saude pela saude não é por si só condição de vida nem nobre nem feliz. Aqueles homens experimentados no estudo e no trato de doenças como em sua vida de clinico e de ciêntista Ulysses Pernambucano, nunca terminam fanáticos (que foi tão grande médico que acabou filósofo) a observação de que mais vale um Chopin tuberculoso ou um Shelley neurótico que um mercieiro perfeitamente são.

Ulysses Pernambucano procurou vêr sempre nos seus queridos doentes mentais o que neles há quasi sempre, sinão de prosaicamente util, de poeticamente valioso para a comunidade, tão pronta, em nossos dias, a considerar vãos os homens principalmente jardins. Quanto a verdade é que só com homens principal ou exclusivamente hortas a cultura humana se empobreceria de modo terrivel.

Que são quasi todos os poetas - excetuado um ou outro Browning - quasi todos os artistas, quasi todos os pensadores, quasi todos os misticos senão jardins que transbordam de hortas, como no caso de Spinola, o filósofo trasbordou do fabricante de lentes, sem deixar de conviver como ele? Sempre vi em Ulysses Pernambucano - um Ulysses preocupado não só com o estudo e tratamento de adulto desajustados do meio, como com a educação de crianças anormais - um homem não simplesmente de ciência mas sensivel ao mistério da vida humana, empenhado em descobrir nos individuos fracassados como "hortas", como "uteis", como "normais", a possibilidade de florescerem como jardins, para salvação deles, individuos, ou antes pessoas, e elevação intelectual e enriquecimento cultural da comunidade inteira.

Não é Max Weber quem observa que nas comunidades primitivas como nas civilizadas os tipos psico-patólogicos são os profetas e pela sua condição de desajustados, os reformadores? E não só os reformadores: os grandes creadores, os grandes criticos, os grandes experimentadores.

A comunidade, Ulysses Pernambucano nunca a perdeu de vista ao analisar nos seus doentes casos de desajustamento ou de desorganisação de personalidade. E com a maior experiênciaclinica, com o maior aguçamento sua de técnica de psiquiatra e de sua ciência de psicólogo, desenvolveu-se em Ulysses, como noutro psiquiatras modernos, a ideia de correlação da desorganisação da sociedade com a desorganisação da personalidade. Correlação entrevista de pontos de partida diferentes do psiquiatrico e do psicólogo, pelos estudiosos de problemas de antropologia social ou de sociologia.

Nada mais natural que um psiquiatra do espirito cientifico de Ulysses Pernambucano ter chegado, ao interesse pela sociologia e pela politica: pela Politica com P maiúsculo de que falava Joaquim Nabuco, é claro. Que psiquiatra moderno pode, na verdade, ser alheio às situações criadas pelo processo ou mecanismo de competição na sociedade em que vivemos desde a chamada Revolução Industrial, com suas lutas de classes, de raças e de nações e suas disputas de espaços chamados "vitais" e de mercados inermes para a produção capitalista? Existe um livro - o de Karen Horney: The Neurotic Personality of our Time, publicado em Londres em 1937 - em que a psiquiatria moderna, pela voz de um de seus mestres, diz em inglês mais ou menos o mesmo que Ulysses Pernambucano vinha dizendo provincianamente em português: que o método terapéutico individual é incapaz de ajustar personalidades desorganisadas quando essa desorganisação depende do dominio do sistema de competição sobre a vida das sociedades. Para Karen Horney "in order to achieve results the whole social mechanism of competition ought to be altered".

