GILBERTO FREYRE AOS 70
Entrevista concedida a Renato Carneiro Campos, Recife 1970.
Em entrevista especial para o "Diário da Noite", o escritor Gilberto Freyre, indicado por diversas instituições brasileiras como candidato ao Prêmio Nobel de Literatura, responde a uma série de perguntas, não se esquivando responder nem mesmo as consideradas mais indiscretas. Segundo êle próprio, ainda não havia concedido tal tipo de entrevista a nenhum jornal, revista ou rádio, nacional ou estrangeiro, dentro das inúmeras que já concedeu. O nome do entrevistado não precisa de
apresentações, pois ampla e profunda tem sido a sua participação na vida cultural brasileira, sem esquecer a repercussão que o seu nome vem obtendo no exterior através das traduções dos seus livros em diversos países e das homenagens que já lhe foram prestadas por instituições culturais européias e norte-americanas. Assim sendo, passamos diretamente às perguntas e respostas.
- O Movimento Regionalista e Tradicionalista ainda repercute nas novíssimas gerações literárias?
G.F. - O espírito do Movimento, sim, principalmente pelo que conciliou de Regionalismo e Tradicionalismo com o Modernismo que, de modo algum, lhe faltou. Êsse modernismo foi trazido diretamente dos Estados Unidos, de Paris, de Oxford, de Munich ("New Poetry", "New Criticism"; "New History, Imagismo, Expressionismo, Pos-Cubismo) por iniciadores do Movimento no Recife: Gilberto Freyre e Vicente e Joaquim do Rêgo Monteiro.
Em Paris êles três conviveram com Tarsila, Brecheret, Oswald de Andrade, paulistas, com os recifenses e os paulistas recebendo sugestões parisienses, artísticas e intelectuais, modernizantes e de outro caráter, que cada grupo desenvolveria à sua maneira no Brasil. É êrro grosseiro filiar-se o Movimento recifense ao paulista-carioca.
- Concorda com os que julgam Guimarães Rosa o maior ficcionista brasileiro?
G.F. - Certamente o mais complexo e talvez se possa acrescentar o mais completo. Note-se que nêle se exprimiu, mineira e cosmopolitamente, mais o espírito do Regionalismo-Tradicionalismo, a seu modo Modernista, que o mais linear Modernismo carioca-paulista.
- O cinema e a televisão intensificam, divulgam, revalorizam ou estão modificando substancialmente a literatura?
G.F. - Cinema, televisão e também - não esquecer o rádio! - rádio, vêm decerto afetando a literatura no sentido de nela valorizar a expressão oral. Mas sem que essa valorização tenha importado, até agora, em desvalorização substancial de literatura gráfica. Uma maior interpretação do oral e do gráfico na literatura está decerto se verificando, ligada a possibilidades ou intenções de dramatização no teatro vivo, no rádio, na televisão, e no cinema, de criações de escritores do tipo gráfico. Mas é também certo de poetas moderníssimos que, em vez de se especializarem em oralidade, estão se esmerando em dar formas estéticas ou psicològicamente gráficas aos seus poemas.
- Por que até hoje não ingressou em nenhuma Academia?
G.F. - Falta de vocação acadêmica e não ânimo antiacadêmico. Receio, também, de que o convívio acadêmico prejudique minha independência de anárquico.
- Concorda com alguns críticos que prevêem um total desprestígio da palavra escrita, sobretudo em forma de livro?
G.F. - Não vejo a "palavra escrita" ameaçada de morte. Que uma palavra mista, meio-oral, meio-escrita, tenda a tomar relêvo com os adiantamentos técnicos dos meios orais, visuais, imagísticos, de difusão de obras intelectuais - várias delas, obras-primas escritas, antes de se tornarem som, expressão oral, gesto, imagem, côr - é um futuro já projetado no presente. Mas não me parece que êsse fenômeno importe na morte da "palavra escrita com sentido literário, sobretudo em forma de livro", indestrutíveis como evidentemente são certas ligações psicológicas e estéticas de certos valôres literários com suas expressões gráficas e não apenas escritas. Os aperfeiçoamentos da arte gráfica e de apresentação da palavra literária em livros inclusive em várias edições de
"livro de bôlso" - que vêm ocorrendo nos últimos anos é evidente que não são acontecimentos no vácuo: correspondem a uma demanda, a uma receptividade, a um gôsto vivo e não em declínio por essa parte e pelo que ela significa de associação com a palavra literária escrita.