Não que pareça possivel ou siquer desejavel eliminar dos processos sociais básicos, o de competição; mas que tudo indica que é possivel à sociedade humana servir-se desse processo sem tornar-se expressão passiva do seu dominio. Tudo indica que é possivel dirigir-se o esforço de reorganisação do sistema atual de relações inter-pessoais e inter-regionais no sentido da "satisfação psicológica" de que fala Karl Mannheim ao entrever uma sociedade em que o lucro não seja o critério único de produção econômica; uma sociedade que prefira trabalhar por métodos menos eficientes do ponto de vista da massa da produção, mas que deem aos trabalhadores "maior satisfação psicológica". Numa sociedade assim reorganisada, os meios psicologicos, sociais e técnicos empregados para a reorganisação seriam considerados do ponto de vista dos seus "efeitos no carater" ou na possibilidade dos homens tanto quanto do ponto de vista de sua "eficiência técnica". Psicólogos, psiquiatras, sociólogos, econômistas, juristas, técnicos em produção deveriam todos cooperar na obra cientifica de reorganisação que se esboça; e não apenas os técnicos de produção, os juristas os especialistas em finanças. Não terá havido ausência ou escassês de orientação cientificamente psicológica no esforço de organisação da Russia antiga em União de Repúblicas Soviéticas Socialistas? É o que parecem indicar algumas retificação tardias mas inteligentes que alí se processam.

Ulysses pernambucano - repíto - não era psicólogo só de laboratório nem de psiquiatria só de clinica mas psicólogo e psiquiatra sociais. Estou certo de que para ele a psicologia e a psiquiatria deviam participar da reconstrução das sociedades desorganisadas pelos excessos do capitalismo: pelo seu sistema de competição destruidor da saúde mental de tantos homens. Sei que se interessou muito pelas observações de Faris acerca da ausência de certas doenças mentais entre os Bantú, quando em as revelei em conferência realisada a seu pedido na qual tambem esbocei a aplicação à populações brasileiras do critério da classificação psicólogica de Benedict. Foi isto há quatro anos.

Bertrand Russell escreveu num de seus melhores ensaios que graças à ciência (à fisica, à quimica, à biologia) o homem moderno vem libertando-se de medos ou pavores que o oprimiram durante séculos: o medo das pestes, o da fome, o das inundações, o dos trovões, o do raio, o das secas, o das tempestades; e tambem - acrescentemos a Russell - o medo dos lobos, o das cobras, o dos papões, o das cabras cabriolas. Mas ao lado da diminuição desses pavores e dos males a eles correspondentes vem se verificando o aumento da sujeição do homem a outro homens; e essa sujeição, tantas vezes-note-se de passagem - da gente melhor á mais incapaz ou mais deshonesta, acompanhada de novas formas de pavor ou de medo da parte de muitos dos oprimidos com relação aos opressores: o medo do ditador ou do partido politico dominante. O medo das Gestapos. O medo dos "Estados fortes". O medo dos Jesuitas. O medo Klu Klux Klan. O medo dos Camisas Pretas. O medo dos Camisas Pardas. O medo dos Camisas Verdes.

Russell pergunta: "Will science in the end, deal with this form of fear?". E responde otimista: "I think it will".

Ulysses Pernambucano era igualmente otimista sobre o papel da ciência na libertação dos homens e das comunidades de males sociais e de pavores correspondentes a esses males. Ele era capaz de subscrever quasi sem reserva ou restrição estas outras palavras de Bertrand Russell: "É altamente provavel que dentro de cem anos adquirimos sobre o carater das crianças o mesmo dominio que agora temos sobre forças fisicas. Poderemos então, si nos dispuzermos a tanto, eliminar o medo das relações entre os seres humanos do mesmo modo que já o eliminamos das relações dos seres humanos com a natureza".

Na sua fé na aplicação da ciencia à vida social e psiquica dos homens, Ulysses era muito inglês e muito americano, tinha qualquer coisa de instrumentalista. Havia nele mais de uma afinidade com os psiquiatras, psicólogos e sociólogos norteamericanos da tradição de James e da corrente de Dewey. E é pena que tenha morrido sem ter visitado os Estados Unidos, cujo Departamento de Estado parece ás vezes requintar-se, através de sua Seção de Relações com as Repúblicas Latino Americanas, em festas e agrados aos sulamericanos menos simpáticos aos chamados yankismos, despresando quasi ostensivamente os amigos sinceros dos bons e dos maus dias, que teem entre nós os Estados Unidos. Quando ha ano e pouco Charles Thomson, do Departamento de Estado, de passagem pelo Recife perguntou-me que brasileiros de Pernambuco deveriam, na minha opinião, ser convidados pelo Governo americano a visitar os Estados Unidos, o nome que indiquei em primeiro lugar foi de Ulysses. E creio que brasileiro nenhum da mesma especialidade teria derivado maior proveito do contacto com os psiquiatras norteamericanos, nem cooperado mais vivamente para o desenvolvimento das relações de cultura ciêntifica entre os dois paizes. Pois nenhum reunia tão explendidamente ao espirito cientifico o espirito público; ao espirito contemplativo o ativo.

Vê-se por esses traços da personalidade de Ulysses Pernambucano que ele próprio foi sempre mais que hortelão de sua especialidade: dentro e fora dela amou e até cultivou o aparentemente inutil. E esse médico, esse administrador, esse homem de ação com o sentido poetico das coisas e dos valores humanos a lhe completar a objetividade, é que o Brasil de nossos dias deixou de aproveitar em cargo à altura de saber, de um talento de organização e de um fervor social verdadeiramente raros. Mas é o mesmo Brasil que conserva em lugar quasi esteril o cientista superiormente dotado de capacidade de direção, de apreensão poética e de fervor social que é Roquette Pinto. É o mesmo Brasil que não pede a um Silva Melo nem a um Teixeira de Freitas que oriente sua politica de cultura. É o mesmo Brasil que deixa fazer-se contra Anesio Teixeira, sem um grande protesto viril da parte de todos os intelectuais livres, a campanha infame cujo fim único é inutilizar para o serviço público tão grande inteligência de organisador e de reformador de ensino, odiado toda a gente sabe porque, pelos Jesuitas portugueses e alemães instalados triunfalmente no Brasil: em São Leopoldo, no Rio, no Recife. Desses Jesuitas sabemos todos que pretendendo ser os senhores de nossa vida querem ver tudo que é posto de direção intelectual em nosso paiz ocupado por gente inteiramente sua, isto é, por gente operada por seus cirurgiões de quando seja sinal de virilidade intelectual e de varonilidade civica; ou estão mediocre, tão inerme, tão sem vontade, que não lhe faça falta a operação sinistra.

Não tenho duvida hoje quanto aos inspiradores da prisão injusta, longa e brutal de Ulysses Pernambucano como "comunista", em 1935; foram os mesmos que em 1937 instalados mais a cômodo que naquele outro ano em postos de direção do Estado de Pernambuco arredaram a frio e não sob paixão nenhuma de momento, do Ginásio Pernambucano, a maior figura de mestre que enobrecia então a velha casa de ensino da Rua da Aurora; e arredaram-no daí, fulminando-o com o artigo 177 da então nova Constituição, cujo servir de instrumento a ódio tão mesquinho, contra brasileiro tão merecedor do respeito de sua gente. Data, como se sabe, da prisão de Ulysses em 1935, na imunda Casa de Detenção do Recife, a doença que o acaba de matar aos cincoenta anos. Mas sei bem que não contribuiu pouco para esse assassinato lento a aposentadoria de 1937, cínica, fria, traiçoeira, recebida, aliás, sem protesto nenhum, pelos colegas de Ulysses Pernambucano no Ginásio, alguns dos quais, ao saberem, da violência só faltaram sumir-se nas suas becas como dentro de saias de sinhávelhas apavoradas. O peior, porém, é que essas mesmas saias se amaciaram em tapetes para a aclamação que não tardou em realizar-se, ao responsavel principal ou ostensivo pelo ato ainda quente contra o catedrático de Psicologia da casa, contra a figura de mais alto valor da congregação, contra o reorganisador, o modernisador, o higienisador das instalações do mesmo Ginásio no Governo de Estácio Coimbra.