- Considera maliciosa a aproximação entre Jorge Amado e José Mauro de Vasconcelos?
G.F. - Responderei de modo indireto, salientando que há dois ou três Jorges Amados e não um só. O de Terras do Sem Fim é um. O de Seara Vermelha é outro. Um me parece fortemente literário. Outro não. De um dêsses outros podem ser aproximados autores marginalmente literários, mas não sociológicamente desprezíveis, como José Mauro de Vasconcelos, cujo vendidíssimo
livro reproduziu, entre nós - é claro que em menor escala - o caso do sucesso, no século passado, nos Estados Unidos de A Cabana de Pai Tomás.
- Acredita em fôrças sobrenaturais? E nas "ocultas"?
G.F. - Acredito no sobrenatural: inclusive - como está fora de moda dizer-se isto! - em Deus. Quanto às chamadas fôrças ocultas são antes fenômenos susceptíveis de estudo científico que manifestações sobrenaturais, rebeldes a êsse estudo.
- Haverá lugar para o mágico no mundo futuro? E por que a figura do Diabo está ficando cada vez mais desmoralizada?
G.F. - Enquanto o homem fôr homem, haverá lugar para o mágico na sua vida e na sua cultura. Não creio que o Diabo, isto é, o Demoníaco, esteja "ficando cada vez mais desmoralizado". Desmoralizadas estão certas representações ou certas imagens convencionais do Diabo. Mas não o Demoníaco. Não o Demônio. Sabe-se que agora mesmo, em Paris, há uma revivescência da magia - inclusive da chamada negra. Só falta um nôvo Huysmans com a coragem de dar expressão literária
ao fenômeno. Um nôvo Huysmans ou um nôvo Milton.
- Considera-se mais popular do que aristocrata? As duas coisas podem se conciliar?
G.F. - Considero-me um misto do que possa ser denominado
popular e do que possa ser considerado aristocrático. Creio que êsse misto está no meu
comportamento, na minha vida, na minha convivência e também na minha obra literária e
na antropológica da antropológica científica à filosófica, incluindo a
sociologia. Obras inseparáveis da minha personalidade (o que pode vir perturbando sua
pureza ou seu purismo científico) e da minha vida. Meu próprio estilo de escritor
literário é um misto de popular com o emprêgo até de têrmos plebeus e
de aristocrático com a projeção, sôbre êle, de valôres assimilados de
clássicos e de modernos notáveis pelo que nêles é qualidade e até por virtudes
impopulares. Uma contradição.
- É antiracista apenas por atitude intelectual? O que
significa morenidade em relação ao Brasil.
G.F. Considero-me antiracista integral. O que venho identificando como morenidade é a crescente tendência, da parte do brasileiro há exceções: refiro-me ao brasileiro típico para não distinguir diferenças cromáticas correspondentes, na população brasileira, a diferenças étnicas, a tôdas as pessoas de côr, desde o apenas branco moreno ao prêto retinto, chamando-se morenos. O fenômeno semântico apresenta-se com significados sociológicos favoráveis à tese de que, no Brasil, cresce a tendência para aqui desenvolver-se uma democracia racial. Já
existe. Mas com deficiências. Tende a tornar-se mais ampla e mais efetiva - penso eu.
- É favorável à revolução sexual que está se processando na juventude?
G.F. - O que se verifica hoje é uma nova expressão na série de revoluções sexuais - revoluções quase sempre seguidas de contrarevoluções - que vêm se verificando na história social do Homem. A tendência para o unisexual têm, por vêzes, se manifestado contra a tendência para o bisexual, sem triunfo decisivo de uma sôbre a outra tendência. A moderna aceitação, em vários meios, do amor
homosexual como normal, não é novidade sociológica: houve entre os gregos. Parece-me saudável a extensão, que agora se verifica, do conceito de normalidades no comportamento sexual do homem, reduzindo-se a área de anormalidade a insignificâncias ou a raridades.
- Julga urgentemente necessária uma Reforma Agrária Brasileira?
G.F. - Sim. Já muito tenho me manifestado sôbre o assunto. Não diria, porém, "reforma agrária brasileira", no singular, e sim reformas agrárias brasileiras, no plural. Nesta matéria, como em várias outras, precisamos de ser pluralistas ou regionalistas, em vez de uniformistas. A reforma agraria reclamada pelo Nordeste brasileiro ou pelo extremo Norte não é, evidentemente, a mesma que precisa ser realizada em áreas como a paulista e a paranaense que, entretanto, necessitam de suas reformas agrárias. Nenhuma região brasileira mais necessitada de uma
inteligente - evitando-se simplismo ou demagogia ideológica - reforma agrária do que o Nordeste.
- Na época dos computadores eletrônicos, a mulher apenas de prendas domésticas ainda tem vez?
G.F. - A mulher apenas de prendas domésticas dificilmente
poderá sobreviver entre computadores: será um arcaismo. Uma mulher socialmente arcaica.
Mas, não creio que as chamadas "prendas domésticas" deixem de ter valor num mundo, como o que começa a definir-se como pós-moderno, no qual a automação, o tempo livre, o lazer permitam à mulher, como ao homem dedicar-se a artes - como a da cozinha, a do doce, a da costura, a do bordado, a do preparo de licores e vinhos particulares - que coincidem com as aptidões e os gostos de
ordinário classificados entre "prendas domésticas". Não pensemos no futuro em têrmos imediatamente modernos e sim pós-modernos. É aliás o assunto que procuro versar num livro em elaboração: Além do Apenas Moderno. Dêsse futuro livro já tenho lido trechos em conferências na Europa e no Brasil.
- Considera-se conservador ou de vanguarda?
G.F. - Misto, com ora uma tendência, ora a outra, sobressaindo. A tendência para a renovação ou a inovação, o ânimo experimental, o gôsto da aventura e do risco, têm sido, em mim - creio eu - predominantes. Predominantes mas não exclusivos. Dos seus excessos me tem resguardado o gôsto pela tradição, pela continuidade, pela própria rotina. É outra das minhas contradições.
Não posso, às vêzes, deixar de sorrir, com alguma malícia, dos reacionários - os adeptos do sistema totalitário em vigor, a custa da polícia política, na, sob vários aspectos, admirável União Soviética, por exemplo - que me classificam sem mais aquela como "reacionário". Ou como "superado".
- Gostaria de ver o Brasil transformado num grande império?
G.F. - Gostaria de ver o Brasil desempenhando mais efetivamente do que agora uma missão benéfica ao Homem; em geral a Missão que, transbordando das fronteiras nacionais, marcasse a presença brasileira em várias áreas do mundo: sobretudo naquelas de populações, culturas, passados, prováveis futuros, mais afins dos brasileiros. Essa missão o Brasil já está desempenhando através de alguns dos seus escritores e artistas - Villa-Lobos, por exemplo, mas não através de uma política geral ou sequer cultural seguida pelos seus governos. Neste particular, o México está mais avançado que o Brasil, sem ter uma mensagem de sentido humano a transmitir aos outros países tão ampla como a que o Brasil poderia estar transmitindo de um modo que o prestigiasse não só culturalmente mas politicamente.
A propósito do meu empenho de traçar uma política cultural nova para o Brasil - idéia esboçada em Nôvo Mundo nos Trópicos e noutros escritos - tenho recebido a melhor compreensão por parte de críticos situados dentro do mundo hispânico. Note-se: compreensão pelos também aspectos políticos esboçados, considerados até, por alguns dêsses críticos, como possuidores de "fundamentos pragmáticos", capazes não apenas de iluminar as origens mas os próprios destinos hispânicos. Ignácio Echalar no A B C, de Madrid, o pronunciamento do Centro Europeo de Documentacion, o internacionalista e professor de Direito Martinho Nobre de Mello, em Lisboa, o sociólogo argentino Alberto Calvo, na revista Política, são alguns exemplos, entre outros, que posso citar. Desculpe a parte pessoal da minha resposta a respeito desta sua pergunta. Com ela procuro compensar-me, certamente, do silêncio que se vem fazendo, no Brasil, em tôrno de muitas de minhas idéias.
- O liberalismo poderá ressurgir em grandes proporções no mundo moderno? Êsse fenômeno não já estará ocorrendo em relação aos países comunistas?
G.F. Liberalismo, ou liberalismos - o econômico, o político, o ideológico - nos seus sentidos específicos, sistemáticos, sectários, convencionais - não. No sentido lato mais poético do que lógico, sim. É êste liberalismo que está ocorrendo nos países chamados Comunistas, mas na verdade totalitários, através de insurreições - sobretudo de jovens - contra místicas e
contra podêres totalitários. Um saudável liberalismo, êste.