Sempre hei de me recordar como de um exemplo de altivez e de dignidade quasi escandalosa para o Brasil da nossa época, da atitude que Ulysses Pernambucano guardou ao ser atingido pelo artigo 177 da Constituição de 1937. Sempre hei de me recordar das respostas incisivas que deu Ulysses às comadres de voz macia que sempre aparecem nessas ocasiões para desviar a responsabilidade de atos repugnantes, dos seus verdadeiros autores, para atribui-los aos habitantes da Lua ou aos monstros de Marte. Sempre hei de ter viva diante de mim sua expressão de nojo - nojo fisico - quando lhe foram sugerir a indignidade de não se mostrar zangado com o responsavel ostensivo pela mesma aposentadoria, o qual se mostrava ancioso, acrescentavam as untuosas comadres por uma reaproximação com ilustre vencido. Ilustre vencido outrora muito babujado, adulado e festejado pelo individuo que tantas vezes se tem transformado em inimigo dos seus mais generosos protetores.

Sem prejudicar financeiramente um médico de tão boa clínica como Ulysses, procurado e adulado pelos próprios inimigos quando mais seriamente atingidos por tangolomangos da cabeça ou da espinha, a aposentadoria de 37 avisou nele a ferida aberta pela injustiça de 1935. Avivou nele a relação à injustiça. E isto com sacrificio de sua saude tão visada quanto sua dignidade pelos raposões unidos contra ele.

Os alagôanos hão de me perdoar o emprego de algumas expressões ásperas, ao recordar passagem tão triste - triste para o Brasil - da vida, ou antes da lida, de Ulysses Pernambucano. Como evitá-las, porém? "Raposo" é, aliás, expressão que saiu da boca do próprio Cristo quando teve de referir-se a certo homem poderoso e velhaco dos dias do Nazareno na terra. O aumentativo é que vai por conta de meus exageros de mau cristão.

Outra passagem da vida de Ulysses que devo recordar é da sugestão que, por iniciativa dele, fizemos, de público, aos usineiros desta região, Ulysses Pernambucano, eu, Olivio Montenegro e Silvio Rabelo: a sugestão de um inquerito que revelasse as extras condições de vida, de alimentação, de habitação, de trabalho dos operários das nossas fábricas e servisse de base a providências que estavam tardando no interesse de grande parte da população trabalhadora do Nordeste monocultor e latifundiário e no interesse dos próprio usineiros. Pois os usineiros viriam a lucrar com a valorização dos homens de trabalho uma vez verificadas suas deficiências e suas necessidades mais sérias.

Ou muito me engano, ou esse clamor de quatro intrusos nos negócios até então quasi sagrados dos senhores dos canaviais, contribuiu poderosamente para o atual e incompleto "Estatuto da Lavoura da Cana". Na época, porem, em que foi publicado nos jornais, o clamor levantou iras tão grandes que pouco faltou para que os homens de dinheiro do Nordeste, unidos por um instante contra inimigo comum, mandassem levantar na Praça da Independência, sinão um patíbulo, ao menos um arremedo da velha polé dos dias coloniais do Recife, na qual os quatro atrevidos fossem castigados e moido como mereciam e de modo solene; convocado o povo para o espetaculo e destacado um jesuita do Nóbrega para consolar nas suas dores ou conduzir ao arrependimento os agitadores, adoçando-lhes as bocas de impios, como nas antigas funções lusitanas e brasileiras do mesmo gênero, com doces cristalizados e bombons finos de açucar de usina que, no caso, teriam um sentido irônico ao lado do piedoso.

Quem escreveu o pequeno manifesto fui eu, a pedido de Ulysses Pernambucano que não tinha a pacholice, tão de outros médicos e de alguns advogados, de considerar-se escritor, embora sua frase fosse às vezes incisiva e sempre clara. Mas devo repetir que a iniciativa foi dele, embora o assunto fosse cuidadosamente discutido pelos outros de resolvida a arriscada publicação e a ideia decorresse de sugestões de estudos meus já publicados. A ira maior que se levantou foi, porém, contra Ulysses, pelo fato, segundo parece, de que dos quatro era o único que tinha então automovel - e automovel bom; vantagens que alguns ricaços consíderavam exclusividade sua e prívilegio dos homens de governo, seus camaradas. Nada mais comico, na verdade, do que a ideia de certos ricos de que qualquer homem de tendencias socialistas, si tiver algum dinheiro e, principalmente, si possuir automovel, deve cuidar de desfazer-se de tudo e vestir trapos, como si reduzindo-se ao estado de pobretão ele concorresse para a solução das injustiças sociais que denuncia ou critica. Era o Ulysses Pernambucano que seus inimigos teriam desejado - fracassada a ideia, de certo mais gostosa, do patibulozinho ou do arremedo de polé na Praça: um Ulysses Pernambucano de botinas cambadas e de roupas sovadas, farejando restos de comida nas cosinhas dos palacetes e visitando seus clientes a pé.

Foi com o apoio inteligente e corajoso de Ulysses que ousei organisar, auxiliado por um pequeno grupo de amigos - talvez o grupo mais heterogeneo que já se reuniu no Brasil para organisar um congresso: médicos, estudantes, babalorixás, rainhas de maracatú, escritores, artistas, professores, operários - o Primeiro Congresso Afro-Brasileiro. Com o apoio, somente, não; a ideia do Congresso não me teria talvez ocorrido si não fosse o trabalho interessantissimo que Ulysses Pernambucano vinha realizando de controle cíentifico das chamadas seitas africanas do Recife. A principio pensei em realizar não um congresso principalmente de documentação viva e de estudo panorámico de assuntos afro-brasileiros como o que se realizou, afinal, mas um congresso de "seitas" ou "religiões" de origem africana, que reunisse babalorixás ou delegados das principais seitas chamadas africanas existentes no Brasil. Mas tão forte era o sentimento de ortodoxia da parte de alguns chefes de seitas que verifiquei ser impossivel o conclave imaginado. Sobre esse fracasso é que se desenvolveu a ideia do Congresso Afro-Brasileiro do Recife, tornando possivel pelo trabalho de higiene mental e, ao mesmo tempo, de investigação cientifica, realizado em Pernambuco por Ulysses Pernambucano e por seus colaboradores, em torno das sobrevivências religiosas de cultura africana.

Volto ao assunto para acentuar que, no modo de tratar as chamadas seitas africanas, Ulysses Pernambucano iniciou no Brasil uma obra notavel de antropologia aplicada que, infelizmente, só durou os últimos anos do governo do Sr. Carlos de Lima Cavalcanti. O sucessor deste voltaria ao simplismo, denunciado ha quasi cinquenta anos por Nina Rodrigues, de procurar resolver problema tão complexo pela pura violência policial. Ulysses Pernambucano procurou resolvê-lo pelo controle docemente cientifico das chamadas seitas e pela ação profilática ou preventiva contra qualquer surto de fanatismo, charlatanismo ou imoralismo entre elas. Ação relativamente facil dentro do controle estabelecido. Ao mesmo tempo permitiu esse controle o estudo cientifico de sobrevivências afrícanas não só curiosas como significativas em relação com o desenvolvimento de outros aspectos de nossa cultura.

Assim toleradas, as seitas viriam a morrer lentamente de morte como que natural, enquanto a violência policial contra elas - violência a serviço do ódio teológico - só tem feito animá-las à vida longa e à resistência mais enérgica à catequese. Resistência sobre disfarces e dentro de segredos que lembram, em traços de caricatura, é claro, os esforços de sobrevivência dos cristãos das catacumbas nos seus grandes dias de pioneiros heróicos perseguidos pela policia de Roma.

Não ha duvida de que o modo mais inteligente e mais caridoso de uma cultura invasora e senhoril comporta-se deante da indigena ou da reduzida à condição servil e que politicamente subordinada e tecnicamente inferior á invasora, é o adotado por Ulysses Pernambucano em relação com as chamadas seitas africanas de Pernambuco e hoje seguido nos Estados Unidos pelo "Office of Indian Affairs". Precisamente essa inteligência e essa caridade lucidamente cristã é que me parece terem faltado ao sistema de catequese dos jesuitas no Brasil, sob outros aspectos tão lucido e tão eficiente e com expressões até heroicas de atividade.