- Poderá haver realmente uma unidade sulamericana? Ou acontecerá justamente o contrário?
G.F. - Sou dos que acreditam numa crescente unidade hispanoamericana. Emprego a palavra hispano no seu exato sentido. Dentro dêsse sentido - o ibérico: panibérico -, o Brasil é uma nação hispânica. Sôbre o assunto tenho escrito mais de um ensaio. Num dêles sugiro ser o Brasil nação de formação duplamente hispânica: portuguêsa e espanhola. E pela sua singularidade entre as nações de
formação apenas espanhola, estar em situação ideal de mediador entre elas - quando em conflito intraespanhol - e de elemento de ligação delas com o Brasil para formarem um conjunto plurinacional que se empenhe na defesa e na promoção daqueles valores e interêsses inconfundivelmente comuns a êsse conjunto.
- A lusotropicologia possui um conteúdo filosófico-político?
G.F. - Na lusotropicologia que se desenvolva, como sistemática de estudo teórico e aplicável dentro de uma possível ciência geral - a Tropicologia, em especial desenvolvimento, no Brasil - e tendo como sistemática intermediária, uma Hispanotropicologia, é evidente que se encontra um conteúdo filosófico-político.
Aceitas como cientificamente válidas as formas que lhe dêem configuração antropológica, ao lado da ecológica, dessas formas começa a emergir um sentido filosófico-político coincidente com tradições, aspirações, interêsses, problemas comuns aos vários grupos socioculturais que constituem o conjunto lusotropical. Conjunto do qual, sob vários aspectos, o Brasil se apresenta com condições de ser o líder. Uma responsabilidade política condicionada por uma filosofia antropo-ecológica.
- Já leu revistas em quadrinhos?
G.F. - Sim o Tico-Tico, na meninice. Posteriormente - mas já há algum tempo - escrevendo sôbre literatura para crianças, no Brasil, vim a criticar o Tico-Tico por ter durante anos apresentado nas suas pioneiras estórias em quadrinhos um Chiquinho côr-de-rosa e louro. Um Chiquinho exceção do menino tipicamente brasileiro: moreno. Nessa crítica, já pensava em termos de morenidade.
- Assiste novelas de televisão?
G. F. - Sim. Lembro-me de Cara Suja como uma das novelas brasileiras de televisão que mais me têm prendido a atenção. Sou admirador de Sérgio Cardoso assim como de Chico Anísio. Repugnam-me, em algumas dessas novelas, as situações cômicas em que são colocados personagens de côr preta - influências, evidentemente, dos antigos vaudevilles ianques, nos quais
sempre aparecia um negro levado ao ridículo. Onde está a censura de televisão no Brasil que não se apercebe de tais antibrasileirismos, talvez intencionais ou calculados? Pois há quem, em revistas e jornais, esteja procurando introduzir entre nós o mito da negritude, com intenções sectàriamente ideológicas.
- Inteligência e elegância sempre se combinam? O têrmo elegante pode ser aplicado a um representante das camadas populares?
G.F. - Não, inteligência e elegância nem sempre se combinam. O têrmo elegante é claro que pode ser aplicado a um "homem do povo". Tenho conhecido vários que, mesmo descalços e de unhas sujas, são elegantes. Mais: não conheço na aristocracia ou na alta burguesia de Portugal mulheres mais elegantes pelo andar e pelo porte, pelas formas e pelo modo de ajustarem o traje ao corpo, do que as varinas de Lisboa e as tricanas de Coimbra.
O mesmo direi das "bahianas" do Brasil - mulheres, como as tricanas e as varinas portuguêsas - do povo, em relação com as sucessivas "dez mais" da alta burguesia, cujas fotografias coloridas são publicadas pelas revistas ilustradas. As "bahianas" são mais elegantes do que as granfinas.
- Boemia e mundanismo são expressões que se repelem?
G.F. - Quase sempre, sim. Nem sempre, porém, Oscar Wilde, por exemplo, foi requintadamente mundano e, de várias maneiras, boêmio. Boêmio, antifilistino, antiburguês e, ao mesmo tempo mundano. Mundaníssimo.
- É a favor ou contra o divórcio no Brasil?
G.F. - No Brasil atual, necessitado do máximo de estabilidade para compensar-se de perigos de aliás necessário desenvolvimentismo - decididamente contra. A família no Brasil é, mais que em vários outros países, uma base de estabilidade de convivência. Trata-se de uma interpretação mais sociológica do que ética do assunto.