Foram problemas, estes, que mais de uma vez discutimos eu e Ulysses Pernambucano, às vezes em torno de notas, ou trechos ainda em borrão do ensaio CASA GRANDE & SENZALA, parte do qual foi escrito na sua casa à rua Cardeal Arcoverde: a boa casa azul de que fui hóspede durante dois mêses, em 1932. A boa casa onde todos os domingos o casal Pernambucano recebia amigos tão diversos.

Ulysses previu a celeuma que levantaria aquela minha critica aos métodos jesuitas, mas considerou-a justa do ponto de vista de psicólogo e do psiquiatra sociais. A obra de europeisação de cristianisação do amerindio entre nós deveria ter sido iniciada com inteligente vagar, respeitando-se o mais possivel os valores de cultura dos vários grupos indigenas e evitando-se sai desintegração rápida ou completa. Foi justamente o que não fez a Companhia de Jesus, anciosa como nenhuma outra ordem missionária no Brasil dos primeiros tempos, de resultados imediatos de catequese; e essa catequese dominada, nos primeiros colégios, pelo critério intelectualista de educação dos colomis. Critério violentamente contrario aos gostos, aos interesses, às condições econômicas dos amerindios internados nos colégios dos padres onde raros perderiam contacto com a terra e com a cultura materna da qual, pela vontade dos mestres jesuitas todos se tornariam inimigos e destruidores absolutos. Sucedeu, porém, que a terra e cultura materna continuaram a atrair secretamente os meninos arrancados violentamente de suas raizes e "europeisados" quasi "in vacuo". Assim se explica o fracasso do primeiro tipo de catequese adotado pelos jesuitas no Brasil, fracasso que se refletiu lamentavelmente sobre o futuro do Brasil. Semelhantemente assim se explica o fracasso dos métodos e das supostas soluções policiais com relação a problemas como o das sobrevivências religiosas africanas em nosso meio. Vários cientistas e muitos brasileiros teem se insurgido contra tais soluções. Mais foi Ulysses Pernambucano que mostrou - repito - com o seu extraordinário esforço, a possibilidade de resolver-se o problema brasileira e cientificamente.

Os que conheceram bem Ulysses sabem que foi trabalhador formidavel. Casa ou instituição administrada por ele era casa ou instituição em que todos trabalhavam, contagiados pelo exemplo do chefe. Foi assim na Escola Normal de Pernambuco, que encontrou arcaica burocrática e deixou um primor de organisação moderna. Foi assim no Ginásio, hoje Colégio Estadual de Pernambuco, casarão tristonho e sujo com uma velha repartição pública, em pouco tempo transformado pelo seu poder de administrador numa das casas de ensino no Brasil mais simpáticas no ambiente e mais modernas nas instalações. Foi assim no Hóspicio da Tamarineira: prisão horrivel de que fez um doce hospital, acrescentando à reforma das instalações técnicas aquele seu sentido "estético" ou "poetico" e "superior" de direção e cuidado, como se cuidasse de pessôa velha e doente da casa, de uma antiga mangueira do sitio, atacada de não sei que mal.

Pode-se louvar o trabalhador, o homem ativo, o homem incansavel num administrador da lucidez, do saber técnico, do gosto artistico, da simpatia humana de Ulysses Pernambucano. Mas Deus nos livre da leviandade, a que qualquer um de nós pode desprevenidamente ser arrastado, de louvar, sem discriminação, qualquer individuo trabalhador só por ser trabalhador. Num individuo sem gosto, sem compet6encia, sem orientação, instalado em cargo de prestigio - nesse individuo é um erro louvarmos o trabalhador quando ele de fato foi ativo e incansavel. Pois a verdade é que sendo trabalhador, ele só faz irradiar sua incompetencia, sua desorientação, sua pobresa de gosto. Toda a vez que do governo de uma cidade, de um estado ou de um reino sejam afastados, por isto ou por aquilo, os homens autenticamente de valôr, manda o bom senso que nos peguemos com Deus e com todos os santos par que conserve os senhores novos, por mais efémeros, mais inativos absolutos e magnificos que engordem de ócio ou arrebente de gozo, mas deixem em paz a cidade, o estado ou o reino. Nunca nos passe pela mente elogiar um prefeito, um governador ou um rei dizendo dele: "é um camelo, é uma zebra, é um cavalo; mas felizmente para a Cidade ou o Estado ou o Reino, muito trabalhador!" Porque o incompetente trabalhador é mil vezes mais nefasto à Cidade ou ao Estado ou ao Reino que o tiver por prefeito ou governador ou rei, que o incompetente ocioso. O incompetente ocioso quando as circunstâncias são as que acabo de referir deve ser cultivado com carinho e até ternura pela cidade ou pelo Estado ou Reino que tiver por chefe ou sultão: e tal pode ser o préstimo de sua atividade, que, ao finar-se de inercia, venha a merecer dos súditos, túmulo suntuoso de marmore ou estátua equestre de bronze. Os súditos poderão então dizer, agradecidos e engulindo o choro sincero e justo: "Ele não nos poz abaixo a catedral para alargar uma praça sem movimento". Ou: "Ele não destruio as árvores mais belas e velhas da Praça para edificar um mictório em estilo gótico ou mourisco". Ou: "Ele não inventou máquinas complicadas de pescar siobas, curimãs e cavalas e matar bois e carneiros que afugentaram todos os peixes das nossa aguas e todos os animais de córte dos nossos matadouros fazendo a gente de nossas terras morrer de fome".

Deus nos livre, com efeito, da atividade, do dinamismo, da operosidade dos administradores incompetentes. Deus nos favoreça com a inercia mussulmana, com a preguiça napolitana, com a languidez indú dos administradores, quando eles não forem homens de competência, do gosto da inteligência de um Ulysses Pernambucano.

Em Ulysses a atividade criadora não parou nunca. Donde o dever que toca a todos nós, seus amigos, seus admiradores, seus colaboradores, de procurarmos completar o que ele deixou incompleto: a Escola para Anormais, por exemplo. E o Instituto de Pesquizas Sociais. A ideia levantada por um de seus amigos, de uma Fundação Ulysses Pernambucano que reúna as duas últimas iniciativas de Ulysses - os dois grandes esforços que ele não poude completar não é sinão o simples cumprimento de um dever da nossa parte: dever de amizade e dever de civismo. E esse dever devemos estar dispostos a cumpri-lo mesmo tendo de enfrentar dificuldades que para Ulysses vivo teriam sído antes estimúlos que motivos de desanimo. Já há quem namore com olhos de glutão de bocados quasi feitos. O prédio da Escola de Anormais que será tambem a séde do Instituto de Pesquizas Sociais do Nordeste. Mais nós saberemos defender de semelhante glutoneira, através da Fundação, a obra inacabada de Ulysses.

Meus amigos: -

Alagôas acaba de receber-me nesta sua casa de inteligência e de cultura, cuja congregação reune competências ja definidas em assuntos de Direito e outros e de estudos sociais, com uma generosidade dificil de ser esquecida. Compreendo agora a simpatia do meu amigo Odílon Nestor por esta escóla: é na verdade uma das melhores esperanças do Nordeste. E o Nordeste não pode viver só de tradições paradas, embora ilustres: precisa tambem de viver do que legitimamente possa esperar de suas instituições jovens.

Esta escola é uma instituição nova que a gente das antigas vigia com olhar duramente critico. Reuniões como a de hoje servem para mostrar aos criticos vigilantes que a Faculdade de Direito de Alagoas não é casa de comércio mas de estudo e tambem de preocupação com os problemas sociais do Brasil.

Á palavra moça e lúcida de Afránio de Melo, juntou-se a voz sempre jovem e admirada de mestre do Professor Guedes de Miranda, para dar expressão e sentimentos e relevo a ideias que vejo não serem aqui apenas de um grupo irredutivel mas da escola inteira. É a Escola de Direito inteira que ostenta, em Alagôas, o idealismo democrático, afastado do qual está provado que o Brasil não se sente verdadeiramente brasileiro nem integramente americano.



Fonte: FREYRE, Gilberto. Ulysses. Maceió: Faculdade de Direito de Alagoas, 1944. 29p.

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