- Quais os motivos do crescente desprestígio político de Pernambuco no cenário nacional?
G.F. - Não me parece certo que êsse desprestígio venha todo da transferência do poder político do Norte para o Sul, quando o café superou o açúcar. Pois mesmo nos últimos decênios do Império e durante a chamada Primeira República, Pernambuco continuou a ter prestígio nacional nos setores políticos e culturais. Rosa e Silva, pernambucano, durante longos anos, foi até 1911 um líder
político, não só regional como de importância nacional. Estácio Coimbra teve, na crise na sucessão de 1930, nas suas mãos, a Presidência da República, que recusou para ser leal ao então Presidente Washington Luís, erradamente empenhado em fazer seu sucessor um político apenas da sua confiança pessoal: sem a ressonância nacional de Estácio Coimbra, a favor de cujo nome de pernambucano prestigioso estavam dispostos a renunciar suas pretensões o gaúcho Getúlio Vargas e o mineiro Antônio Carlos. O desprestígio de Pernambuco é fenômeno que vem ocorrendo desde a "Revolução de 30", quando a elite política, ligada à cultural, do Estado, foi desbaratada e substituída por grupos mal preparados para a liderança. Essa crise de liderança vem se acentuando, e com ela o desprestigio de Pernambuco.
- Que é ser pernambucano? Que é pernambucanidade? Por que?
G.F. - Por que baianidade? Por que mineiridade? Por que pernambucanidade?
Porque a cada uma dessas expressões corresponde um conteúdo sociológico que enriquece, em vez de comprometer, quer o de "brasileiridade", quer o de "nordestinidade" (e quem mais do que eu vem se batendo por uma justa nordestinidade?)
São conteúdos que transbordaram, uns nos outros, sem que cada um dêles deixe de ter o seu sentido necessário, específico e intransferível; e êstes, positivos, e não negativos, do ponto de vista da conveniência nacional que é a máxima.
Cada Estado, como outrora cada província, tem alguma coisa de intimamente seu a preservar e desenvolver.
- O Recife está melhor ou pior do que era?
G.F. - Isso de melhor ou pior é terrivelmente vago. Demasiadamente subjetivo. Confirmo a minha opinião já muito divulgada: o chamado "progresso" do Recife vem sendo mais uma inchação do que um crescimento sadio.
- Qual a fórmula para fazer do Brasil uma grande nação?
G.F. - Não acredito em fórmula para o engrandecimento de uma nação.
- O palavrão é necessário?
G.F. - No momento exato, sim, o palavrão é necessário.
É insubstituível. Em termos por assim dizer fisiológicos êle é, num momento dêsses,
equivalente do arrôto ou do peido alto. Mas como o arrôto ou o peido, aliviando um
indivíduo, ofende o olfato e os ouvidos dos circunstantes que não sintam, no momento,
igual necessidade de alívio ou de desabafo. Daí a necessidade de ser reduzido o seu uso
ao inevitável. Isto na vida real. Isto, por analogia, no teatro e na literatura. Quando
insubstituível ou inevitável, que venha o palavrão. Inútil qualquer substituto para
p... ou merda.
- Como se sente na faixa dos 70 anos?
G.F. - Desfruto de uma tal saúde, que preciso de opor a
matemática à biologia para me convencer que vou breve entrar na faixa dos 70. A verdade
é que há anos não atravesso crise de desalento igual à que me afligiu na transição
da adolescência para a mocidade. Inquieto, agônico, cheio de preocupações e até
angústias isto continuo. Não serenei. Continuo introspectivo. Mas também
observador, por vêzes volutuoso, das exterioridades da vida e do mundo. Observador e até
participante. Sendo um místico sou também um sensual. Isto na proximidade dos 70 anos,
como aos 20, aos 30, aos 40. Alguns dizem que sou libidinoso. Não contesto. Mas, a libido
em mim não é tôda sôlta. Parte dela é reprimida e, em linguagem freudiana,
"sublimada". Um malicioso dirá que depois dos 70 pouco haverá que reprimir.
Mas contra essa malícia se erguem, para outros casos que não é o meu é claro
exemplos de Goethes e, em alguns dêsses casos, completando os Goethes, exemplos de
"lolitas".
Fonte: GILBERTO Freyre aos 70. Entrevista concedida a Renato Carneiro Campos. Recife, 1970.
|